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A primeira vez de Dilma

Foto: Lalo de Almeida / Folhapress

O primeiro debate entre os candidatos à Presidência seguiu a temperatura da campanha até aqui. A despeito da guerra virtual entre os militantes dos dois principais candidatos, que já domina os espaços de discussão na internet há alguns meses, o clima foi de estudo do adversário. Nesse aspecto, o formato dos debates eleitorais acaba quase sempre engessando a discussão, que frequentemente é interrompida justamente quando engrena. O debate da Band, comparado ao aparato global, costuma ser mais solto, o que favorece o telespectador.

No fator “espetáculo” dificilmente seria diferente. Querer com Serra, Dilma e Marina as mesmas emoções que com Lula, Brizola ou Collor é o mesmo que procurar na Formula 1 de Button, Weber ou Massa o mesmo fascínio dos tempos de Senna, Prost, Mansell ou Piquet.

Plínio de Arruda Sampaio

Mas mesmo nas corridas de carro alguém precisa vencer. E nesse instantâneo fotográfico da corrida, Plínio de Arruda Sampaio, o melhor e mais envolvente dos radicais do PSOL, venceu. É claro, até o fim do campeonato ficará relegado à insignificância de sua sigla (ou equipe, no paralelo automobilístico que faço). Plínio, um dos intelectuais que fundaram o PT, encarna o personagem do franco-atirador que não pode faltar aos debates, mas tem o estofo humanista e a eloquência mais apurados do que a maioria dos chamados ‘nanicos’ de sempre. Não e político, e como tal, ficou à vontade para desmontar o discurso de todos os adversarios, sem medo de perder nada. Radical desiludido com o partido que fundou, mirou mais nos antigos companheiros do que no inimigo tradicional, o tucano Serra.

Marina Silva

Marina Silva (PV) é inatacável pela paixão com que defende suas causas, como o senador Cristóvam Buarque (PDT) quanto à Educação. Marina eleva o nível do debate. Uma pena que debate bom — porque o Brasil ainda precisa que seja assim — é exatamente o debate ruim. Há ainda muitas feridas brasileiras a serem expostas, e infelizmente debate de alto nível é algo que ainda não nos pertence. Foi exatamente nessa pretensão artificial de fazer um debate nobre que Arruda Sampaio saiu-se melhor, condenando o “bom mocismo” dos adversários. Marina foi o alvo do mais ferino ataque de Plínio, que a acusou de não saber pedir demissão — em alusão à saída da senadora do Ministério do Meio Ambiente.

É no lirismo e na paixão de Marina que moram suas maiores qualidades. Aqui retorno à comparação com Cristóvam, figura pública de quem é impossível falar mal. O problema, de um e de outro, é a dúvida sobre as qualidades administrativas — inclusive de conflitos entre tantas prioridades nacionais que não só as suas — de cada um. Nesse quesito, Marina e Buarque são indispensáveis por balancear o cenário, que ficaria ainda mais empobrecido apenas com Serra e Dilma, as equipes favoritas da temporada.

Dilma Rousseff

Dilma era o fenômeno a ser desmascarado. Na ótica tucana, foi. Visivelmente nervosa, ficou latente que, dos quatro presentes, era exatamente Dilma, a líder nas pesquisas e a candidata de um dos presidentes mais populares do mundo, a mais nervosa. A impressão que ficou foi a de uma aluna aplicada, mas que pecou pelo excesso de estudo. Dilma parece ter estudado demais para o vestibular da discussão ao vivo — tomou aulas particulares de vários ministros governistas sobre suas respectivas pastas –, e em vários momentos pareceu sofrer do ‘branco’ que acomete tantos estudiosos.

A esta altura, petistas podem sacar do bolso como desculpa exatamente o argumento que costumam usar para louvá-la: o ineditismo de ser uma mulher à frente das pesquisas, mesmo sem qualquer experiência em mandatos politicos, costuma ser discurso fácil da militância vermelha. O momento parece ser apropriado, talvez, para dizer que, nessa condição de caloura, Dilma até que foi muito bem.

Seu pecado, o mesmo de Serra, foi a dependência dos números. Pressionada por Serra e Arruda, a petista deu respostas evasivas a questões simples como sua posição sobre a propriedade rural (feita por Arruda), como quem dissesse “Professor, eu não sei essa resposta, mas me pergunte sobre empregos e programas sociais, foi pra isso que eu estudei!”. Somados os pontos positivos e negativos de sua apresentação, Dilma mostrou estar mais próxima do estereótipo cunhado pela oposição (de ser inanimado criado artificialmente por Lula, um genial Dr. Frankenstein político) do que da imagem de candidata de carne e osso.

José Serra

A incompetência de Dilma para se provar preparada só foi menor do que a incompetência de Serra para nocauteá-la. Aqui não avalio o que é realmente importante, como os dados e os prós e contras das eras Tucana e Lulista, mas essencialmente o debate, a fotografia da noite. Serra, como Dilma, é um piloto refém do excesso de informações da telemetria de seu carro. ‘Ajudado’ pelos dados das sondagens internas, ficou indeciso entre derrubar de vez a petista ou assoprar-lhe as feridas, e limitou-se a atacar cirúrgica e timidamente as fraquezas do discurso da petista.

Seguindo o franco-atirador Arruda, Serra mostrou-se o mais desenvolto. Mesmo pecando na decisão de atacar Dilma mais ou menos ferozmente, mostrou-se seguro. O problema de Serra, como com Alckmin, e genético. O paulistismo dos dois parece ser feito para lhes arrancar qualquer traço de carisma pessoal. Uma disputa presidencial é — feliz ou infelizmente — o balanceamento de muito mais fatores do que o preparo técnico e administrativo.

Serra, como Alckmin, soa falso ao ser sentimental, mesmo que não seja falso. Domina números, escolhe temas e aprendeu, com a experiência, a trabalhar com a dinâmica dos debates, aproveitando as sequências de respostas, réplicas e tréplicas a seu favor.

O debate da Band, como a maioria dos debates, decide pouca coisa. Nessa lógica, pode ter servido para que o PSOL de Arruda ganhasse mais simpatizantes entre a enorme parcela da população que detesta política e quer apenas bons ‘candidatos de protesto’. Dilma prova que não é Lula, Serra prova que não é bobo e Marina prova que segue seus princípios até o fim.

Não é a temporada mais emocionante da historia, e por vezes dá pra confundir petismo com tucanato na origem. O debate, mais do que outra coisa, mostra as semelhanças entre o candidato tucano e a candidata petista. Trazido para este patamar de comparação, Lula, um verdadeiro mago político moderno, saiu perdendo.

É talvez um Senna, tentando empurrar um Barrichello goela abaixo do Brasil.

Lula pode estar certo. Carisma por carisma, já que ele próprio não pode entrar na pista, melhor fabricar alguém do zero.

A disputa não é entre Serra e Dilma. É entre o carisma de um Senna aposentado e um séquito de pilotos medíocres.

Só falta o Curupira

A ascenção meteórica do micro-empresário Fernando Valente rumo ao Senado Federal começa a parecer reprise de novela. Com os novos desdobramentos da mais nova suspeita de extorsão contra Eduardo Braga (o caso da visita dos ‘emissários’ do PRB à sede do PMDB), fatalmente nos lembramos de outros carnavais.

