Archive for the ‘Pessoal’ Category

Imagine só a cena

Finja que você está lendo aquele livro policial ruim e faça uma força pra mentalizar a seguinte cena:

É final de tarde, e você vai a um shopping da cidade por volta das 18h. Você, sua esposa e duas amigas, uma senhora de 60 anos e sua filha, funcionária de uma loja do shopping, param para um lanche num restaurante de comida árabe, na primeira praça de alimentação do shopping. Ao sairem do restaurante, a senhora que o acompanhava percebe que esqueceu o telefone celular sobre a mesa. Então você volta ao local e, não encontrando o aparelho, pede que a gerente o ajude, mostrando a gravação do sistema de segurança da loja. Nas imagens, você e a gerente veem uma moça, loira, com cerca de 30 a 35 anos, portando uma bolsa preta e um guarda-chuva azul, pegando o telefone esquecido e indo embora.

Você olha em volta e percebe que a moça da gravação ainda está na praça.

Tomando cuidado para não causar constrangimentos, você aborda a moça, alegando que o telefone que ela guardou estava perdido, e o pede de volta, discretamente. Você não a acusa de nada, sequer cobra o aparelho. Na verdade, para evitar maiores transtornos, você pensa em agradecê-la por ter guardado o telefone, certamente para procurar o dono mais tarde.

Então você começa a ser agredido, tanto pela moça quanto por seu namorado, que a acompanha. Iniciando um escândalo, o casal acusa você de tê-los chamado de ‘vagabundos’.

Você insiste em não querer confusão, e só pergunta pelo telefone perdido. Então o rapaz, enfurecido pela pergunta, tira o celular do próprio bolso e o atira para o alto. Quando você se inclina para pegar o telefone, o rapaz se aproxima e lhe atira um copo de refrigerante na blusa.

Agora imagine que, mesmo assim, acompanhado por sua esposa — portadora de necessidades especiais — e mais duas senhoras, você só quer que aquilo tudo acabe. Mas não acaba. O rapaz que lhe agrediu com o copo de refrigerante pega uma cadeira da praça e a atira em você.

Você já conseguiu pintar a cena mentalmente?

Então chegam os mocinhos, a cavalaria, a segurança do shopping. Você ainda se recupera da agressão, e então seis guardas lhe agarram e lhe arrastam, sob os olhos de todos os visitantes da praça, até a sala da segurança. Você então aguarda a chegada do casal, certamente vindo também acompanhado pelo resto do aparato de segurança.

E nada do casal. É então que você percebe que o bandido é você, e que as suas vítimas, o casal que furtou o celular da sua amiga e lhe agrediu, foi liberado. O chefe da segurança diz não poder fazer mais nada, pois a informação que tinha era que você era o agressor. Testemunhas contam a você, depois, que enquanto você era arrastado pelos seis guardas, o casal era conduzido para a porta de saída, próxima de um restaurante de comida oriental e de uma lanchonete de hambúrgueres.

Então você é liberado pela segurança e decide voltar ao restaurante, para pedir que o estabelecimento guarde a gravação. Afinal, é com ela que você vai provar sua inocência. Então, ao passar por um dos seguranças, você, compreensivelmente revoltado, dá um tapinha em seu ombro e, ironicamente, agradece pela grande ajuda que a segurança havia acabado de lhe dar.

A agressão começa novamente, mas agora não mais vinda do casal, que àquela hora já foi embora. Quem lhe agride é o segurança do shopping, dando-lhe um empurrão nas costas, exigindo respeito. Sua esposa, deficiente, tenta conter o guarda, e também é agredida, junto com a senhora que acompanha vocês, de 60 anos de idade.

A confusão termina novamente, pois a segurança do shopping rapidamente contém o guarda e o afasta do local.

Os funcionários do restaurante então se negam a lhe mostrar novamente a gravação do furto. Algumas pessoas se oferecem para testemunhar a seu favor, mas a segurança o impede de pegar os contatos delas. Você está sendo expulso do shopping. Você, sua mulher deficiente, a senhora de 60 anos que lhe acompanha e a filha dela.

