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O episódio do shopping

Hoje faz uma semana que o médico Frederico Germano e sua esposa foram agredidos por seguranças do Amazonas Shopping. Na última quinta (15), às 18h30, o casal, acompanhado por duas amigas, esqueceu um telefone celular sobre a mesa de um restaurante.

Ao procurar a imagem de quem teria encontrado o aparelho — com a ajuda de funcionários do restaurante --, Frederico identificou uma mulher que ainda se encontrava na praça de alimentação do shopping. Ao abordá-la para pedir o telefone de volta, o médico foi agredido.

Contei essa história aqui, naquela mesma quinta, e mais de 120 pessoas comentaram o fato, todas indignadas.

Procurei o médico, que me enviou uma cópia do Boletim de Ocorrência policial, registrado no 12º Distrito Policial de Manaus no último dia 20. Frederico me contou que fizera um BO no dia seguinte à agressão, mas que o primeiro documento tinha informações incorretas. A versão que você vê abaixo é a do BO correto.

A reportagem do portal D24AM procurou a administração do Amazonas Shopping, que disse que não se pronunciaria sobre o incidente, mas tivemos acesso ao vídeo interno do restaurante (o mesmo vídeo no qual Frederico identificou a mulher que levou o telefone), e a imagem mostra desde o momento em que a esposa e as amigas do médico deixam o local até o momento em que a mulher sai com o telefone. Frederico não aparece nas imagens, pois no momento do ocorrido estava no caixa do restaurante, pagando a conta. O grupo ocupa a mesa no primeiro plano do vídeo.

Pelas imagens se percebe que a mulher entra e sai do restaurante várias vezes, aparentemente sem motivo. No áudio da gravação (retirado aqui para preservar o restaurante), os funcionários contam que, naquela tarde, a tal mulher procurara o restaurante procurando emprego, sem documentos, sem currículo e sem recomendações. No vídeo, os funcionários do restaurante também recomendam aos colegas maior cuidado com a movimentação estranha de pessoas.

Nas imagens do vídeo também não aparece o rapaz que acompanhava a senhora, e que agrediu Frederico. O Amazonas Shopping dispõe de câmeras de segurança na praça de alimentação, onde ocorreu a agressão ao médico e sua esposa, mas, com a negativa do shopping em prestar informações, não tivemos acesso às imagens.

Durante o registro do BO, Frederico apresentou fotos da camisa que usava na noite da agressão, manchada de refrigerante. Não havia ferimentos aparentes que pudessem ser utilizados como provas, tampouco imagens do sistema de segurança do shopping, que poderiam provar a agressão cometida tanto pelo casal quanto pela segurança.

Frederico diz que ainda se recupera do episódio, mas que vai tomar todas as providências sobre a agressão que sofreu pelos seguranças do shopping.

Abaixo, a imagem do Boletim de Ocorrência registrado pelo médico.

Imagine só a cena

Finja que você está lendo aquele livro policial ruim e faça uma força pra mentalizar a seguinte cena:

É final de tarde, e você vai a um shopping da cidade por volta das 18h. Você, sua esposa e duas amigas, uma senhora de 60 anos e sua filha, funcionária de uma loja do shopping, param para um lanche num restaurante de comida árabe, na primeira praça de alimentação do shopping. Ao sairem do restaurante, a senhora que o acompanhava percebe que esqueceu o telefone celular sobre a mesa. Então você volta ao local e, não encontrando o aparelho, pede que a gerente o ajude, mostrando a gravação do sistema de segurança da loja. Nas imagens, você e a gerente veem uma moça, loira, com cerca de 30 a 35 anos, portando uma bolsa preta e um guarda-chuva azul, pegando o telefone esquecido e indo embora.

Você olha em volta e percebe que a moça da gravação ainda está na praça.

Tomando cuidado para não causar constrangimentos, você aborda a moça, alegando que o telefone que ela guardou estava perdido, e o pede de volta, discretamente. Você não a acusa de nada, sequer cobra o aparelho. Na verdade, para evitar maiores transtornos, você pensa em agradecê-la por ter guardado o telefone, certamente para procurar o dono mais tarde.

Então você começa a ser agredido, tanto pela moça quanto por seu namorado, que a acompanha. Iniciando um escândalo, o casal acusa você de tê-los chamado de ‘vagabundos’.

Você insiste em não querer confusão, e só pergunta pelo telefone perdido. Então o rapaz, enfurecido pela pergunta, tira o celular do próprio bolso e o atira para o alto. Quando você se inclina para pegar o telefone, o rapaz se aproxima e lhe atira um copo de refrigerante na blusa.

Agora imagine que, mesmo assim, acompanhado por sua esposa — portadora de necessidades especiais — e mais duas senhoras, você só quer que aquilo tudo acabe. Mas não acaba. O rapaz que lhe agrediu com o copo de refrigerante pega uma cadeira da praça e a atira em você.

Você já conseguiu pintar a cena mentalmente?

Então chegam os mocinhos, a cavalaria, a segurança do shopping. Você ainda se recupera da agressão, e então seis guardas lhe agarram e lhe arrastam, sob os olhos de todos os visitantes da praça, até a sala da segurança. Você então aguarda a chegada do casal, certamente vindo também acompanhado pelo resto do aparato de segurança.