Em 2004, por exemplo, a médica Soraia, que acusava Serafim Corrêa de ser pai do seu filho, desequilibrou a eleição a favor de Serafim. Soraia surgira da varinha de condão do então vereador Sabino Castelo Branco, que chegou a levá-la ao plenário da Câmara Municipal para um depoimento bombástico. Em 2005, em depoimento ao STJ, disse ter caído no “conto do vigário” de Sabino.

Em 2008, Renata Barros, comadre do então governador, surgiu num vídeo o acusando de corrupção ao lado do marido. Renata recebera a proteção do senador Arthur Neto, e passado o calor eleitoral, repensou sua vida, voltou para a felicidade do lar e retirou o que disse — possivelmente alegando privação temporária dos sentidos.

O que ocorre hoje? Fernando Valente, tão desconhecido até anteontem quanto Soraia e Renata, aproveitou a mania de chegar atrasado do ex-governador e registrou sua candidatura antes, como se, numa brincadeira de criança, tivesse corrido mais rápido ao final da música e sentado na cadeirona reservada a Braga, causando um rebuliço tremendo no meio dos bajuladores, assessores, amigos, familiares, jornalistas e blogueiros ligados ao ex-governador.

Ontem (terça, 13) à noite os capítulos desse Vale a Pena Ver de Novo começaram a se denunciar. Três bem intencionados senhores, anunciando-se emissários do agora poderoso Valente, ofereciam a Braga um acordo, que aparentemente envolvia dinheiro. O governador (opa, ex-governador!) não pensou duas vezes e acionou a polícia, deve ter dito José Melo, que no momento da suposta extorsão servia cafezinho a todos.

Fernando Valente, até março passado subsecretário de Amazonino Mendes, denunciou a trama. Valente tem dado mais entrevistas coletivas do que o delegado do caso Bruno, e seus quinze minutos de fama começam a se tornar perigosamente trinta.

Hoje descobriu-se que Marcius Filard de Souza, um dos homens detidos e que se apresentava como advogado de Valente, na verdade era correligionário do extorquido, Eduardo Braga. Filard é filiado ao PMDB desde dezembro de 2005. Na coletiva desta quarta, Valente repetiu seu mantra: “Não vou recuar”.

Já comentei aqui antes, no Amazonas o escândalo depende mais do malandro do que da polícia ou da imprensa. Soraia protagonizou, ao lado de Sabino, um dos espetáculos mais deprimentes da política amazonense. Renata, do ciclo de amizades do ex-governador, nunca dirá o que a motivou a denunciar o amigo e compadre. Fernando Valente, que já trabalhou com Braga, era subsecretário de Amazonino.

Novela boa é novela previsível. Precisa ter um galã, um vilão, uma mocinha, uma história de amor não correspondido, um núcleo cômico, uma vizinha fofoqueira, um filho misterioso, uma causa social e uma penca de espectadores em casa, aguardando pela dose diária de entretenimento.

O lamentável, nessa novela que se repete a cada dois anos, é que acabamos rindo de um filme que não é comédia, e sim um drama. Um drama que conta a nossa própria desgraça.

Március, o suspeito de extorquir Braga é do partido de Braga. Renata e Ney voltaram a ser o casal feliz e bem sucedido que sempre foram.

Soraia também voltou ao ninho. É candidata a deputada estadual pelo PTB, o partido do prefeito Amazonino Mendes, que ajudou a derrotar em 2004. O mesmo PTB hoje presidido por Sabino Castelo Branco, que em 2004 lhe passou o “conto do vigário”.

O mundo dá voltas, mas acaba sempre no mesmo lugar.

O polvo deles e o nosso polvo

O vereador, que ainda não registrou sua candidatura ao governo do estado, teve seu nome colocado na boca do sapo — ou melhor, do polvo. A diferença é que, no caso da Copa, o polvo Paul, contra todos os prognósticos, acertou em apontar os espanhóis como vencedores da partida. Com o nosso ‘polvo’, o desmentido veio duas horas depois.

Em seu blog, hoje de manhã, nosso polvo, o coordenador de marketing da campanha do governador à reeleição, disse:

Hissa Abrahão não será mais candidato a governador

Postado por: [nosso polvo] em 07/07/2010 às 12h06

O vereador Hissa Abrahão (PPS) não será mais candidato a governador nesta eleição, decisão tomada já há 72 horas. O que ainda será decidido hoje a noite, em Brasília, é se o PSDB apresentará um nome em substituição ao vereador, a fim de não ceder o tempo de televisão de aproximadamente três minutos, metade para Alfredo, metade para Omar.

Perguntei diretamente ao vereador se ele realmente desistira da candidatura, e a resposta foi:

Sou candidato, se quiserem me derrotar que seja nas urnas, o que considero pouco provável.

E mais:

  • Critico de forma veemente aqueles oportunistas de campanha, que sem me consultar, estão falando de desistência, sou candidatíssimo.
  • Meus adversários estão ciente de nosso crescimento eleitoral e estão buscando formas antecipadas para me prejudicar.
  • Muito estranho o que ele [Durango] disse, notícia sem fundamento, não me consultou, muito estranho, ele que se diz tão sério.

Diante de uma ‘notícia’ tão grave (a desistência de um candidato ao governo do estado), é de se perguntar: afinal, qual é a jogada do nosso polvo em espalhar, pros seus leitores, uma notícia falsa?

Contam os mais entendidos no assunto que época de campanha é assim: quem trabalha com isso não pensa em outra coisa. O nosso polvo se diz muito experiente no assunto. Como responde pela coordenação de marketing da campanha do governador, não deve ter publicado a nota a troco de nada. Seria uma forma de evitar que votos do governador migrassem para a candidatura da ‘terceira via’?

O nosso polvo tem realmente oito braços. É publicitário, já foi comunista (sim, isso conta no currículo), é empresário, é escritor, é assessor político, é coordenador de campanha e é consultor. Mesmo com toda essa gama de atividades, nosso polvo ainda encontra tempo para, nas horas vagas, ser pesquisador isento.

Como publicitário, nosso polvo participa ativamente de campanhas de sucesso — sempre do governo, seja ele estadual ou municipal. Durante o processo licitatório pela conta de publicidade da Prefeitura, por exemplo, passeava entre o gabinete do prefeito e pelo escritório da empresa de publicidade que ganhou a conta.

Como comunista, ajudou o atual governador (que também põe isso em negrito no currículo) em sua campanha para vereador. Hoje não é mais comunista, como o governador. Mas o governador é o governo estadual, a amizade continua.

Como empresário, nosso polvo é um Midas moderno. O que toca vira ouro — ouro do governo, claro. Recentemente criou uma empresa para espalhar tevês de LCD pelos PACs e órgãos públicos do Amazonas, onde a massa passa as manhãs, enquanto espera por um atendimento, vendo e ouvindo propaganda — das empresas dele e do governo estadual, claro.

Como escritor, nosso polvo escreveu um livro cheio de fotos antigas de Manaus, ‘conseguidas’ do Acervo Público Municipal, criou uma editora, imprimiu, fez uma capa dura, fez um coquetel de lançamento (num prédio público) e vendeu 300 exemplares — para o governo municipal, claro.

Nosso polvo é também assessor político. Sem cargo algum, comandou a retumbante posse do atual prefeito de Manaus. “A troco de nada”, “apenas por amizade”, dizia o nosso polvo. Recebeu R$ 65 mil por essa amizade — do governo municipal, claro.

É também coordenador de marketing de campanha, nosso polvo. Do governo  estadual, claro.