O que lhe resta é sair, e novamente desfilar por todo o shopping, chorando, com a camisa coberta de refrigerante.

Sim, você chora, está muito nervoso. Sua esposa, agredida no braço, também chora. O shopping inteiro assiste a sua saída. O que resta a você é a humilhação e a vergonha causada pelos olhares da plateia.

A plateia que lhe olha como um bandido.

Essa história aconteceu ontem (quinta, 15) com Frederico Germano Lopes Cavalcante, um médico de 29 anos de idade, que cometeu um erro: tentou recuperar um objeto furtado pedindo-o educadamente ao ladrão. Eram 18h30 da noite, e a praça de alimentação do Amazonas Shopping estava, como de costume, cheia. Frederico, a quem não conheço, me procurou para me contar o ocorrido, pois não quer deixar a história pra lá. Conversei com ele por email há pouco, e pretendia lhe pedir uma cópia do Boletim de Ocorrência que registrou na delegacia. Não consegui. No último email que me enviou, Frederico dizia estar sedado por um medicamente anti-hipertensivo. Hoje vou tentar falar com ele novamente. E depois, talvez fazer o coro com as pessoas de Manaus que já cansaram da completa falta de preparo dos funcionários do setor de serviços dessa cidade, que tanto se orgulha de seu tamanho e de seu futuro como sede de Copa do Mundo, enquanto continua vendo verdadeiros absurdos como estes, dignos de uma comédia pastelão de segunda categoria, daquelas que se confundem facilmente com tragédias vergonhosas. O caso de Frederico, sua esposa e suas amigas não é o primeiro, não deverá também ser o último. Para que caia no esquecimento, o absurdo da noite desta quinta precisa apenas da falta de ação e indignação das pessoas que, no lugar de exigirem respeito dentro de um local onde gastam seu dinheiro, apenas assistem casos como esse acontecerem.

Um triste escândalo sem rosto

Os casos mais recentes de abusos e violências contra a mulher acendem uma questão tão importante quanto medieval: que políticas públicas podem ser pensadas para que os casos de D.B.B, A.LF.S. e A.C.M.C. parem de se multiplicar pelo país?

A maioria do eleitorado brasileiro é feminina, assim como quase metade da força de trabalho do país. Não deveria haver, por imposição física ou social, a prevalência de homens sobre mulheres; ainda que essa diferença fosse inevitável, seria mais lógico que favorecesse as mulheres.

O caso do médico Edson inevitavelmente faz aflorar a percepção de que não há pra onde correr. Numa rua mal iluminada, hoje é difícil saber o que amedronta mais, um grupo de rapazes bêbados ou um grupo de policiais. Parece inconcebível que, dentro de um consultório médico, uma mulher seja violentada por alguém que deveria lhe ajudar, passar confiança e tranquilidade.

O trauma e a indignação são os traços comuns a esses tipos de casos. No espaço de tempo de uma consulta médica, mulheres, mães e filhas, com nomes e sobrenomes, passam a ser identificadas apenas por suas iniciais. A tranquilidade asséptica de um hospital ganha a cor e a dor de um caso de polícia. O silêncio parece ser o único caminho, uma espécie de cela pessoal em que cada mulher agredida se isola. Dimensionar a quantidade de mulheres violentadas, agredidas e espacandadas hoje, dentro de casa, é um desafio para as autoridades.

Roger Abdelmassih, a maior referência pessoal em reprodução humana assistida no Brasil, hoje responde a 56 acusações de estupro, dentro de sua clínica. Está em casa graças a decisão do Supremo Tribunal Federal. Seu caso precisa ajudar o país a prestar mais atenção ao que ocorre dentro das clínicas e hospitais.

Cabe também ao Conselho Regional de Medicina, onde ocorrem acirradas disputas eleitorais e animadas festas de confraternizaçao, cumprir a obrigação de proteger a sociedade de seus representantes com desvio de caráter ou personalidade, e não o contrário. Estão aí os casos da menina Bruna Paloma e do cantor Carlos Casagrande, mortos na mesa de cirurgia do mesmo médico. Em que pé anda a investigação sobre esses casos, senhores do CRM?