E nada do casal. É então que você percebe que o bandido é você, e que as suas vítimas, o casal que furtou o celular da sua amiga e lhe agrediu, foi liberado. O chefe da segurança diz não poder fazer mais nada, pois a informação que tinha era que você era o agressor. Testemunhas contam a você, depois, que enquanto você era arrastado pelos seis guardas, o casal era conduzido para a porta de saída, próxima de um restaurante de comida oriental e de uma lanchonete de hambúrgueres.

Então você é liberado pela segurança e decide voltar ao restaurante, para pedir que o estabelecimento guarde a gravação. Afinal, é com ela que você vai provar sua inocência. Então, ao passar por um dos seguranças, você, compreensivelmente revoltado, dá um tapinha em seu ombro e, ironicamente, agradece pela grande ajuda que a segurança havia acabado de lhe dar.

A agressão começa novamente, mas agora não mais vinda do casal, que àquela hora já foi embora. Quem lhe agride é o segurança do shopping, dando-lhe um empurrão nas costas, exigindo respeito. Sua esposa, deficiente, tenta conter o guarda, e também é agredida, junto com a senhora que acompanha vocês, de 60 anos de idade.

A confusão termina novamente, pois a segurança do shopping rapidamente contém o guarda e o afasta do local.

Os funcionários do restaurante então se negam a lhe mostrar novamente a gravação do furto. Algumas pessoas se oferecem para testemunhar a seu favor, mas a segurança o impede de pegar os contatos delas. Você está sendo expulso do shopping. Você, sua mulher deficiente, a senhora de 60 anos que lhe acompanha e a filha dela.

O que lhe resta é sair, e novamente desfilar por todo o shopping, chorando, com a camisa coberta de refrigerante.

Sim, você chora, está muito nervoso. Sua esposa, agredida no braço, também chora. O shopping inteiro assiste a sua saída. O que resta a você é a humilhação e a vergonha causada pelos olhares da plateia.

A plateia que lhe olha como um bandido.

Essa história aconteceu ontem (quinta, 15) com Frederico Germano Lopes Cavalcante, um médico de 29 anos de idade, que cometeu um erro: tentou recuperar um objeto furtado pedindo-o educadamente ao ladrão. Eram 18h30 da noite, e a praça de alimentação do Amazonas Shopping estava, como de costume, cheia. Frederico, a quem não conheço, me procurou para me contar o ocorrido, pois não quer deixar a história pra lá. Conversei com ele por email há pouco, e pretendia lhe pedir uma cópia do Boletim de Ocorrência que registrou na delegacia. Não consegui. No último email que me enviou, Frederico dizia estar sedado por um medicamente anti-hipertensivo. Hoje vou tentar falar com ele novamente. E depois, talvez fazer o coro com as pessoas de Manaus que já cansaram da completa falta de preparo dos funcionários do setor de serviços dessa cidade, que tanto se orgulha de seu tamanho e de seu futuro como sede de Copa do Mundo, enquanto continua vendo verdadeiros absurdos como estes, dignos de uma comédia pastelão de segunda categoria, daquelas que se confundem facilmente com tragédias vergonhosas. O caso de Frederico, sua esposa e suas amigas não é o primeiro, não deverá também ser o último. Para que caia no esquecimento, o absurdo da noite desta quinta precisa apenas da falta de ação e indignação das pessoas que, no lugar de exigirem respeito dentro de um local onde gastam seu dinheiro, apenas assistem casos como esse acontecerem.

Um triste escândalo sem rosto

Os casos mais recentes de abusos e violências contra a mulher acendem uma questão tão importante quanto medieval: que políticas públicas podem ser pensadas para que os casos de D.B.B, A.LF.S. e A.C.M.C. parem de se multiplicar pelo país?

A maioria do eleitorado brasileiro é feminina, assim como quase metade da força de trabalho do país. Não deveria haver, por imposição física ou social, a prevalência de homens sobre mulheres; ainda que essa diferença fosse inevitável, seria mais lógico que favorecesse as mulheres.

O caso do médico Edson inevitavelmente faz aflorar a percepção de que não há pra onde correr. Numa rua mal iluminada, hoje é difícil saber o que amedronta mais, um grupo de rapazes bêbados ou um grupo de policiais. Parece inconcebível que, dentro de um consultório médico, uma mulher seja violentada por alguém que deveria lhe ajudar, passar confiança e tranquilidade.

O trauma e a indignação são os traços comuns a esses tipos de casos. No espaço de tempo de uma consulta médica, mulheres, mães e filhas, com nomes e sobrenomes, passam a ser identificadas apenas por suas iniciais. A tranquilidade asséptica de um hospital ganha a cor e a dor de um caso de polícia. O silêncio parece ser o único caminho, uma espécie de cela pessoal em que cada mulher agredida se isola. Dimensionar a quantidade de mulheres violentadas, agredidas e espacandadas hoje, dentro de casa, é um desafio para as autoridades.

Roger Abdelmassih, a maior referência pessoal em reprodução humana assistida no Brasil, hoje responde a 56 acusações de estupro, dentro de sua clínica. Está em casa graças a decisão do Supremo Tribunal Federal. Seu caso precisa ajudar o país a prestar mais atenção ao que ocorre dentro das clínicas e hospitais.

Cabe também ao Conselho Regional de Medicina, onde ocorrem acirradas disputas eleitorais e animadas festas de confraternizaçao, cumprir a obrigação de proteger a sociedade de seus representantes com desvio de caráter ou personalidade, e não o contrário. Estão aí os casos da menina Bruna Paloma e do cantor Carlos Casagrande, mortos na mesa de cirurgia do mesmo médico. Em que pé anda a investigação sobre esses casos, senhores do CRM?