É consultor também. Informal. Do governo, estadual ou municipal, claro.

Paul, o polvo que acertou todos os palpites até hoje sobre a Copa da África do Sul, deve ter fama efêmera. É alemão, e a uma hora dessas, com a derrota dos seus ‘donos’, deve ter ido parar numa paella de algum restaurante espanhol de Oberhausen. Não importa que tenha acertado.

Acertar todas não é bom negócio quando o palpite contraria o cliente. Se Paul, o polvo deles, fosse o nosso polvo, teria guardado o palpite da vitória da Espanha pra si e colocado um sósia dentro do aquário, pra dizer que a Alemanha venceria.

O nosso polvo sabe disso. Não à toa seus oito tentáculos, cada um com uma função, sempre estão dentro do mesmo pote.

O do governo, claro.

A batalha dos arautos

Foto: Raimundo Valentim

Acompanhei o desenrolar das duas convenções e o que vi foi uma cena de pré-guerra medieval. De cada lado das colinas, dois exércitos se amontoam com suas espadas, armaduras, lanças e arcos de guerra. À frente de cada exército, os generais consultam seus auxiliares, que se dedicam a olhar no horizonte e saber, de antemão, o tamanho do exército inimigo.

A tática, então, é a de amplificar o próprio poder. Para isso não faltam, de lado a lado, arautos, mensageiros e trombeteiros, além do maior número possível de soldados, de preferência aqueles que não sabem quem é seu líder, muito menos o inimigo — a maior parte quer apenas andar de ônibus de graça.

Nas guerras medievais, eram os arautos os encarregados de oferecer trégua, listar exigências e condições e dar a chance, ao inimigo em desvantagem, de se render. Hoje o que não falta é marqueteiro, mensageiro e trombeteiro. Na guerra moderna, um trombeteiro talentoso vale mais do que cem soldados. É dele a tarefa de espalhar o terror nas hostes inimigas, falando da morte sangrenta que terão, das poucas chances que têm, do tamanho da lança do patrão etc. O arauto era o famoso ficeleiro real, o animador de auditório da corte.

Em Henrique V, de Shakespeare, Montjoy, o arauto de Carlos VI, é enviado para dar aos ingleses a chance de rendição na guerra dos 100 anos. Para isso, os comunica que os franceses são 50 mil, contra os 10 mil ingleses. No dia seguinte, após a famosa batalha de Azincourt, 10 mil franceses estavam mortos, entre eles 126 príncipes. Os ingleses mortos eram vinte e cinco.

Foto: Raimundo Valentim

Durante a convenção de Alfredo, a estimativa dos organizadores era de até 5 mil pessoas presentes, segundo os arautos de Alfredo. Na convenção de Braga (e Omar, claro), hoje, eram esperadas 3 mil, segundo os arautos de Braga (e Omar, não podemos esquecer do Omar).

Nesse ponto da campanha, é a única coisa que conta: mostrar poder ao adversário como nas guerras medievais, enviando arautos (com suas vuvuzelas douradas) para oferecer rendição ao inimigo em número inferior. Se for possível exibir aos soldados o último casal da espécie em extinção inimicus communis, devidamente empalhados como troféus de caça, tanto melhor.

Claro, contam também os prefeitos do interior, com a coleira dos convênios estaduais no pescoço, os professores da rede pública, os deputados e suas ONGs, os vereadores e os cargos de seus parentes, mas essa é a menor parte. Há também os empreendedores pastores evangélicos, provando o sucesso do agrobusiness amazonense: na ovinocultura amazonense, o rebanho da espécie IURD está sendo negociado por R$ 5 milhões neste momento.

Pouco importa o tamanho de cada exército. Com 5 vezes menos soldados, Henrique V venceu os franceses com um discurso belíssimo e patriótico, incentivando seus homens a lutar por suas famílias, sua honra e sua nação.

Os exércitos de hoje são movidos apenas pelo vazio, talvez pela algazarra coletiva. Não carregam mais lanças nem escudos, apenas cartazes e faixas de gente que nunca viram.

É a repetição, e a repetição, e a repetição da mesma morte de sempre, a morte social. Henrique V ofereceu aos seus homens a possibilidade de escreverem seus nomes na história. Os trombeteiros de hoje precisam apenas oferecer uma carona. Se rolar um ovo coberto com refresco de caju geladinho, então, o exército se multiplica.

Hoje pouco importa se a carona é para uma morte certa num campo de batalha distante.

Para os soldados de hoje, o que vale é a carona.

E a merenda de graça, claro.

Vice enrolado com merenda escolar!

Bastou que o PSDB e o DEM anunciassem a escolha de Índio da Costa como vice na chapa de José Serra (PSDB), e o exército lulista já pescou curiosidades sobre a biografia do ex-sub-prefeito de Copacabana. Uma é a de que Índio já teria admitido ter namorado a filha de Salvatore Cacciola. A que me chegou por email agora (de um amigo) é sobre rolos antigos do deputado do DEM. A notícia abaixo foi publicada no blog da vereadora Andréa Golvêa Vieira em 26 de janeiro de 2007. Andréa é do PSDB.

MEC confirma irregularidades na merenda

Imagem da matéria publicada pela vereadora em 2007

Relatório de Andrea fundamentou decisão.

O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, órgão do Ministério da Educação, confirmou parecer do Conselho de Alimentação Escolar CAE, que apontou irregularidades na execução, pela Prefeitura do Rio, do Programa Nacional de Alimentação Escolar, em 2005. O ofício do Ministério da Educação foi enviado ao prefeito Cesar Maia.

O parecer do CAE, confirmado pelo FNDE, diz que houve irregularidades, tanto na licitação para aquisição de gêneros alimentícios quanto na execução do contrato. O CAE constatou que a empresa Milano, vencedora de 99% do fornecimento de alimentos para a rede municipal de ensino, forneceu aos alunos carnes de má qualidade, oriundas do frigorífico Calombé, que, além disso, está inscrito na dívida ativa da Prefeitura. De acordo com as normas de licitação, estando nessa situação não poderia fornecer os alimentos. Mais: a Milano e a Calombé pertencem à mesma família.

O relatório do CAE diz ainda que, naquele ano, apenas 60% dos alunos da rede receberam a alimentação, o que é confirmado pela própria Secretaria Municipal de Educação.

Assinado pela coordenadora Geral do Plano Nacional de Alimentação Escolar) do Ministério da Educação, Albaneide Peixinho, o documento que confirma as denúncias do CAE, exige providências imediatas do prefeito.

“Solicito a Vossa Excelência a adoção de imediatas providências, no sentido de determinar aos setores competentes a rigorosa observância aos preceitos estabelecidos pela legislação que rege a matéria, esclarecendo que as constatações relatadas no parecer supracitado do Município do Rio de Janeiro, bem como as orientações ora encaminhadas, encontram-se cadastradas nesta Aatarquia, para verificação do seu cumprimento em auditorias futuras.”

A vereadora Andrea Gouvêa Vieira, membro do CAE, foi relatora da CPI da Câmara Municipal que apurou as suspeitas sobre as irregularidades na licitação e no fornecimento da merenda. No seu parecer, o CAE utilizou informações desta Comissão Parlamentar de Inquérito. O relatório da CPI foi entregue no início do mês ao Ministério Público Federal e à Delegacia Fazendária, que investigam o caso. O documento relatado por Andrea Gouvêa Vieira pede a responsabilização civil e criminal do ex-secretário municipal de Administração Índio da Costa e da secretária municipal de Educação, Sonia Mograbi.

