Geraldo Sarno foi um documentarista marcante do cinema brasileiro. Natural de Poções, na Bahia, era filho de comerciantes italianos e cresceu em meio a uma comunidade de imigrantes no sertão. Sua relação com o cinema começou na infância, nas salas de exibição de sua cidade, onde assistia a filmes e seriados junto a amigos, entre eles o futuro cineasta Glauber Rocha, com quem colecionava fotogramas e realizava projeções caseiras. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Sarno produziu obras fundamentais tanto no documentário quanto na ficção, conquistando prêmios e assegurando seu lugar na história do cinema nacional. Sua morte, decorrente de complicações da covid-19, encerrou uma trajetória de produção extensa e contínua, com trabalhos significativos desde os anos 1960.

Resumo

Em seu depoimento durante o 38º Festival de Cinema de Gramado, o cineasta Geraldo Sarno detalhou a concepção e os fundamentos de seu filme “O Último Romance de Balzac”. A ideia do projeto surgiu há mais de quinze anos, motivada por uma conversa com Muniz Sodré sobre a pesquisa de Osmar Ramos Filho. Interessado pela relação entre a criação intuitiva, materializada na psicografia, e a reflexão racional, Sarno decidiu investigar como um livro atribuído ao espírito de Balzac poderia lançar uma nova luz sobre a obra do célebre autor francês. O plano original previa filmagens na França, em locais como Paris e Carcassonne, e a utilização de antigos filmes mudos baseados na obra de Balzac.

No entanto, diante da falta de orçamento e do desaparecimento desses arquivos, o diretor optou por uma solução criativa: ele mesmo produziu um “filme mudo”, transformando a adaptação em um pastiche deliberado. Essa restrição, longe de limitar o projeto, acabou por definir sua estética singular.

Sarno descreve o filme resultante como uma “leitura não acadêmica” e um “olhar brasileiro” sobre um cânone europeu. Ele estabelece um paralelo coerente entre três elementos: o próprio romance psicografado (que é um pastiche de Balzac), a abordagem de pesquisa não convencional de Osmar Ramos Filho e a tradição estética do cinema mudo brasileiro. Essa tríade se funde em uma narrativa híbrida, que une documentário e ficção. Tematicamente, a obra se estrutura em dois eixos.

O segmento documental foca no mistério de como o fenômeno da psicografia pode revelar aspectos da obra de Balzac. Já a parte ficcional encena um dos temas centrais do autor: a ideia de que “a arte mata o artista”. Sarno conecta essa reflexão à modernidade do século XIX e a questões existenciais profundas, chegando a citar Guimarães Rosa para justificar sua proximidade intelectual e afetiva com Balzac, uma conexão que se mostra orgânica, mesmo partindo de uma trajetória cinematográfica anteriormente voltada para o sertão nordestino.

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