Há poucas lições a tirar dos supostos estupros do Dr. Edson, além da maior delas: basta que uma mulher resolva denunciar, e o fio da navalha por onde caminham estes médicos (muitas vezes acostumados a anos e anos do silêncio de suas vítimas) facilmente se rompe.

Crianças não deviam ser abusadas pelo padre, meninos não deviam ser agredidos pelo policial, mulheres não deviam ser violentadas pelo seu médico. A repetição dos casos acaba banalizando o crime, aprofundando o sofrimento das vítimas, incentivando o criminoso a fazer mais vítimas.

Há escândalos que não podem sossegar, de forma alguma.

No AM, ninguém cumpre a Lei da Transparência

(Foto: Danilo Mello/DA)

Caio Mota - Da Redação, no Diário do Amazonas de hoje.

Nenhum dos principais órgãos públicos do Estado começou a publicar, na internet, em tempo real, o quanto arrecadam e como gastam o dinheiro dos contribuintes, mesmo com o prazo de um ano que tiveram para adotar a política de transparência da Lei Complementar 131, que começou a vigorar ontem.

Sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 27 de maio de 2009, a lei estabeleceu prazo de um ano para União, Estados, Distrito Federal e municípios com mais de 100 mil habitantes se adequarem à nova regra.

Segundo a lei, os órgãos públicos devem fornecer o “acompanhamento da sociedade, em tempo real, de informações pormenorizadas sobre a execução orçamentária e financeira, em meios eletrônicos de acesso público”. Em caso de descumprimento, a principal penalidade é a suspensão dos repasses voluntários de verbas federais.

Ontem, os sites da Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz), do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), do governo do Estado e da Assembleia Legislativa do Estado (ALE) não estavam adequados à nova lei.

O secretário de Estado da Fazenda, Isper Abrahim, afirmou que a transparência das contas dos 32 órgãos públicos estaduais estaria disponível, ainda ontem, no portal do governo do Estado, o que não ocorreu até o fechamento desta edição. Segundo o secretário, a Sefaz ficou responsável pela divulgação das contas dos órgãos estaduais e desenvolveu um sistema novo de controle das contas públicas do Estado, que pode disponibilizar pela internet, de forma atualizada, os gastos e a arrecadação das secretarias e autarquias estaduais.

Abrahim ressaltou apenas que a publicação pode ter atraso de um dia e que o sistema pode ter problemas, por ser novo e nunca ter sido testado antes. De acordo com o secretário, a Sefaz analisa se vai criar um site específico para publicar todas as contas dos órgãos estaduais.

O Tribunal de Contas do Estado (TCE) e o Ministério Público do Estado (MPE) são responsáveis por fiscalizar o cumprimento da lei e também devem cumpri-la. Ontem, o presidente em exercício do tribunal, conselheiro Érico Desterro, ao contrário do que disse Abrahim, afirmou que iria começar hoje, a publicação das despesas e arrecadação dos órgãos públicos do Estado. Segundo Érico, a divulgação será feita através do site www.transparencia.am.gov.br, que até ontem não estava no ar.

Desterro disse que as contas dos órgãos públicos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do Estado estariam neste site e que o TCE fiscalizará o regular funcionamento da lei.

O procurador-geral de Justiça, Otávio Gomes, afirmou que ainda analisa como será feita a fiscalização para fazer com que a lei seja cumprida. Segundo ele, o MPE não tem previsão de quando vai se adequar à lei.

Município

Na administração municipal, as contas também não são publicadas de forma atualizada no site da Prefeitura de Manaus. O DIÁRIO tentou entrar em contato com a secretária de Finanças do município, Maria Helena Alves, mas as tentativas não tiveram êxito.

A Câmara Municipal de Manaus (CMM) aprovou em abril do ano passado, a Lei 093/2009, que dispõe sobre a transparência de suas atividades, obrigando a publicação dos atos normativos, administrativos e contábeis, no site da Casa. A instituição publica dados de gastos e arrecadação de forma mais detalhada que a ALE, mas as publicações são realizadas com um atraso de até dois meses. De acordo com o presidente da Câmara, vereador Luiz Alberto Carijó (PTB), a transparência será ampliada e os gastos serão publicados de forma mais atualizada, como obriga a lei, a partir da próxima semana.

Carijó afirmou que serão publicados no site da Câmara o nome de cada funcionário lotado nos gabinetes dos 38 vereadores, o que não é uma obrigatoriedade pela lei, mas que na visão do vereador, é necessário para dar mais transparência ao uso do dinheiro público pelos parlamentares.

No Amazonas, além de Manaus, somente Parintins tem população superior a 100 mil habitantes. Segundo levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), a Prefeitura do município informou que não conseguiria cumprir a lei no prazo determinado.

Comentário meu: Diante do flagrante descumprimento da lei por todos os órgãos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, o caminho natural da sociedade seria acionar o Ministério Público Estadual para que fizesse a cobrança pela legalidade do Poder Público. O problema é que o próprio MPE, também obrigado desde ontem a publicar suas contas, está descumprindo a lei. A Lei Capi adiciona artigos à Lei de Responsabilidade Fiscal, em vigor desde 2000. E o que diz o 2º parágrafo do primeiro artigo da LRF é:

§ 2º As disposições desta Lei Complementar obrigam a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios.