- Dinheiro público é sagrado e deve ser destinado exclusivamente ao bem-estar do cidadão. A omissão e as irregularidades nesse caso são ainda mais graves porque prejudicaram a alimentação dos alunos das escolas municipais – disse a vereadora.

Hoje, 30 de junho, a vereadora publicou nova nota:

A empresa Milano ganhou 99% do fornecimento da merenda. A licitação ocorreu num único dia e foi dividida 10 coordenadorias de educação (CREs). A empresa ofertou preços diferentes para o mesmo alimento. O preço do frango para Santa Cruz era 30% mais caro do que o frango que ia para as escolas de Campo Grande. Em Santa Cruz não havia concorrência… Como a empresa soube da falta de concorrentes é uma pergunta que permanece sem resposta… A prefeitura pagou à mesma empresa, pela mesma mercadoria, preços diferentes.

A CPI concluiu que Índio deveria ter cancelado a licitação, pois as regras do edital levaram a um resultado que contrariou o objetivo inicial, que seria o de atrair dezenas de pequenos comerciantes locais a fornecer para as escolas dos bairros. Assim, o fornecimento seria descentralizado e se chegaria ao melhor preço. Mas o que se deu foi justamente o oposto: as regras do edital de licitação provocaram a maior concentração de entrega de gêneros alimentícios na história da merenda escolar.

Durante a licitação, foram identificadas diversas irregularidades no registro das atas das reuniões de entrega, abertura e verificação de documentos. Chamou a atenção a Milano ter sido a única a ter acesso aos documentos das empresas concorrentes ainda durante o período em que a Comissão de Licitação analisava a documentação, no dia 23 de março de 2005, enquanto os pedidos de vista das demais só ocorreram após o dia 31 do mesmo mês, quando já havia sido anunciado o julgamento dos documentos.

Um ano depois, a Justiça obrigou a prefeitura a abrir o envelope de uma concorrente da Milano – a única que conseguiu liminar para que a Secretaria de Administração não destruísse sua proposta de preços. Se não tivesse sido desabilitada, esta outra empresa teria vencido a Milano em vários quesitos, com condições mais vantajosas para o Município.

A Prefeitura não conseguiu demonstrar como a Milano conseguiu um resultado tão favorável.

Houve apenas uma explicação dada por índio da costa e pelos diretores da Milano: que o acerto aconteceu em virtude do estudo das concorrências anteriores. Esta explicação levou a CPI a duas conclusões:

1- Se era possível antecipar resultados, houve falha nas regras do edital.

2- Se a Administração municipal aceitou pagar pelo mesmo produto preços diferentes, não cumpriu um dos preceitos da licitação, o do menor preço.

Estas duas conclusões deveriam ter levado a Secretaria de Administração a cancelar a licitação.

A CPI também concluiu que houve omissão, negligência e despreparo na fiscalização do contrato assinado com a Milano. A empresa entregou carne bovina e frango fora das condições exigidas.

Depoimentos de merendeiras e o relatório das visitas às escolas feito pelo Conselho de Alimentação Escolar (CAE), enviado à CPI, comprovaram a omissão da prefeitura que, apesar da reclamação das escolas, não exigiu o cumprimento do contrato.

O total de multas não passou de R$ 8.330,28, ao longo do ano, num contrato de R$ 75 milhões.

Documento em poder da CPI revelou que auditoria da Controladoria Geral do Município apontou a fragilidade no acompanhamento da execução do contrato. O documento propôs as ações para responsabilização civil e criminal dos infratores, os secretários de Administração e de Educação.

A CPI encaminhou o relatório ao Ministério Público Estadual, ao Ministério Público Federal, à Delegacia de Polícia Fazendária, ao Tribunal de Contas do Município e à Prefeitura do Rio.

Google lançará pacote de ferramentas para eleições 2010

Marina Novaes, do R7

Imagem: InfoAbrilResponsável pela rede social mais popular no país, o Google planeja lançar, em agosto deste ano, um pacote de aplicativos especialmente voltado para as eleições. Em 2010, a internet tem se revelado uma das ferramentas preferidas dos candidatos para mobilizar seus militantes e, ciente disso, a empresa aposta no “calor” da discussão política para atrair seus internautas.

De acordo com Félix Ximenes, diretor de Comunicação do Google Brasil, a ideia é promover espaços específicos para que os usuários possam discutir os rumos das campanhas eleitorais, assim como foi feito em 2008, mas de forma menos “tímida”.

- Nós fomos muito tímidos em 2008, até porque, o TSE [Tribunal Superior Eleitoral] ainda não tinha muito claro o que podia ser feito ou não. Nesse ano, como o TSE liberou o uso da internet [para as campanhas eleitorais], com exceção à publicidade, e a gente vai ter novos aplicativos com todas as ferramentas disponíveis para ajudar o eleitor a tomar sua decisão e a participar do processo democrático.

Em 2008, a empresa criou recursos específicos para o debate eleitoral no Youtube (canal de vídeos); no Google Maps – com mapas indicando como chegar às seções eleitorais em todas as capitais brasileiras –; além do Orkut, onde os usuários acompanhavam enquetes sobre o tema.

Apesar de ainda manter em segredo os detalhes do lançamento, Ximenes aposta no sucesso da ferramenta, com a ampliação do debate na internet.

- Acreditamos muito na liberdade de expressão e os recursos específicos para as eleições fizeram muito sucesso em 2008. [...] Vamos só esperar passar essa euforia da em torno da Copa do Mundo e anunciaremos aplicativos e outras novidades, já que no Brasil, o debate político é sempre muito acalorado e as pessoas querem discutir.

Em crescimento no Brasil, o Facebook – concorrente do Google – não deve lançar um “pacote eleitoral”, porém, Júlio Vasconcellos, gerente de crescimento do Facebook no país, disse acreditar que as ferramentas já disponíveis possam ser úteis para militantes e partidos, a exemplo do que ocorre em outros países.

- Não temos nenhum aplicativo específico para as eleições, mas em outros países há partidos que usaram recursos já existentes no Facebook para chegar ao eleitor.

Polêmica

Apesar de ser a vedete dos candidatos à Presidência, o uso das redes sociais pelas campanhas ainda gera polêmica e desconfiança. Nesta semana, a Justiça Eleitoral determinou que o Google revelasse a autoria dedois blogs aparentemente criados por eleitores de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), com conteúdo favorável aos presidenciáveis.

Em debate nesta quinta-feira (17), os estrategistas virtuais do tucano e da petista, Sérgio Caruzo e Marcelo Branco, admitiram ser impossível fiscalizar o conteúdo veiculado por militantes na internet, e afirmaram que este é um dos “pontos obscuros” da lei eleitoral. Para eles, as campanhas devem orientar seus seguidores sobre as regras, porém, não podem ser responsabilizadas pelo que outros internautas publicam.

Tanto o responsável pelo Google no país, quando o gerente do Facebook, também disseram que é inviável fiscalizar o conteúdo gerado na internet. Mesmo assim, afirmaram que as empresas colaboram com a Justiça para que as regras sejam cumpridas.

Em 2010, a Justiça Eleitoral autorizou que os candidatos usassem ferramentas como Orkut, Twitter, Facebook em suas campanhas, e liberou os debates pela web.