Há poucas lições a tirar dos supostos estupros do Dr. Edson, além da maior delas: basta que uma mulher resolva denunciar, e o fio da navalha por onde caminham estes médicos (muitas vezes acostumados a anos e anos do silêncio de suas vítimas) facilmente se rompe.

Crianças não deviam ser abusadas pelo padre, meninos não deviam ser agredidos pelo policial, mulheres não deviam ser violentadas pelo seu médico. A repetição dos casos acaba banalizando o crime, aprofundando o sofrimento das vítimas, incentivando o criminoso a fazer mais vítimas.

Há escândalos que não podem sossegar, de forma alguma.

Sobre o que eu não ia falar

Tive pouco contato com a Lorena que conheci, a Lorena Baptista pública. Acho que muitos tiveram esse mesmo contato. Durante toda a semana ouvi, de todos os que a conheceram como eu, que ela era osso duro de roer. Geniosa, maluca, estressada, porra-louca, destrambelhada.

No mais das vezes, concordei com quem me dizia isso (porque a Lorena não deixava muita margem pra discussões), mas no fundo, com um sorriso de canto de boca disfarçado, como de quem diz à própria Lorena, eu passei a semana pensando: “Você tava certa, todo mundo acha que você era louca.”

Nem de longe a Lorena foi a típica esposa-vítima. Vi a reação das pessoas à notícia de sua morte violenta, e algo não colava. Era isso. Como quase sempre, a Lorena intimidava, incomodava. Não pela força, pelo porte de arma nem pela posição de policial. Era pior. Era pela inteligência. Nosso mundo é hipocritamente igualitário, mas há temas, profissões, assuntos nos quais a maioria das mulheres não se mete. A Lorena se metia. Era perita criminal da Polícia Civil. Esperava a decisão da Justiça para assumir seu cargo na Polícia Federal, num concurso no qual passou em primeiro lugar.

Hoje, acompanhando o desenrolar do caso no noticiário, percebo a grotesca ironia do destino da Lorena. Não se sabe, ainda, se o tiro que a matou foi acidental ou não. Peritos da polícia dizem que a versão do ex-marido não bate com o ferimento, que já se disse ter sido na nuca, mas que agora, sabe-se, foi na têmpora esquerda, acima da orelha. Para elucidar o que houve de fato, a polícia amazonense vai precisar de equipamentos e peritos qualificados. Onde ela estiver, sou capaz de ver o sorriso belo, maroto e pretensamente insensível dela.

Lorena, a Lorena pública que conheci, morreu dividida entre o desânimo com o poder público e os lampejos de esperança que sentia com as iniciativas de outras pessoas para mudar isso. Foi assim quando me sugeriu contatos com a ONG Amarribo, quando falamos sobre o projeto Adote Um Município (A1M), sobre controle social das contas dos governos etc. Me falou muito, durante dias e noites, sobre a desilusão de trabalhar como perita numa polícia completamente despreparada, corrupta, loteada entre amigos do rei, entregue a organizações não governamentais suspeitas.

Lorena, a louca, comprou brigas com políticos, denunciou alguns, foi atacada por vários. Com meu incentivo pessoal, criou um blog no qual comentou as estripulias contábeis do então presidente da Câmara Municipal, onde ela trabalhara. Comprou briga com o governo, seu patrão, exigindo condições mínimas de trabalho. Comprou briga com a própria polícia, denunciando a perseguição que sofreu por seu comportamento ‘louco’.

Por tudo isso, sua morte não deixa de causar a impressão de que, para uma porção de gente, a bala de sua pistola foi a mais bem empregada até hoje pela segurança pública amazonense. Com a morte da Lorena, muito malandro está dormindo melhor hoje. Não que ela fosse capaz de destruir a banda podre da política e da polícia amazonenses. Era só porque ela não se aquietava. Aqui mesmo, nO Malfazejo, publicou relatos do seu dia-a-dia como perita, usando um pseudônimo.