§ 3º Nas referências:

I – à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, estão compreendidos:

a) o Poder Executivo, o Poder Legislativo, neste abrangidos os Tribunais de Contas, o Poder Judiciário e o Ministério Público;

A pergunta que surge, então, é: a quem recorrer agora, Capi?


Abaixo, o texto da Lei Capi, em vigor desde ontem.

Presidência da República
Casa Civil
Subchefia para Assuntos Jurídicos

LEI COMPLEMENTAR Nº 131, DE 27 DE MAIO DE 2009

Acrescenta dispositivos à Lei Complementar no 101, de 4 de maio de 2000, que estabelece normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal e dá outras providências, a fim de determinar a disponibilização, em tempo real, de informações pormenorizadas sobre a execução orçamentária e financeira da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei Complementar:

Art. 1o O art. 48 da Lei Complementar no 101, de 4 de maio de 2000, passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 48. ………………………………………………………………………..

Parágrafo único. A transparência será assegurada também mediante:

I – incentivo à participação popular e realização de audiências públicas, durante os processos de elaboração e discussão dos planos, lei de diretrizes orçamentárias e orçamentos;

II – liberação ao pleno conhecimento e acompanhamento da sociedade, em tempo real, de informações pormenorizadas sobre a execução orçamentária e financeira, em meios eletrônicos de acesso público;

III – adoção de sistema integrado de administração financeira e controle, que atenda a padrão mínimo de qualidade estabelecido pelo Poder Executivo da União e ao disposto no art. 48-A.” (NR)

Art. 2o A Lei Complementar no 101, de 4 de maio de 2000, passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 48-A, 73-A, 73-B e 73-C:

“Art. 48-A. Para os fins a que se refere o inciso II do parágrafo único do art. 48, os entes da Federação disponibilizarão a qualquer pessoa física ou jurídica o acesso a informações referentes a:

I – quanto à despesa: todos os atos praticados pelas unidades gestoras no decorrer da execução da despesa, no momento de sua realização, com a disponibilização mínima dos dados referentes ao número do correspondente processo, ao bem fornecido ou ao serviço prestado, à pessoa física ou jurídica beneficiária do pagamento e, quando for o caso, ao procedimento licitatório realizado;

II – quanto à receita: o lançamento e o recebimento de toda a receita das unidades gestoras, inclusive referente a recursos extraordinários.”

“Art. 73-A. Qualquer cidadão, partido político, associação ou sindicato é parte legítima para denunciar ao respectivo Tribunal de Contas e ao órgão competente do Ministério Público o descumprimento das prescrições estabelecidas nesta Lei Complementar.”

“Art. 73-B. Ficam estabelecidos os seguintes prazos para o cumprimento das determinações dispostas nos incisos II e III do parágrafo único do art. 48 e do art. 48-A:

I – 1 (um) ano para a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios com mais de 100.000 (cem mil) habitantes;

II – 2 (dois) anos para os Municípios que tenham entre 50.000 (cinquenta mil) e 100.000 (cem mil) habitantes;

III – 4 (quatro) anos para os Municípios que tenham até 50.000 (cinquenta mil) habitantes.

Parágrafo único. Os prazos estabelecidos neste artigo serão contados a partir da data de publicação da lei complementar que introduziu os dispositivos referidos no caput deste artigo.”

“Art. 73-C. O não atendimento, até o encerramento dos prazos previstos no art. 73-B, das determinações contidas nos incisos II e III do parágrafo único do art. 48 e no art. 48-A sujeita o ente à sanção prevista no inciso I do § 3o do art. 23.”

Art. 3o Esta Lei Complementar entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 27 de maio de 2009; 188o da Independência e 121o da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Tarso Genro
Guido Mantega
Paulo Bernardo Silva
Luiz Augusto Fraga Navarro de Britto Filho

Cinco dias depois, presepada rende demissão a funcionário do ICBEU

Recebi agora há pouco o seguinte email do Sr. Afonso Silva, Gerente de TI do ICBEU Manaus.

Boa Noite,

Segue algumas considerações

Tendo em vista os últimos acontecimentos envolvendo o ICBEU MANAUS, vimos esclarecer o que segue:

I – O ICBEU é uma Instituição que há 54 anos é a líder no ensino da língua Inglesa no Amazonas e é reconhecida pela Embaixada Americana, como uma escola de ensino de inglês, Classe A.

II – De acordo com os seus Estatutos, no art. 50, lê-se: “É VEDADO AO INSTITUTO DE PROMOVER OU PARTICIPAR DE QUALQUER ATIVIDADE POLÍTICO PARTIDÁRIA OU RELIGIOSA”. E, assim, vinha-se atuando, até que um funcionário de maneira irresponsável, pessoal, utilizou-se de sua ferramenta de trabalho, pois o mesmo exercia as suas funções laborais no CPD do IC BEU/ MANAUS, ao arrepio dos Estatutos, passou a denegrir a imagem de um pré candidato às eleições do pleito que se avizinha, e de outras tantas pessoas.

III – É necessário esclarecer ainda que o dito funcionário após a Diretoria, do ICBEU tomar conhecimento de tais fatos, imediatamente, afastou-o de suas funções laborais e demitiu-o, não mais pertencendo ao seu quadro funcional.

Essas eram as considerações que deveríamos fazer para o resguardo da integridade e da personalidade de uma Instituição que nunca se envolveu ou se envolverá com questões político partidárias de qualquer natureza.