Colaborou André Sartorelli, do R7

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A paella do LULA

Clóvis Rossi, na seção PENSATA da Folha Online, no dia 19 de maio:

Jornalista da minha geração estranha quando vira notícia. Eu, a bem da verdade, estranho até quando vejo meu nome na capa da Folha, encimando um texto, como se o nome fosse a notícia, não o texto.

Por isso, fiquei chocado ao virar notícia por conta de uma queda na terça-feira à noite, aqui em Madri, que causou a fratura de duas costelas.

Passado o choque, lembrei-me da insistência de meu amigo Sérgio Leo (“Valor Econômico”), um desses jornalistas que dão orgulho da profissão, para que eu escreva um livro contando bastidores de coberturas jornalísticas.

Ainda não me convenceu, mas, já que a notícia está no ar, ouso contar detalhes da queda e dos desdobramentos posteriores porque imagino que há coisas de que o leitor nem desconfia.

O presidente Lula havia terminado de discursar, após receber prêmio. Sempre que isso acontece, os jornalistas (e muitos outros no auditório) tentam se aproximar do presidente, para arrancar uma frase ou, simplesmente, mostrar a cara.

Foi o que tentei fazer, mas pela via errada. Em vez de subir pela escadinha que levava ao palco, tentei escalar o degrauzão do meio. Escorreguei, cai de costas e fraturei as costelas.

Ainda assim, me levantei, usei a escadinha mas, ao chegar perto do bolo, estava como Jorge Araujo, um extraordinário fotógrafo da Folha, costuma brincar: “Já vi cadáveres mais corados que você”.

Descrição perfeita para meu estado naquele momento. Se não fosse Patrícia Chiarello, misto de diplomata (da assessoria de imprensa do Itamaraty) e anjo-da-guarda de jornalistas, me mandar sentar e tomar água, teria desmaiado no meio do palco.

O presidente Lula se aproximou e constatou o mesmo que o Jorge Araujo: “Você está branco e suando frio”.

Não me lembro se foi antes ou depois da frase de Lula que o coronel Cléber Ferreira, médico da Presidência, me examinou. No momento em que apalpou minhas costas, detectou a fratura e iniciou as providências para que eu fosse levado ao hospital.

Tentei resistir, dizendo que precisava terminar os textos do dia e enviá-los para a Folha. Aí, baixou o coronel no médico, e as ordens foram cumpridas.

Ele fez questão de me acompanhar na ambulância e no hospital, enquanto fazia as radiografias e um exame de urina para ver se a queda trouxera outras complicações.

Primeira observação que, imagino, o leitor não desconfia: é possível, sim, a um médico da Presidência abandonar o presidente para dar atenção a um jornalista. É verdade que, naquela altura, o jornalista precisava dele mais que o presidente, mas o gesto fica.

Como ele me contou no caminho, foi só o seu lado coronel que forçou Lula a não viajar para Davos, em janeiro, quando passou mal em Recife.

Segunda observação: Patrícia e também a Ana Maria, da Comunicação Social da Presidência, seguiram a ambulância até o hospital para, depois, me resgatar e levar para o hotel. Fizeram mais: reservaram um apartamento no hotel em que estava a delegação brasileira, o Intercontinental, para que eu ficasse próximo do médico, delas próprias e também da Janaína e da Sylvia, outras moças da assessoria.

É verdade que tenho, desde sempre, bom relacionamento com o pessoal do Itamaraty, mas, francamente, não esperava tanta atenção e cuidado.

Já no começo da madrugada, outra cena de que o leitor talvez tampouco desconfie: aparecem no hotel os companheiros Andrei Netto (“Estadão”), sua mulher, a Lu (“Portal Terra”), Assis Moreira (“Valor Econômico”) e Fernando Duarte (“O Globo”).

Todos eles haviam me amparado no local da queda e acompanhado meu percurso na cadeira de rodas até a ambulância. Ou seja, a competição no meio jornalístico pode ser intensa e às vezes selvagem, mas a solidariedade entre alguns também é formidável.

Na atitude dos três, nada que me tenha surpreendido. Embora Andrei e Fernando sejam de uma geração bem mais jovem, trabalhamos juntos em várias ocasiões, sempre competindo, mas lealmente, e sempre pondo o companheirismo acima da concorrência.

Nenhum de nós acha que é preciso dar uma facada nas costas do concorrente para fazer melhor o seu próprio trabalho, sem adversários.

Pouco antes da chegada deles, aparecera no meu quarto uma quentinha, enviada pelo presidente Lula.

Eu já havia jantado, no próprio quarto. Por isso, ofereci a paella (o conteúdo da quentinha) aos companheiros. Assis Moreira não se fez de rogado. Comeu toda a paella do presidente.

Aí, chegaram Lula e sua turma. O assessor diplomático Marco Aurélio Garcia, os ministros Nélson Jobim e Franklin Martins, Nelson Breve, também da SECOM, Carlos Villanova, diplomata que é o segundo de Franklin na Comunicação Social da Presidência, em geral encarregado com competência das viagens internacionais de Lula. Talvez houvesse mais alguém com eles, mas eu não tinha condições físicas de girar o corpo para ver quem se postou atrás de mim.

Lula chegou no exato momento em que eu havia iniciado assim o texto: “Sem se manifestar desde que deixou o Irã na segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ontem tempo para “amadurecer as reações” em torno do acordo com os iranianos (e os turcos) antes de se pronunciar”.

Ordenei: “Senta aí e escreve o resto, vai. Você sabe melhor do que eu o que você pensa e diz”.

Observação final: minha relação com o presidente (e também com o seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso) sempre foi cordial, como pessoas físicas. Como pessoas jurídicas, critiquei um e critico o outro, às vezes impiedosamente, mas esse é o jogo certo (acho eu) entre jornalismo e política.

Com FHC, a relação era mais formal, pela idade de cada um. Com Lula, é mais relaxada, até porque o conheço desde o tempo em que eu é que podia mandar quentinhas para ele, não o contrário.

Tanto que me despedi brincando: “Você é um péssimo presidente, mas um notável ser humano”.

Agora, chega. Vou obedecer as ordens do doutor e coronel Cléber e me recolher ao repouso por tempo indeterminado mas que espero seja breve.

E assim caminha o Amazonas…

Hoje, depois de ver as fotos das crianças abandonadas no hospital, dividindo as manchetes com a farra eleitoral antecipada na Assembléia Legislativa, pensei em comentar o assunto aqui, mas desisti. Alguns amigos têm perguntado por que tenho escrito tão pouco. É por isso. Não há nada de novo que possa ser dito sobre o rame-rame político amazonense. E provo. Há quase-exatos dois anos, no dia 31 de maio de 2008 (hoje é 21 de maio de 2010), eu escrevi o post “O banzeiro eleitoral de Tão Tão Perto” (voltei ao assunto dias depois, aqui). Julgue você mesmo.


31 de maio de 2008

Um dos meus blogs preferidos, como os leitores mais antigos sabem, é o Blog do Belão. Preciso visitá-lo diariamente, saber das novidades, quem foi homenageado, que data comemorativa rendeu sessão especial, quem pretende me processar, além de outras variedades. No Blog do Belão eu acompanho todos os dramas, alegrias, emoções, desabafos e preocupações do seu autor.