Quando tivemos, eu e algumas pessoas que se relacionam via web, a ideia de fazer um protesto sobre a aprovação da Taxa do Lixo, nos reunimos com a Lorena, que nos orientou sobre como transformar a iniciativa em algo formal.

A Lorena não era louca. Era incomodada. Já mostrava cansaço e frustração, e por isso era de uma acidez rasgante. Nas poucas vezes que a vi, não vi uma mulher, vi uma espécie de personagem, incansável, alguém que não suportava ver as coisas como as coisas são. Tudo era temperado com o casamento problemático. No fim, o que se via era uma pessoa atormentada e triste, mas acima de tudo isso, uma pessoa íntegra, inarredavelmente íntegra.

Não conheci a mulher Lorena, a esposa, a filha, a mãe Lorena. Como não conheço seu ex-marido. Espero que, das desgraças possíveis, prevaleça a menos dolorosa: a do tiro acidental, no meio de uma briga física. Desejo aos filhos do casal uma vida mais feliz do que a que os pais tiveram. Desejo ao ex-marido, Milton, que prove sua inocência e que aprenda a conviver com a desgraça que abateu as duas famílias. Não quero falar sobre o que não conheço, sua relação familiar.

Só queria, já que não temos mais a presença ‘incômoda’ da Lorena pública por aqui, dizer quanto eu sinto a falta da sensação de que há alguém mais incomodado. Vivemos atualmente uma fase negra na segurança pública amazonense. Assassinatos, assaltos, sequestros relâmpago, execuções à luz do dia em via pública, guerra entre traficantes e assaltantes de banco.

A Lorena morreu. Ficou apenas a mentira da polícia equipada, treinada, capaz de solucionar a avalanche de violência que torna Manaus a cidade perigosa que ela não estava acostumada a ser.

Quase ouço ela dizer agora, numa mensagem de computador ou com um sorriso sarcástico nos lábios, me dizer: “Eu não te disse que iam me chamar de louca, Ismael?”

Fique em paz, Lorena.

Por que eu sumi, e por que estou de volta.

CLIQUE AQUI — O Malfazejo está no D24AM.

Há pouco mais de dois meses fui convidado, por Cirilo Anunciação e Márcio Noronha, para fazer parte da equipe que montava o novo produto da empresa, o portal D24AM. Lançado oficialmente na última quarta (2), o portal chegou aos seus primeiros 100 mil acessos antes de completar uma semana, é um sucesso de público — e, mérito ainda maior, de crítica.

Fiquei responsável pela seção de blogs, com total liberdade para convidar quem quisesse para participar. À primeira vista, a impressão é a de que não havia critérios para essa escolha. Mas havia. O principal deles era a aposta em autores novos, preferencialmente sem a experiência (e os vícios) desse tipo de publicação. Um segundo grupo de blogs deverá vir ao ar em breve, com autores mais experientes e conhecidos. Hoje somos 44 blogueiros, escrevendo 38 blogs que vão da política à culinária, da literatura à tecnologia, do Direito ao cotidiano.

Todo esse trabalho acabou me afastando deste O Malfazejo aqui, e por isso peço desculpas às pessoas que tem visitado o blog. Este espaço, nO Avesso — um portal de blogs que concebi em 2009 — não vai sumir, pretendo retomá-lo um dia, quando a seção de blogs do D24AM estiver consolidada, o que vai facilitar a adesão de outras pessoas ao projeto O Avesso, um sonho pessoal.

Hoje enxergo um pouco de O Avesso no projeto D24AM, é inevitável. A diferença, aqui, é a responsabilidade e a visibilidade que as marcas Diário do Amazonas e Dez Minutos trazem, instantaneamente, a todos os blogs.

Aos leitores mais assíduos, peço que atualizem seus links e atalhos de favoritos. A transição traz transtorno, é claro, mas mudar é sempre necessário. Se for para melhor, para estar bem acompanhado, ótimo.

Agora é aguardar os resultados dos primeiros dias, talvez do primeiro mês. A ideia é que, depois disso, novos blogs sejam apresentados aos leitores do D24AM. Em breve, com alguns mecanismos básicos de avaliação, a intenção é abrigar os blogs de quem quiser participar do D24AM.