Para os magistrados do TJ, o melhor governador dos últimos tempos

No último dia 17 de maio, o governador do Amazonas assinou a Lei 3.506/2010. O ato foi publicado no dia seguinte, e com isso os 19 desembargadores e 148 juízes do Amazonas ganharam o direito de receber — além dos salários regulares — R$ 13,5 mil e R$ 12,1 mil, respectivamente. A bolada, segundo a lei, é a diferença entre o que os magistrados receberam e o que deveriam ter recebido entre janeiro de 2005 e março de 2006.

No início de 2005, a Câmara Federal aprovou o aumento do salário dos ministros do STF. Com isso, em tese, todos os magistrados do país estavam livres para, dentro da lei, passar a receber o teto constitucional. Explico o grifo: é que, diferente do piso salarial, o aumento do salário de servidores públicos depende da aprovação de uma lei. O reajuste anual do salário mínimo, por exemplo, eleva automaticamente o piso brasileiro.

Com o aumento de salários rumo ao teto, é diferente. Os deputados de cada estado precisam criar, votar e aprovar uma lei, que precisa então ser sancionada pelo governador.

Pois acredite, durante mais de um ano os juízes e desembargadores amazonenses comeram o pão que o Diabo amassou, pois nossos deputados só aprovaram o aumento em março de 2006.

A injustiça só foi desfeita porque, no último dia 17, o Amazonas tinha um governador atento ao drama da categoria. Também sensibilizados com a situação, os deputados amazonenses, sob cujos olhos repousam cerca de 500 projetos sem apreciação, redigiram, apresentaram, votaram e aprovaram uma nova lei, escrita única e exclusivamente para pagar a diferença retroativa à turma da toga.

À primeira vista, não parece haver nada ilegal na história. O problema é o aspecto moral, esse troço tratado como intangível por muita gente, mas que é chamado na Constituição Federal de Princípio, o da Moralidade. O governador que sancionou a Lei 3.506/2010, no último dia 17, era o desembargador e presidente do TJAM, Domingos Jorge Chalub.

Durante uma viagem de dois dias de Omar Aziz ao interior, Chalub correu para o corner, bateu o escanteio, foi para a pequena área, cabeceou, tentou defender a cabeçada e ainda correu para buscar a bola no fundo da rede.

Numa coletiva dada ontem (veja o video abaixo), Chalub justificou a canetada com o preceito constitucional do ‘efeito cascata’, e disse estar magoado com a coordenadora-geral do Sindicato dos Trabalhadores da Justiça do Amazonas (Sintjam), Eladis de Paula.

É que Eladis cobrou um posicionamento do presidente quanto aos 2 mil servidores sem cargos de comissão da Justiça amazonense, que não recebem reajuste há 8 anos.

O TJAM tem 167 magistrados. Atualmente, o salário de um desembargador é R$ 24,4 mil e de um juiz é R$ 21,9 mil. O salário dos funcionários do tribunal sem comissão varia de R$ 1,8 mil a R$ 3,5 mil.

“Com o PCCS aprovado há dois anos, um diretor que ganhava R$ 7 mil passou a ganhar R$ 13 mil. Já o escrivão, auxiliar judiciário e técnico judiciário não têm o salário reajustado há oito anos, porque não possuem PCCS”, explicou Eladis ao Diário do Amazonas no último dia 20.

Pausa para meditação

por Benayas Inácio Pereira

Émile Couê, psicólogo e farmacêutico francês, nasceu em 26-2-1857 e morreu em 2-7-1926. E daí? Acontece que, quando eu era ainda criança, casualmente tive acesso a uma de suas obras e, naquele tempo não se falava de livros de autoajuda. Foi por essa época que apareceu um tal de Omar Cardoso que tinha um programa no rádio, onde falava de horóscopo e citava sempre uma frase que dizia: “Todos os dias, sob todos os pontos de vista, eu vou cada vez melhor”. Gostaram? Eu também, mas só que esta frase é de autoria do Émile e não do Omar.

Puro plágio! Eu só sei que fiquei fã do Émile. Até o John Lennon também, pois na música “Beautiful Boy” ele conseguiu inserir o mantra acima citado. Émile dizia também que nosso cérebro só pode pensar uma coisa de cada vez, portanto, devemos pensar coisas positivas sempre. Humilde, Couê falava que nunca havia curado ninguém e que somente ajudava às pessoas a se curarem. Legal o Émile, não? Então, ainda dentro do assunto, quando era jovenzinho, eu gostava muito de ver os grandes jogadores de sinuca.

Eles se reuniam no enorme e famoso “Salão Comercial”, situado à Praça da Sé, marco zero da cidade de São Paulo. Do terceiro andar eu ficava encostado nos abertos janelões do prédio (acho que ainda não havia sido descoberto o aparelho de ar-condicionado) e ficava a observar aquela massa humana que já infestava o centro velho da capital paulista. E vinha-me à cabeça o que cada um dos transeuntes pensava naquele exato momento. Eu reparava nos homens engravatados e de chapéu que passavam apressados, provavelmente, funcionários de grandes empresas que se aglomeravam nas ruas centrais ou mesmo dos bancos que proliferavam feito filhotes de rato.