Hoje, em minha visita diária, acessei o link A Voz do Parlamento. A Voz do Parlamento é a publicação oficial da ALE, impresso mensalmente para divulgar as atividades dos deputados. Como é a publicação oficial do poder legislativo amazonense, A Voz do Parlamento é paga por mim e por você, e está incluída no orçamento anual da ALE, de quase R$ 11 milhões. Fazem parte do orçamento da ALE também a remuneração extra de R$ 1.023,08, a cota-transporte de R$ 12.540, a cota de comunicação de R$ 3.200, a verba de gabinete de R$ 39 mil e o auxílio-paletó de R$ 12.284,06 para cada deputado.

Este dinheiro é repassado pelo Governo do Estado à ALE. E o Governo do Estado chama-se Eduardo Braga. E como anunciam os adesivos dos carros dos próprios servidores da ALE, “a união Braga e Omar faz a diferença”. Portanto, quem manda o nosso dinheiro para a ALE imprimir a Voz do Parlamento é Omar.

Pois bem, a capa dA Voz do Parlamento traz a seguinte manchete: “Belão declara apoio a Omar”. Tudo bem, a notícia já está publicada no Blog do Belão desde o dia 25 de março, e começa de forma direta e esclarecedora: “O presidente da Assembléia Legislativa, deputado Belarmino Lins, deu partida no processo eleitoral para a Prefeitura de Manaus ao anunciar seu irrestrito apoio à candidatura do vice-governador Omar Aziz”. Mas pô, tudo bem, blog é blog, é uma coisa particular.

O que me surpreendeu — e achei que Belão não conseguia mais isso — foi ver o mesmo texto impresso na publicação oficial do Poder Legislativo do Amazonas, que é distribuída por todo o estado. A imagem abaixo mostra o flagrante. E adianto aos deputados que pensem em ocupar a tribuna para anunciar que me interpelarão: o material foi copiado diretamente do Blog do Belão.

Diz uma tal de Lei Eleitoral – L-009.504-1997, em seu artigo 36, que a propaganda eleitoral só é permitida a partir de 5 de julho. Belão, portanto, infringiu a lei a quatro meses das eleições, quando, segundo o redator do seu blog, “deu partida no processo eleitoral”. A mesma lei diz, mais adiante, que são vedadas (proibidas) aos agentes públicos (políticos e seus aspones) as seguintes condutas:

I – ceder ou usar, em benefício de candidato, partido político ou coligação, bens móveis ou imóveis pertencentes à administração direta ou indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios, ressalvada a realização de convenção partidária;

II – usar materiais ou serviços, custeados pelos Governos ou Casas Legislativas, que excedam as prerrogativas consignadas nos regimentos e normas dos órgãos que integram;

Para garantir o cumprimento da tal Lei Eleitoral, cada estado dispõe de um tal de TRE. A tal lei é clara, a tal Voz do Parlamento mais clara ainda, bem como o tal Blog do Belão, nome fantasia para o instrumento oficial (e também bancado por Braga e Omar) chamado página oficial do Poder Legislativo do Amazonas.

Eu sei que me disseram por aí, e foi pessoa séria quem falou, que Omar pode perder seu posto de candidato à Prefeitura para Marco Antônio Chico Preto. Chico Preto, e isto é sabido por todos, reúne mais qualidades que Omar. Tem maior densidade eleitoral, tem mais carisma, mais traquejo político, tem menor histórico de acusações de irregularidades, goza de maior simpatia entre seus pares e tem olhos azuis — ou verdes, vá saber.

Omar, que perderia uma eleição até para Ari Moutinho, tem exatos 22.000 defeitos, mas nenhum deles é o de ser leso, e provou isso em 2006, quando usou o telefone de seu assessor pessoal, Manoel Paulino (preso na operação Saúva) para negociar com deputados uma aposentadoria “na surdina”. O deputado mais procurado e solícito para as aspirações previdenciárias de Omar era quem? Sim, este senhor da foto acima, o inigualável Belão.

Em 2006, quando trocou aqueles telefonemas com Belão, Omar estava preocupado com a possibilidade de não ser indicado a vice na chapa de Eduardo Braga, que concorria à reeleição. E dizia aos deputados, com uma desenvoltura que em nada lembra o Omar manso das propagandas políticas de hoje, que já tinha segurado muito pepino durante as viagens de Braga, quando precisava assumir o trono. Para Omar, era justíssimo levar R$ 22 mil mensais pra casa como pagamento por quatro anos no banco de reservas.

A situação parece caminhar para a mesma direção agora. Omar não convence nem os primos a apoiá-lo, mesmo com todo o esforço de Belão e dos contribuintes do Amazonas. E Chico vem aí.

Atenção, Polícia Federal. Lá vem banzeiro.

Atenção, TRE.

…TRE?

Ei, TRE!!!

A infância acabou.

Receita de herói

Tome-se um homem feito de nada
Como nós em tamanho natural
Embeba-se-lhe a carne
Lentamente
De uma certeza aguda, irracional
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois perto do fim
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim
Serve-se morto.

Reinaldo Ferreira em “Portos de Passagem”, 1991

Outro dia vi Wagner Love, do Flamengo, dizer que acabara de sofrer a derrota mais prazerosa de sua carreira. O rubro-negro carioca perdera a segunda partida das oitavas de final da Copa Libertadores por 2 a 1, para o Corinthians. O resultado levava o Flamengo adiante no torneio e eliminava o time paulista.

Hoje, com a confirmação da chapa Alfredo Nascimento / Serafim Corrêa para concorrer ao governo do Amazonas, lembrei do Wagner Love e imaginei o que deverá ser, para o ex-prefeito, a vitória mais amarga de sua carreira. Não porque sua relação com o senador seja tumultuada ou de inimizade, mas pelo que Alfredo representa. Mais do que isso, pelo que Serafim representa.

Ao ver o PSB costurar sua chapa com o PR de Alfredo, sob as bênçãos do presidente Lula e diante de toda a minha torcida contrária, entendi o que separam socialistas de socialistas, ou oposicionistas de oposicionistas. Serafim escolheu ser coadjuvante de uma vitória, em vez de protagonista de uma derrota. Ainda vai precisar de algum tempo para saber se fez a escolha certa, mas terá pouco tempo para convencer seus eleitores disso.

Posso falar pessoalmente. Ao tomar conhecimento da notícia, vi ao meu redor o furor que aguarda Serafim e percebi como é reconfortante, mesmo contrariado com a notícia, ver provado que ainda há políticos capazes de decepcionar seu eleitorado. Isso não pode ser ignorado, porque essa é uma raça rara. Espero apenas que Serafim tenha tido a noção da quantidade dessas pessoas. O tal “exército invisível” de Jefferson Peres não pode ser desprezado — nem tornado sacrosanto, como se este mesmo exército não tivesse abandonado o então prefeito em favor de Amazonino, que hoje faz a Prefeitura que faz.

É um fato amargo, não tentemos esconder. O PSB escolheu seu projeto político, e projetos políticos só andam a base de vitórias. Com elas aumenta a representatividade do partido em todas as esferas, a nacional, as estaduais e municipais. Senadores, deputados e vereadores aumentam em número, o partido cresce, deixa de ser oposição por oposição, do tipo que morre de medo de ganhar, só quer marcar posição. Com seu PSB, contando dinheiro para viajar pelo interior, Serafim faria a minha alegria e a alegria de muitos dos que queriam vê-lo disputando o cargo maior do estado. Se deixasse exposta sua falta de dinheiro e estrutura, então, encheria ainda mais seu eleitorado de orgulho.