Dito isto, fica a previsão de que as atualizações voltam a seu ritmo normal.

Obrigado, moçada.

Inicializando…

Ismael Benigno

Ismael_20Benigno-vereadorCopiado do excelente blog Baú Velho, de Carlos Zamith:

Neste dia 4 de maio completa 22 anos que Ismael Benigno nos deixou, o maior benfeitor do São Raimundo Esporte Clube ao qual dedicou grande parte de sua vida. Foi o construtor de todo o patrimônio da agremiação diminuído com o tempo por falta de cuidado e dedicação de seus sucessores.

Ismael Benigno – vereadorIsmael era um apaixonado pelo São Raimundo e pelo bairro. Sempre quis o melhor para ambos. Atendia a população carente em sua residência, em frente à Igreja, mesmo fora da política. Em 1956, levou o seu clube à primeira divisão da então Fada. Fazia questão de comemorar, com jogos interestaduais, qualquer melhoramento no estádio da Colina, hoje com o seu nome. Assim foi na inauguração da arquibancada, dos túneis, dos vestiários, do alambrado e quando promoveu um amistoso com o Nacional para a inauguração dos refletores.

Funcionário estadual aposentado, ao deixar a política, exerceu o cargo de diretor da Rádio Difusora do Amazonas de seu amigo Josué Cláudio de Souza. Ismael morreu no dia 4 de maio de 1978, em Manaus, vítima de um AVC. A notícia de sua morte consternou a toda comunidade sanraimundense. O bairro chorou a perda de seu mais querido filho. Em sua homenagem, em 1979, a Vereador Josefa Vasquez deu o nome de Praça “Ismael” ao logradouro em frente à igreja de São Raimundo Nonato.

Ismael Benigno nasceu a 2 de janeiro de 1912. Era filho de Ismael Benigno e Francisca de Aquino Benigno. Tornou-se político por imposição de amigos, concorrendo pela primeira vez, às eleições para a 2ª Legislatura da Câmara Municipal de Manaus, eleito para período de 1952 a 1956, pelo Partido Social Democrático e reeleito para a Legislatura seguinte de 1956 a 1960.

Era presidente da Câmara Municipal quando foi nomeado Prefeito pelo então governador Plínio Ramos Coelho a partir de julho de 1958, permanecendo no cargo, por quase um ano. Voltou a ser Vereador na 5ª Legislatura, pelo Partido Rural Trabalhista mas renunciou ao mandato por ter sido eleito Deputado Estadual nas eleições de 1966, quando foi atingido por ato da Revolução de março, com a cassação de seu mandato. Depois disso não quis saber mais de política, entregando a missão a outro filho do bairro, Raimundo Sena, que durante quinze anos consecutivos ocupou o cargo de Vereador e também, por dois anos, a presidência do legislativo Municipal.

A infância acabou.

Receita de herói

Tome-se um homem feito de nada
Como nós em tamanho natural
Embeba-se-lhe a carne
Lentamente
De uma certeza aguda, irracional
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois perto do fim
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim
Serve-se morto.

Reinaldo Ferreira em “Portos de Passagem”, 1991

Outro dia vi Wagner Love, do Flamengo, dizer que acabara de sofrer a derrota mais prazerosa de sua carreira. O rubro-negro carioca perdera a segunda partida das oitavas de final da Copa Libertadores por 2 a 1, para o Corinthians. O resultado levava o Flamengo adiante no torneio e eliminava o time paulista.

Hoje, com a confirmação da chapa Alfredo Nascimento / Serafim Corrêa para concorrer ao governo do Amazonas, lembrei do Wagner Love e imaginei o que deverá ser, para o ex-prefeito, a vitória mais amarga de sua carreira. Não porque sua relação com o senador seja tumultuada ou de inimizade, mas pelo que Alfredo representa. Mais do que isso, pelo que Serafim representa.