Desfilavam também as madames elegantes com luvas e vestidos longos em contraste com os mendigos que interpelavam um ou outro em busca de um mísero trocado. Aí é que volta à cena o Émile Couê. Nem todos podem dizer que “Vou cada vez melhor”, mas a vida é mesmo assim. Enquanto uma minoria de felizardos milionários, biliardários e multibiliardários gastam imensas fortunas com bobagens egocêntricas, e nem sequer pensam no pobre, a maioria quase absoluta briga pelo pão-nosso de cada dia. E pior, nem todos conseguem o mínimo para sua sobrevivência. Nesse diapasão, a fome se alastra pelos quatro cantinhos do mundo redondo. Não vai demorar muito e os nababescos ricaços de plantão irão sentir na carne os efeitos daquilo que indiretamente plantaram. E, claro, irão sucumbir abraçadinhos com o dinheirinho ganho com tanto “esforço”.

Puxa! Ia me esquecendo do Couê. Tudo o que ele professou e tentou ensinar foi por água abaixo. Dizem que apesar do seu método ser bem eficiente, era de difícil interpretação. Azar da população que, se em 1926 não conseguiu pensar sobre esse intrincado assunto, imagina agora oitenta e quatro anos depois. Em meados do século passado inventaram a tal de cibernética. Baseando-se no fato que ela veio para ficar… Adeus, cabeças pensantes!

No ótimo filme “Pasqualino Sete Belezas”, da cineasta italiana de nome alemão Lina Wertimüller, um personagem profetizou que lá pelo ano de 2050, um filho matará o pai ou o irmão ou a própria mãe para lhes roubar um naco de pão. Absurdo? Não! A população mundial cresce vertiginosamente e brevemente não haverá mais espaço para se plantar nem um reles pezinho de couve. E que não me venham esses japoneses com seus bonsais tentando resolver o impossível.

Para se ter uma pequena ideia, no ano 1500 a.C. a população mundial era de 28 milhões. No ano zero, isto é, há dois mil e dez anos era de 170 milhões de pessoas. A matemática é uma ciência exata. Nestes 1.500 anos a população cresceu apenas 142 milhões de seres. Hoje, após mais 2.010 anos ela passa dos sete bilhões, isto é, em números reais um aumento de 6.858.000 de criaturas. Pelo andar dos burros da carroça, acredito que no tempo do decantado “dilúvio” bíblico, a população contava no máximo com uns mil gatos pingados já incluindo a numerosa família do afamado Noé.

Atualmente, os mais pessimistas, vislumbram a falta de comida, de água e até do próprio ar. Os ambientalistas se coçam mais que jogadores de futebol dando entrevistas após as partidas, e não chegam a nenhuma solução concreta. Partindo do pressuposto que eu não sou pessimista e também por achar que em 2050 eu “já era”, infelizmente não vou poder assistir e, muito menos participar deste processo.

Calma gente! Nada de se mudar para a Lua ou Plutão.

Volta à tona o Émile Couê. Quem sabe aparece um Pelé, digo, um novo Couê da ciência e redescobre a nova fórmula da pólvora? Se aparecer tudo estará resolvido como num passe do Jacó, aquele pai de santo. Ao contrário, se não aparecer o esperado Raimundo, digo, Messias da nova era, como dizia Adoniran… Paciência Iracema.

Afinal, “Quem pariu Mateus que embale Mateus”.

Benayas Inácio Pereira é cronista e poeta - benayas_poeta@hotmail.com

Ao Ribamar Bessa e ao nosso amor em comum

Astridpor Astrid Lima

As ruas de pedra crua, o joelho sempre ferido, o primeiro beijo, o seu Ceguinho, a Carmem Doida, o padre Marcos, o português Fernando que nós tínhamos certeza não se afastava nunca do seu bar, o medo do Conêgo Azevedo antes da reforma onde, corria a voz, havia um esqueleto além dos seus muros escuros (muralhas, para nós crianças), as corridas com os cachorros nos nossos calcanhares, os banhos de chuva embaixo das calhas, cachoeiras de detritos, o último andar do colégio Aparecida, onde se dizia era fechado desde que o elevador despencara matando dois estudantes (poucos ousaram ultrapassar as portas fechadas, desafiando as escadas em ruínas que davam na antiga biblioteca), os papagaios enrolados nos fios, a goiabeira de galhos lisos atrás de casa, a família Pacatuba na frente, os Paixões e as brigas memoráveis, os pequenos empurrões entre amigas, o rio, as corridas até a bóia no meio da água, os arraiais na Igreja, a primeira comunhão e o medo de cometer pecado entre a primeira confissão e a ostia sagrada no dia seguinte, a total, absoluta ausência de roubos, a quadra, as passagens secretas até a Luiz Antony, as velhas casas estreitas, minúsculas, da Bandeira Branca, as enchentes que lambiam as cozinhas com os quintais de rios na Gustavo Sampaio, o seu Aury, que consertava tudo, a dona Pequena fumando cachimbo na cadeira de balanço. As cadeiras de balanço! Todas as cores: amarelas, verdes, azuis, enfeitando as portas; o seu Osmar e a sua ternura africana.

Não sei o que existe naquele lugar que nos rende ligados a ele desse modo indissolúvel, não sei o que é capaz de marcar a memória com esse fogo perene, não tenho um nome para explicar o que, desse bairro — pedaço de terra, quase lama de rio — permanece em silêncio no lugar mais remoto da nossa alma e que retorna toda vez que perdemos a estrada, que erramos o caminho, que nos sentimos solitários e vencidos. Retorna, nos sussurra um nome, nos recorda um aniversário.

Aparecida. Aquele lugar nos forja em continuação. Vamos morrer pela mesma causa e, espero, com um meio sorriso nos lábios lembrando do Rubem nos dando uma piscadinha cúmplice.