Mas ele não venceria.

Por isso, eu entendo o PSB. Mas ainda é muito cedo para saber se, depois desse adeus à infância, as vitórias e derrotas da vida adulta trarão a Serafim a redenção. A aliança com Alfredo, e mais do que isso, o resultado dessa aliança nas urnas, será o divisor de águas entre a política que se vê nas ruas e a política que se faz nas urnas. De uma forma ou de outra, a decisão de Serafim e do PSB vai tirar as dúvidas sobre quem estava certo: quem acreditou na vitória de um Davi contra dois Golias, ou quem acreditou em números que mostravam o tamanho da impossibilidade — logística e financeira, especialmente.

A olhos vistos, Serafim sofreu com o dilema. Entre seus eleitores, era flagrante a pressão pela candidatura insólita, abandonada pelos partidos que o apoiaram em 2008. Seus eleitores, onde eu me incluo, tocavam a vida enquanto Serafim ouvia, nos almoços e visitas que recebia, os porquês de quem lhe largava. Uns precisavam do apoio de deputados estaduais no interior. Deputados são governistas, não podiam apoiar alguém que caminhasse ao lado de Serafim. Outros alegavam que Serafim não tinha dinheiro, assim, com essa franqueza. E, no todo e nas partes, Serafim absorvia o ícone que criou, o do oposicionista que certa vez venceu a máquina. Perderia fragorosamente, esmagado na piçarra e no lixo espalhado nos 62 municípios do interior, por duas naves gigantescas.

Mas perderia bonito, diríamos todos nós.

Em política, assistindo as caminhadas dos Serafins, das Marinas, dos Gabeiras e dos Cristóvams, percebi que gente que não trai é que apanha. Gente que fala a verdade é que cria dívidas com os eleitores. É o preço justo pela escolha em se fazer na política o que poucos fazem na política. Pode parecer um contrasenso, mas me orgulho de fazer parte de um grupo de eleitores difícil de dobrar. Ver as pessoas que vi hoje criticando a decisão do PSB dá gosto, me fez lembrar de tantos políticos e partidos que até outro dia ainda suavam a camisa e gastavam seu latim — ou seu russo — para manter seu eleitorado. Caberá aos eleitores de Serafim, agora, continuar cobrando. Caberá a Serafim continuar respeitando a inteligência dessa gente.

Não cabe aqui condenar quem ajuda a fazer da nossa política o balaio de gatos que ela é. Ver um senhor de 63 anos angustiado com o convite para embarcar numa candidatura favorita me faz lembrar dos jovens, alguns com menos de 30 anos, que hoje já se renderam à ideologia do cinismo, ao empreguismo e à tentação de fazer parte do poder, seja o poder de quem for. A opção pelo cinismo é tentadora, porque é fácil. Qualquer jovem político sem muitas luzes pode ser cínico, e há exemplos aos montes. E porque são montes, acabam reescrevendo uma história que deveria ser outra, a dos homens e mulheres que, na política, mais choram do que riem. Desconfio de políticos risonhos e felizes, porque no mais das vezes são apenas vítimas da mosca azul, satélites de outros políticos ou apenas gente sem profissão definida que vive à procura de um galho pra sentar — e rir de quem passa.

Hoje, vendo a reação raivosa da platéia ao fim do dilema do PSB, exposto em praça pública durante dias e dias, lembrei de tantos finados heróis do nosso passado recente. Petistas e comunistas devem ter recebido o fim da candidatura Serafim com um misto de inveja e alívio. Inveja porque aceitariam, rápida e sorridentemente, fazer parte de uma chapa tão forte. Alívio porque, vendo Serafim apanhar em público, podem expiar seus pecados e repousar confortavelmente nos gabinetes que ocupam, sem eleitores na sua cola, sem ideologia pra defender, sem bandeiras pra empunhar.

O tempo dirá se Serafim acertou ao render-se aos números. Meu palpite é o de que apressou-se a se declarar candidato, contando com apoios que, se em nível local eram simples, em nível estadual se revelaram teoremas matemáticos. Eleições em Manaus são uma coisa, eleições estaduais são outra. Serafim escolheu seu projeto, o projeto de tonar seu partido visível em detrimento de seu próprio capital pessoal. Decepcionou os que amavam vê-lo a cada dois anos ali, no cantinho dos oposicionistas heróicos, vencendo debates, mostrando bons projetos, pregando a ética na política… e perdendo no fim. Não faz muito tempo, eu vi muita gente consagrando o demagogo experiente para punir o reto de primeira viagem. Com a licença de vocês, ouso lembrar que não caí nessa daquela vez. Não vou cair novamente.

Claro, é difícil digerir, como eleitor, o fato de que a infância acabou. Mas o fato é que ela acaba, a vida segue e o que sobra é a saudade dos tempos em que tudo era mais fácil, porque mudar o mundo era apenas uma brincadeira.

Quem mexeu no meu caos?


Em 2008, época da última eleição para prefeito e vereadores, o PIG local empurrava goela abaixo da cidade a pauta dos debates entre os candidatos, a água. A ideia da marmota era simples: jogar no colo do então prefeito, não sem certa razão, a responsabilidade pela falta de água nas zonas Norte e Leste da cidade. Definido o suposto calcanhar de Aquiles da administração, a ordem era clara: bater. Depois bater, e depois bater.

Isso foi há um ano e meio. E de lá pra cá quanta coisa mudou… À medida que os problemas vinham se revezando como um vírus inteligente, à prova de políticos demagogos, secretários foram caindo pelo caminho, outros chegando, e a nova geração de manauaras foi sendo apresentada à cidade da Copa 2014, cruelmente a mesma que conhecemos desde 1983, quando Amazonino Mendes se instalou na história amazonense e não acabou mais.

Hoje a meninada ouve pela primeira vez os nomes de Raphael Siqueira, Bosco Saraiva, Manoel Ribeiro, João Coelho Braga, Celes Borges… E de cara vai tomando raiva dessa moçada que não toma jeito.

O roteiro é bizonho como só uma lenda amazônica pode soar. O encarregado de ordenar o trânsito é amigo do prefeito e, enquanto tenta intimidar jornalistas para não responder o irrespondível, recebe do amigo milhões por um terreno que pode ser de outra pessoa. O vice-prefeito e seus irmãos têm mais hora de polícia do que de mandato no currículo.

Os vereadores da base de apoio ou estão cassados ou fazendo vergonha ao chefe — e sendo humilhados por ele em público. A vergonha dos atores dessa comédia bufa só não é maior do que a vergonha do crítico de arte (a imprensa), que não pode criticar porque senão não recebe seu dinheirinho público.

O resultado de tudo conjugado é a baderna generalizada. Hoje o presidente do sindicato dos rodoviários, Josildo Oliveira, irmão de Jaildo, vereador da base aliada de Amazonino na Câmara, prometeu que vai furar os pneus de quem tentar furar a greve da categoria, amanhã (6), quando 100% da frota deve ficar nas garagens. Josildo — e com toda a justiça — vem sendo pintado como o baderneiro-mor, o pivô de toda a bagunça que Manaus vive há cinco dias.

Não. Josildo é só o líder de uma massa de manobra com 10.000 soldados, os motoristas e cobradores do sistema. E é temerário demonizar a categoria, pois o que eles cobram é um direito deles, o porcentual de reajuste acordado no dissídio da classe. Nesse rame-rame que se estende desde que Amazonino assumiu, só quem segurou as pontas da insatisfação da população foi o prefeito e os motoristas que, por motivos mais ou menos nobres, decidiu fazer uma queda de braço com o “prefeito do povo”.