Ao ver o PSB costurar sua chapa com o PR de Alfredo, sob as bênçãos do presidente Lula e diante de toda a minha torcida contrária, entendi o que separam socialistas de socialistas, ou oposicionistas de oposicionistas. Serafim escolheu ser coadjuvante de uma vitória, em vez de protagonista de uma derrota. Ainda vai precisar de algum tempo para saber se fez a escolha certa, mas terá pouco tempo para convencer seus eleitores disso.

Posso falar pessoalmente. Ao tomar conhecimento da notícia, vi ao meu redor o furor que aguarda Serafim e percebi como é reconfortante, mesmo contrariado com a notícia, ver provado que ainda há políticos capazes de decepcionar seu eleitorado. Isso não pode ser ignorado, porque essa é uma raça rara. Espero apenas que Serafim tenha tido a noção da quantidade dessas pessoas. O tal “exército invisível” de Jefferson Peres não pode ser desprezado — nem tornado sacrosanto, como se este mesmo exército não tivesse abandonado o então prefeito em favor de Amazonino, que hoje faz a Prefeitura que faz.

É um fato amargo, não tentemos esconder. O PSB escolheu seu projeto político, e projetos políticos só andam a base de vitórias. Com elas aumenta a representatividade do partido em todas as esferas, a nacional, as estaduais e municipais. Senadores, deputados e vereadores aumentam em número, o partido cresce, deixa de ser oposição por oposição, do tipo que morre de medo de ganhar, só quer marcar posição. Com seu PSB, contando dinheiro para viajar pelo interior, Serafim faria a minha alegria e a alegria de muitos dos que queriam vê-lo disputando o cargo maior do estado. Se deixasse exposta sua falta de dinheiro e estrutura, então, encheria ainda mais seu eleitorado de orgulho.

Mas ele não venceria.

Por isso, eu entendo o PSB. Mas ainda é muito cedo para saber se, depois desse adeus à infância, as vitórias e derrotas da vida adulta trarão a Serafim a redenção. A aliança com Alfredo, e mais do que isso, o resultado dessa aliança nas urnas, será o divisor de águas entre a política que se vê nas ruas e a política que se faz nas urnas. De uma forma ou de outra, a decisão de Serafim e do PSB vai tirar as dúvidas sobre quem estava certo: quem acreditou na vitória de um Davi contra dois Golias, ou quem acreditou em números que mostravam o tamanho da impossibilidade — logística e financeira, especialmente.

A olhos vistos, Serafim sofreu com o dilema. Entre seus eleitores, era flagrante a pressão pela candidatura insólita, abandonada pelos partidos que o apoiaram em 2008. Seus eleitores, onde eu me incluo, tocavam a vida enquanto Serafim ouvia, nos almoços e visitas que recebia, os porquês de quem lhe largava. Uns precisavam do apoio de deputados estaduais no interior. Deputados são governistas, não podiam apoiar alguém que caminhasse ao lado de Serafim. Outros alegavam que Serafim não tinha dinheiro, assim, com essa franqueza. E, no todo e nas partes, Serafim absorvia o ícone que criou, o do oposicionista que certa vez venceu a máquina. Perderia fragorosamente, esmagado na piçarra e no lixo espalhado nos 62 municípios do interior, por duas naves gigantescas.

Mas perderia bonito, diríamos todos nós.

Em política, assistindo as caminhadas dos Serafins, das Marinas, dos Gabeiras e dos Cristóvams, percebi que gente que não trai é que apanha. Gente que fala a verdade é que cria dívidas com os eleitores. É o preço justo pela escolha em se fazer na política o que poucos fazem na política. Pode parecer um contrasenso, mas me orgulho de fazer parte de um grupo de eleitores difícil de dobrar. Ver as pessoas que vi hoje criticando a decisão do PSB dá gosto, me fez lembrar de tantos políticos e partidos que até outro dia ainda suavam a camisa e gastavam seu latim — ou seu russo — para manter seu eleitorado. Caberá aos eleitores de Serafim, agora, continuar cobrando. Caberá a Serafim continuar respeitando a inteligência dessa gente.