A Aparecida não é uma doença, é a nossa loucura.

A infância acabou.

Receita de herói

Tome-se um homem feito de nada
Como nós em tamanho natural
Embeba-se-lhe a carne
Lentamente
De uma certeza aguda, irracional
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois perto do fim
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim
Serve-se morto.

Reinaldo Ferreira em “Portos de Passagem”, 1991

Outro dia vi Wagner Love, do Flamengo, dizer que acabara de sofrer a derrota mais prazerosa de sua carreira. O rubro-negro carioca perdera a segunda partida das oitavas de final da Copa Libertadores por 2 a 1, para o Corinthians. O resultado levava o Flamengo adiante no torneio e eliminava o time paulista.

Hoje, com a confirmação da chapa Alfredo Nascimento / Serafim Corrêa para concorrer ao governo do Amazonas, lembrei do Wagner Love e imaginei o que deverá ser, para o ex-prefeito, a vitória mais amarga de sua carreira. Não porque sua relação com o senador seja tumultuada ou de inimizade, mas pelo que Alfredo representa. Mais do que isso, pelo que Serafim representa.

Ao ver o PSB costurar sua chapa com o PR de Alfredo, sob as bênçãos do presidente Lula e diante de toda a minha torcida contrária, entendi o que separam socialistas de socialistas, ou oposicionistas de oposicionistas. Serafim escolheu ser coadjuvante de uma vitória, em vez de protagonista de uma derrota. Ainda vai precisar de algum tempo para saber se fez a escolha certa, mas terá pouco tempo para convencer seus eleitores disso.

Posso falar pessoalmente. Ao tomar conhecimento da notícia, vi ao meu redor o furor que aguarda Serafim e percebi como é reconfortante, mesmo contrariado com a notícia, ver provado que ainda há políticos capazes de decepcionar seu eleitorado. Isso não pode ser ignorado, porque essa é uma raça rara. Espero apenas que Serafim tenha tido a noção da quantidade dessas pessoas. O tal “exército invisível” de Jefferson Peres não pode ser desprezado — nem tornado sacrosanto, como se este mesmo exército não tivesse abandonado o então prefeito em favor de Amazonino, que hoje faz a Prefeitura que faz.

É um fato amargo, não tentemos esconder. O PSB escolheu seu projeto político, e projetos políticos só andam a base de vitórias. Com elas aumenta a representatividade do partido em todas as esferas, a nacional, as estaduais e municipais. Senadores, deputados e vereadores aumentam em número, o partido cresce, deixa de ser oposição por oposição, do tipo que morre de medo de ganhar, só quer marcar posição. Com seu PSB, contando dinheiro para viajar pelo interior, Serafim faria a minha alegria e a alegria de muitos dos que queriam vê-lo disputando o cargo maior do estado. Se deixasse exposta sua falta de dinheiro e estrutura, então, encheria ainda mais seu eleitorado de orgulho.

Mas ele não venceria.

Por isso, eu entendo o PSB. Mas ainda é muito cedo para saber se, depois desse adeus à infância, as vitórias e derrotas da vida adulta trarão a Serafim a redenção. A aliança com Alfredo, e mais do que isso, o resultado dessa aliança nas urnas, será o divisor de águas entre a política que se vê nas ruas e a política que se faz nas urnas. De uma forma ou de outra, a decisão de Serafim e do PSB vai tirar as dúvidas sobre quem estava certo: quem acreditou na vitória de um Davi contra dois Golias, ou quem acreditou em números que mostravam o tamanho da impossibilidade — logística e financeira, especialmente.

A olhos vistos, Serafim sofreu com o dilema. Entre seus eleitores, era flagrante a pressão pela candidatura insólita, abandonada pelos partidos que o apoiaram em 2008. Seus eleitores, onde eu me incluo, tocavam a vida enquanto Serafim ouvia, nos almoços e visitas que recebia, os porquês de quem lhe largava. Uns precisavam do apoio de deputados estaduais no interior. Deputados são governistas, não podiam apoiar alguém que caminhasse ao lado de Serafim. Outros alegavam que Serafim não tinha dinheiro, assim, com essa franqueza. E, no todo e nas partes, Serafim absorvia o ícone que criou, o do oposicionista que certa vez venceu a máquina. Perderia fragorosamente, esmagado na piçarra e no lixo espalhado nos 62 municípios do interior, por duas naves gigantescas.

Mas perderia bonito, diríamos todos nós.

Em política, assistindo as caminhadas dos Serafins, das Marinas, dos Gabeiras e dos Cristóvams, percebi que gente que não trai é que apanha. Gente que fala a verdade é que cria dívidas com os eleitores. É o preço justo pela escolha em se fazer na política o que poucos fazem na política. Pode parecer um contrasenso, mas me orgulho de fazer parte de um grupo de eleitores difícil de dobrar. Ver as pessoas que vi hoje criticando a decisão do PSB dá gosto, me fez lembrar de tantos políticos e partidos que até outro dia ainda suavam a camisa e gastavam seu latim — ou seu russo — para manter seu eleitorado. Caberá aos eleitores de Serafim, agora, continuar cobrando. Caberá a Serafim continuar respeitando a inteligência dessa gente.