Mas há dois personagens faltando nessa equação: os empresários e a Justiça. Pra quem já esqueceu, logo depois de assumir Amazonino aumentou o valor da passagem de R$2 para R$2,25. Numa tramóia política sobre a qual comentei aqui, o combinado era que os empresários cobrassem o reajuste da tarifa na justiça. Se o desembargador de plantão entendesse justa a exigência, obrigava Amazonino a conceder o aumento. Injustas ou não as suposições maldosas de que o desembargador era simpático à figura de Amazonino, o fato é que o desembargador tinha uma filha no posto de secretária de Amazonino. O fato é que, injustas ou não as suspeitas, este mesmo desembargador, Ari Moutinho, foi recentemente afastado de seu posto de prsidente do TRE-AM pelo CNJ, por supostamente favorecer o prefeito nas ações eleitorais que ele responde.

Mas nada disso vem ao caso. O fato é que, obrigado pela Justiça a conceder o aumento, Amazonino tirou das costas o peso político de dar o aumento sozinho. E quais eram as justificativas dos empresários para pedir o aumento? A renovação da frota, a manutenção dos ônibus e… ele, o dissídio coletivo dos motoristas. Em julho de 2009 o baderneiro-mor, Jaildo dos Rodoviários, confirmou a encenação do reajuste para R$2,25. Disse que numa reunião com motoristas e empresários, a Prefeitura, representada pela então diretora do IMTT e por uma vereadora da base de apoio de Amazonino, concordou com o aumento. De fato, chegou a ajudar os empresários nisso, fornecendo o documento, assinado pelo Conselho Municipal de Transportes (subordinado à Prefeitura), para que os empresários entrassem com o pedido na Justiça.

O transporte coletivo no Brasil inteiro é o ponto de maior dificuldade para os prefeitos. Várias são as razões, mas a primeira delas é que o setor é cartelizado, ou seja, são as próprias empresas, em nível nacional, que definem quem vai entrar em qual área. Os grandes empresarios do setor — Nene Constantino, Julio Simões, Jacob Barata — controlam as empresas médias e menores, e decidem quem vai atuar em que área.

Como o setor não tem fontes de financiamento, as frotas vão ficando nas mãos desses empresários. Você pode ir a qualquer banco amanhã que ele te financia um carro, mas nenhum financia um onibus. Outros empresários, de outros setores, não se sentem atraídos para investir no transporte coletivo — e é bom repetir, esse é um fenômeno nacional. Resultado: o poder público fica refém desse cartel; pode fazer a licitação que quiser que só virão as empresas que esses “gigantes” decidirem. No caso de Manaus, em 2007, outros empresários compraram os editais da licitação mas não compareceram.

Em ano político, reza a lenda que só quem pode falar de política é político. Experimente criticar qualquer um dos atores da comédia do ano, e sempre virá um soldado raso do exército atingido no seu encalço. A discussão toda fica frívola, a crítica é desqualificada, e a preocupação passa a ser desmontar o questionador, e não a questão. Ali, no escanteio, além dos milhares de manauaras amontoando-se nos pontos de ônibus, fica o fato: não há prefeito ainda capaz de, sob o Estado Domocrático e de Direito, desmontar a caixa preta do setor de transporte público no país. Foi assim com Eduardo Braga, foi assim com Amazonino Mendes, foi assim com Serafim Corrêa, e assim está sendo com Amazonino novamente.

A diferença, entre todos estes prefeitos, é que nenhum tentou, de forma tão patética, transformar o assunto numa coisa menor como Amazonino. Para este ás da política local, a solução do problema é o embuste. Quanto mais bagunçado, melhor pra ele, pois a desordem pede alguém com a retórica do caos, e isso, saiam da frente, é coisa de Amazonino. Políticos como Amazonino só sobrevivem no caos, seja ele real ou criado em computador. Se Amazonino fosse eleito pra governar Copenhague ou Londres, seria apeado do cargo, não pelo favorecimento dos amigos de poder com o dinheiro público, mas por simples inoperância.

Há políticos eleitos para governar, e há políticos eleitos para administrar o caos. Se o caos não estiver instalado, que se crie o caos. Para isso existem (aliás, existiam) o Sabino, o Henrique, os Souzas, os Ronaldos, os Waldires, os Ramans. Esprema-se essa cambada toda e não sai uma gota de credibilidade ou compromisso com a notícia. Foi assim com as contas da Prefeitura, com os ovos estragados da Semed, com o sumiço de computadores, com a estação de tratamento do Parque Lagoa do Japiim, com as escolas abandonadas, com o turno da fome, com os ônibus.

Amazonino já mentiu demais. Já disse ter quebrado o monopólio das empresas, já disse ter acabado com as fraudes da meia-passagem, o que possibilitaria a queda do preço da passagem. Já disse que instalaria um sistema de geoprocessamento para modernizar o sistema e acabar com os atrasos. Nem falemos de creche ou de caminhão com internet (eliminemos o mais e o menos grotesco de suas promessas, fiquemos com a média). Amazonino prometeu acabar com os buracos da cidade, buracos, sim, que foram grande defeito da administração anterior. E o que Amazonino cumpriu disso tudo?

Os motoristas têm seu dissídio coletivo marcado para todo mês de maio, todos os anos. Cobram porque têm o direito de cobrar. Se violam a lei das greves, retiram das ruas mais ônibus do que o permitido, que sejam punidos. Dos empresários é necessário que se cobre o cumprimento do contrato assinado com a Prefeitura, pois ele foi assinado com a Prefeitura, e não com o prefeito A ou o prefeito B. A frota vinha sendo renovada até 2008 — vamos driblar aqui a crítica dos soldados rasos e manter o nome do então prefeito sob sigilo –, Manaus já tinha sistemas como a integração temporal, o passe eletrônico etc.

Hoje o que ficou disso tudo? Amazonino, o profeta do caos, já aumentou, já desaumentou, já quebrou contrato, já cooptou estudantes, já deu milhões ao amigo que deveria estar comandando a solução, já ironizou pergunta de jornalista… E Manaus segue sem ônibus.

Só custo a sentir dó desse povo porque, como um povo só, não importa quem votou ou não na volta do amante do caos. O que importa é que nós, o povo, o elegemos. Reclamar agora é procurar o vendedor de contrabando da Eduardo Ribeiro para cobrar assistência técnica do produto pirata comprado um ano atrás. O povo amazonense não tem o direito de se dizer traído por Amazonino. Traído só se é uma vez.

Governar, essa coisa que tanto dizem que Amazonino sabe fazer, não é para Amazonino. Amazonino é bom pra fazer política, não pra governar. Se é pra fazer Ação Conjunta com fins eleitorais, dá coletivas e faz algazarra. Se é pra se unir ao governo pra resolver o problema, as coletivas e o foguetório somem.

Quem sabe se acotovelando debaixo do sol nos pontos, por uma, duas horas à espera de um ônibus, a população use o tempo ocioso pra pensar no que realmente quer: um profeta do caos ou um governante minimamente responsável.

Sol, chuva, espera, aperto não matam ninguém. Às vezes é bom para “fortalecer o caráter”, como diz uma conhecida minha.

Fica a dica.