Não cabe aqui condenar quem ajuda a fazer da nossa política o balaio de gatos que ela é. Ver um senhor de 63 anos angustiado com o convite para embarcar numa candidatura favorita me faz lembrar dos jovens, alguns com menos de 30 anos, que hoje já se renderam à ideologia do cinismo, ao empreguismo e à tentação de fazer parte do poder, seja o poder de quem for. A opção pelo cinismo é tentadora, porque é fácil. Qualquer jovem político sem muitas luzes pode ser cínico, e há exemplos aos montes. E porque são montes, acabam reescrevendo uma história que deveria ser outra, a dos homens e mulheres que, na política, mais choram do que riem. Desconfio de políticos risonhos e felizes, porque no mais das vezes são apenas vítimas da mosca azul, satélites de outros políticos ou apenas gente sem profissão definida que vive à procura de um galho pra sentar — e rir de quem passa.

Hoje, vendo a reação raivosa da platéia ao fim do dilema do PSB, exposto em praça pública durante dias e dias, lembrei de tantos finados heróis do nosso passado recente. Petistas e comunistas devem ter recebido o fim da candidatura Serafim com um misto de inveja e alívio. Inveja porque aceitariam, rápida e sorridentemente, fazer parte de uma chapa tão forte. Alívio porque, vendo Serafim apanhar em público, podem expiar seus pecados e repousar confortavelmente nos gabinetes que ocupam, sem eleitores na sua cola, sem ideologia pra defender, sem bandeiras pra empunhar.

O tempo dirá se Serafim acertou ao render-se aos números. Meu palpite é o de que apressou-se a se declarar candidato, contando com apoios que, se em nível local eram simples, em nível estadual se revelaram teoremas matemáticos. Eleições em Manaus são uma coisa, eleições estaduais são outra. Serafim escolheu seu projeto, o projeto de tonar seu partido visível em detrimento de seu próprio capital pessoal. Decepcionou os que amavam vê-lo a cada dois anos ali, no cantinho dos oposicionistas heróicos, vencendo debates, mostrando bons projetos, pregando a ética na política… e perdendo no fim. Não faz muito tempo, eu vi muita gente consagrando o demagogo experiente para punir o reto de primeira viagem. Com a licença de vocês, ouso lembrar que não caí nessa daquela vez. Não vou cair novamente.

Claro, é difícil digerir, como eleitor, o fato de que a infância acabou. Mas o fato é que ela acaba, a vida segue e o que sobra é a saudade dos tempos em que tudo era mais fácil, porque mudar o mundo era apenas uma brincadeira.

Reflexos e fotografias

Quando os risos abertos começaram a denunciar os repuxos e rugas nos cantos dos olhos, quando o pigarro começou a incomodar mais, quando os cabelos começaram a rarear e a barba agrisalhar, me perdi. A cintura alargou, o fôlego esmoreceu e sinais e mais sinais apareceram, aparentemente no espaço de uma noite. Espelhos são ótimos companheiros, sempre prontos a dizer o que precisamos ouvir. São diferentes, muito diferentes das fotos. As máquinas são os famosos amigos verdadeiros, esses chatos egoístas, mais preocupados em estar certos do que em agradar. Dizem, com requintes de crueldade, que os anos passaram, que a mistureba de álcool, salgadinhos, frituras e gordura já não são inofensivos como há 10 anos. Aos 18 todo fígado é total flex, tudo suporta, tudo supera.

Há semelhanças tênues entre esse terço de vida (se Deus quiser) e a crônica circular, diária dos escritos. Por vezes um céu nublado ou uma música mais triste nos pautam, nos abatem e nos deixam pensativos. Hoje peso e meço tudo o que ainda quero ser, viver, ouvir, ver e falar. Desonesto comigo mesmo, me apego às palavras falsas e amigas do meu espelho, que cinicamente me diz que estou mais charmoso com esta barba grisalha.