Não cabe aqui condenar quem ajuda a fazer da nossa política o balaio de gatos que ela é. Ver um senhor de 63 anos angustiado com o convite para embarcar numa candidatura favorita me faz lembrar dos jovens, alguns com menos de 30 anos, que hoje já se renderam à ideologia do cinismo, ao empreguismo e à tentação de fazer parte do poder, seja o poder de quem for. A opção pelo cinismo é tentadora, porque é fácil. Qualquer jovem político sem muitas luzes pode ser cínico, e há exemplos aos montes. E porque são montes, acabam reescrevendo uma história que deveria ser outra, a dos homens e mulheres que, na política, mais choram do que riem. Desconfio de políticos risonhos e felizes, porque no mais das vezes são apenas vítimas da mosca azul, satélites de outros políticos ou apenas gente sem profissão definida que vive à procura de um galho pra sentar — e rir de quem passa.

Hoje, vendo a reação raivosa da platéia ao fim do dilema do PSB, exposto em praça pública durante dias e dias, lembrei de tantos finados heróis do nosso passado recente. Petistas e comunistas devem ter recebido o fim da candidatura Serafim com um misto de inveja e alívio. Inveja porque aceitariam, rápida e sorridentemente, fazer parte de uma chapa tão forte. Alívio porque, vendo Serafim apanhar em público, podem expiar seus pecados e repousar confortavelmente nos gabinetes que ocupam, sem eleitores na sua cola, sem ideologia pra defender, sem bandeiras pra empunhar.

O tempo dirá se Serafim acertou ao render-se aos números. Meu palpite é o de que apressou-se a se declarar candidato, contando com apoios que, se em nível local eram simples, em nível estadual se revelaram teoremas matemáticos. Eleições em Manaus são uma coisa, eleições estaduais são outra. Serafim escolheu seu projeto, o projeto de tonar seu partido visível em detrimento de seu próprio capital pessoal. Decepcionou os que amavam vê-lo a cada dois anos ali, no cantinho dos oposicionistas heróicos, vencendo debates, mostrando bons projetos, pregando a ética na política… e perdendo no fim. Não faz muito tempo, eu vi muita gente consagrando o demagogo experiente para punir o reto de primeira viagem. Com a licença de vocês, ouso lembrar que não caí nessa daquela vez. Não vou cair novamente.

Claro, é difícil digerir, como eleitor, o fato de que a infância acabou. Mas o fato é que ela acaba, a vida segue e o que sobra é a saudade dos tempos em que tudo era mais fácil, porque mudar o mundo era apenas uma brincadeira.

Mais abençoados que João Alves, só os estudantes de Manaus

Ontem (quinta), depois de ver o deputado Sabino Castelo Branco disparar contra o “atual prefeito” de Manaus (Sabino se nega a dizer o nome do sujeito), pude enfim ler os jornais. Na coluna Claro & Escuro, do Diário do Amazonas, vi o nome de duas figuras que andavam sumidas, André Souza e Rodrigo Guedes. A dupla dinâmica foi nomeada pelo “atual prefeito” de Manaus, respectivamente secretário e subsecretário municipais da juventude. Como anunciei dias atrás, não pretendo mais gastar chumbinho com a minha ex-anta, mas a nomeação da dupla merece registro.

Lá no longínquo 2008, André e Rodrigo ganharam seus “15 minutos de fraude” no jornal Amazonas Em Tempo de Eleição. Denunciavam o então prefeito de estar coagindo estagiários da Prefeitura a trabalhar em sua campanha. Na internet, a farsa não sobreviveu sequer uma manhã, mas nunca se saberá o impacto que ela teve — aliada a outras orquestradas pelo jornal — no rumo das eleições. Foi neste post que eu mostrei quem era o estudante Rodrigo Guedes, militante do PTB, diretor de patrimônio do DCE da UFAM, cabo eleitoral do “atual prefeito”. Mais tarde, encontrei André Souza na assessoria do deputado Ângelus Figueira, hoje prefeito de Manacapuru, aliado histórico do “atual prefeito”.

Durante as “negociações” que levaram ao corte da meia-passagem estudantil no ano passado, André e Rodrigo eram os representantes da classe estudantil. Está lá, no blog Afinsophia, um relato de mais uma fraude cometida contra a cidade de Manaus. E lá estão, um à direita e outro à esquerda do Pai, Rodrigo e André (a foto é reprodução do jornal Diário do Amazonas).

À época, Rodrigo me procurou, explicou que não fazia política com as denúncias. Nada tinha contra o prefeito, de quem até gostava. Me disse que, como Sabino, trabalhara na campanha de Serafim quatro anos antes, mas estava decepcionado. Não trabalhava por cargos, mas pela democracia. Mas ganhou cargos sempre, na administração passada e na atual. E justificou assim:

De fato eu sou amazonino, por um critério de exclusão. Como eu sempre faço questão de relembrar eu sou um dos responsáveis por o amazonino ter recebido uma tapa eleitoral na cara em 2004. Fui sarafa de corpo e alma, voluntário e por incrível que pareça em nenhum momento eu cheguei a conversar com qualquer pessoa sobre a possibilidade de trabalhar na Prefeitura se ele ganhasse. Minha ida lá foi uma benção de Deus.

Bom, o resto é a continuação da história. Como eu disse antes, minha anta continua lá, cheirando o chão. O Amazonas Em Tempo de Eleição continua em campanha por Omar, como em 2008. A única coisa que mudou foi a quantidade de meias-passagens a que 170.000 estudantes têm direito hoje. E claro, a ordem — e os trajes — da dupla André e Rodrigo na foto oficial.

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Mais uma benção de Deus.