CAPÍTULO IV
Cronologia

O AVESSO DE UM BALZAC CONTEMPORÂNEO
Arqueologia de um Pasticho



RAMOS FILHO, Osmar. O avesso de um Balzac contemporâneo: arqueologia de um pasticho. 1. ed. Niterói: Publicações Lachâtre, 1995. p. 51-69.

Cronologia

No capítulo Cronologia, o pesquisador apresenta uma análise detalhada sobre a temporalidade e a cronologia nas obras literárias, com foco especial na técnica de Honoré de Balzac. O autor destaca como Balzac utiliza elementos do cotidiano, como clima, vestuário e botânica, para situar suas narrativas em momentos históricos precisos, diferenciando-se da literatura clássica. Através de um estudo minucioso de obras como O Pai Goriot e O Cristo Espera por Ti, o pesquisador reconstrói datas específicas utilizando ferramentas como o Calendário Republicano e cálculos astronômicos. A investigação revela que, mesmo quando o romancista omite datas explícitas, ele insere pistas simbólicas e referências históricas que conferem verossimilhança ao enredo. Dessa forma, o capítulo demonstra que o tempo em Balzac não é apenas um pano de fundo, mas um agente estruturante que molda a identidade e o destino das personagens. O texto oferece contribuições significativas para a metodologia de análise literária e aponta para diversas linhas de pesquisa que podem se beneficiar de sua abordagem interdisciplinar. A principal contribuição reside na função do pesquisador em examinar a construção da temporalidade, neutralizando a tensão dramática para identificar a estrutura lógica, falhas ou incongruências da cronologia de uma obra.

Rigor Metodológico na Reconstituição Temporal

O texto demonstra como é possível realizar um levantamento cronológico exaustivo utilizando “variáveis contidas no texto” que, após confrontadas, revelam datas precisas. Isso inclui o uso de ferramentas externas, como as fórmulas de Gauss para determinar datas móveis (como a Páscoa) e o uso de calendários perpétuos para validar dias da semana.

Interdisciplinaridade como Ferramenta de Validação

A pesquisa utiliza conhecimentos de áreas distintas para verificar a veracidade interna da narrativa: (i) ornitologia e botânica: análise do comportamento de aves migratórias (como o andorinhão) e do período de florescência de plantas (como as balsaminas e camélias) para determinar meses e estações do ano; (ii) astronomia: uso de registros de fases lunares, aparecimento de cometas (como o Biela) e posição de constelações (Cassiopéia) para datar eventos narrativos com precisão científica.

Decodificação de Simbolismos

O texto sugere que elementos aparentemente poéticos ou misteriosos podem esconder chaves de interpretação baseadas em fatos objetivos ou científicos, como a relação entre a “estrela Peregrina” e o nascimento de uma personagem.

Teoria Literária e Narratologia

Beneficia-se do estudo sobre como o romancista, como “mestre do tempo”, manipula a duração narrativa em contraste com o tempo de leitura ou a estrutura dramática teatral. Também auxilia na compreensão de como a omissão de balizamentos cronológicos pode ser um recurso intencional para manter a identidade de personagens ou enfatizar o relato.

Literatura Comparada

A abordagem permite comparar diferentes tratamentos do tempo histórico entre autores. Por exemplo, o texto contrasta a indiferença de Balzac por datas históricas externas (que ficam à margem da história descritiva) com o cuidado de Flaubert ou Victor Hugo em descrever as interferências entre a história oficial e a vida das personagens.

História e Sociologia da Literatura

Esta linha pode explorar como as personagens de uma época (como as de Balzac) possuem um “estilo de época” preciso, sendo marcadas tanto pelo lugar quanto pelo tempo, refletindo a “cor” de períodos como a Restauração ou o Consulado.

Filologia e Estudos Lexicais

A pesquisa mostra que o “inventário do vocabulário” e a “erudição vocabular” servem como fatores delineantes de uma época, tornando impossível ocultar registros cronológicos em objetos, usos e costumes.

Crítica Genética e Hermenêutica

A investigação de segredos que o autor “reserva para si mesmo” ou que estão “enterrados debaixo da realidade” (mitos e símbolos) abre espaço para pesquisas sobre a gênese da obra e a psicologia da composição.

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