Sou pai e talvez já tenha o biótipo de pai, de “véio”, de coroa. Espero, do jeito que esperei aos 18 pela namorada, que esse menino venha me fazer sentir bonito novamente, aceso novamente, mais feliz do que já estou. Espero, ansioso como a menina na noite de Natal, pra poder chorar de felicidade, pra poder chorar de preocupação; pra que uma foto de família, enfim, me faça andar com minha carteira, orgulhoso, louco pra que perguntem se tenho filhos, no trabalho, na rua, na mesa do chope da sexta-feira.

Espero que este espelho pequenino me venha acordar dos dias nublados, do frio na barriga e do medo de errar. Que o choro macio e que o riso iluminado me venham rejuvenescer, acender.

Quando isto acontecer, o tempo correrá ao contrário pra mim.

Azar o de vocês, fotografias ranzinzas e sem graça.

O Estado do Amazonas, 4 de novembro de 2006

Tempo Rei

Não me iludo, tudo permanecerá do jeito que tem sido

Transcorrendo, transformando

Tempo e espaço navegando todos os sentidos

Pães de Açúcar, corcovados

Fustigados pela chuva e pelo eterno vento

Água mole, pedra dura

Tanto bate que não restará nem pensamento

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei

Transformai as velhas formas do viver

Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei

Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

Pensamento, mesmo o fundamento singular do ser humano

De um momento para o outro

Poderá não mais fundar nem gregos nem baianos

Mães zelosas, pais corujas

Vejam como as águas de repente ficam sujas

Não se iludam, não me iludo

Tudo agora mesmo pode estar por um segundo

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei

Transformai as velhas formas do viver

Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei

Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

Gilberto Gil

Dessa vez, a culpa foi do mérito

deco_marca
Quando ele me contou, dias atrás, da nova empreitada, dei os parabéns que ele achava improváveis. A apresentação do trabalho ocorreria hoje, e a epectativa era de entrevistas, poses para fotos etc. Não deu outra, mas por essas impossibilidades da vida, acabei perdendo os holofotes que ele recebeu, muito merecidamente.

Hoje a Prefeitura apresentou à cidade sua nova cara, e o Deco arrebentou de novo. O meu camaradinha tem o perfil do profissional que muita gente busca. Trabalha duro, é apaixonado pelo que faz e não escolhe causas ou clientes. Como nesse caso, é o cliente quem o escolhe. O Deco comandou a mudança na identidade da Prefeitura na administração passada. Hoje de novo, e com o mesmo talento.

Dá orgulho, porque se nesse mundo político a cartilha reza sempre pela desqualificação do outro, pra certas coisas não há jeito, vence o melhor, o mais bonito. Manaus precisa de muito mais do que um símbolo, é verdade, mas merece registro que o mérito e o profissionalismo sejam privilegiados vez ou outra. Quando esses são os critérios, gente como o Deco se destaca, é batata.

A parte do Deco, como sempre, ficou perfeita.

Espero que a Prefeitura se inspire no trabalho — e no slogan que ela criou — e lembre-se sempre, ao manusear seus documentos, nos seus VTs, nos cartazes e nos envelopes, que realmente merecemos uma cidade melhor.

Abaixo, a defesa do Deco para a concepção da marca:

A marca tem como finalidade sintetizar graficamente tudo o que compõe a cidade de Manaus: seu povo, suas características, geografia, história e a natureza de que fazemos parte. A marca tem em sua composição o uso de duas estruturas formais: o símbolo gráfico e o logotipo. O símbolo decorre pela leveza e simplicidade de um nascer floral vivo, onde a capital está inserida. Um nascer diário, sempre com suas responsabilidades de se fazer presente. Uma Manaus nova. Que nasce do colorido de seu povo. Marcada com o símbolo gráfico ao topo da letra n, que por sua vez reforça o uso do conceito “Novo”. O logotipo com conceito do moderno faz uso de alfabeto com dinamismo e força. O foco na cidade de Manaus traz a cor predominante na região onde a capital se situa: o verde. Em tom pastel, sem peso em sua carga, sem perder a importância e responsabilidade que a instituição Prefeitura de Manaus tem por administrá-la. O traço marca o ponto diferencial de gestão. Sendo a linha que reforça o que o cidadão de Manaus mais precisa: uma cidade melhor para viver.