por Benayas Inácio Pereira
Émile Couê, psicólogo e farmacêutico francês, nasceu em 26-2-1857 e morreu em 2-7-1926. E daí? Acontece que, quando eu era ainda criança, casualmente tive acesso a uma de suas obras e, naquele tempo não se falava de livros de autoajuda. Foi por essa época que apareceu um tal de Omar Cardoso que tinha um programa no rádio, onde falava de horóscopo e citava sempre uma frase que dizia: “Todos os dias, sob todos os pontos de vista, eu vou cada vez melhor”. Gostaram? Eu também, mas só que esta frase é de autoria do Émile e não do Omar.
Puro plágio! Eu só sei que fiquei fã do Émile. Até o John Lennon também, pois na música “Beautiful Boy” ele conseguiu inserir o mantra acima citado. Émile dizia também que nosso cérebro só pode pensar uma coisa de cada vez, portanto, devemos pensar coisas positivas sempre. Humilde, Couê falava que nunca havia curado ninguém e que somente ajudava às pessoas a se curarem. Legal o Émile, não? Então, ainda dentro do assunto, quando era jovenzinho, eu gostava muito de ver os grandes jogadores de sinuca.
Eles se reuniam no enorme e famoso “Salão Comercial”, situado à Praça da Sé, marco zero da cidade de São Paulo. Do terceiro andar eu ficava encostado nos abertos janelões do prédio (acho que ainda não havia sido descoberto o aparelho de ar-condicionado) e ficava a observar aquela massa humana que já infestava o centro velho da capital paulista. E vinha-me à cabeça o que cada um dos transeuntes pensava naquele exato momento. Eu reparava nos homens engravatados e de chapéu que passavam apressados, provavelmente, funcionários de grandes empresas que se aglomeravam nas ruas centrais ou mesmo dos bancos que proliferavam feito filhotes de rato.
Desfilavam também as madames elegantes com luvas e vestidos longos em contraste com os mendigos que interpelavam um ou outro em busca de um mísero trocado. Aí é que volta à cena o Émile Couê. Nem todos podem dizer que “Vou cada vez melhor”, mas a vida é mesmo assim. Enquanto uma minoria de felizardos milionários, biliardários e multibiliardários gastam imensas fortunas com bobagens egocêntricas, e nem sequer pensam no pobre, a maioria quase absoluta briga pelo pão-nosso de cada dia. E pior, nem todos conseguem o mínimo para sua sobrevivência. Nesse diapasão, a fome se alastra pelos quatro cantinhos do mundo redondo. Não vai demorar muito e os nababescos ricaços de plantão irão sentir na carne os efeitos daquilo que indiretamente plantaram. E, claro, irão sucumbir abraçadinhos com o dinheirinho ganho com tanto “esforço”.
Puxa! Ia me esquecendo do Couê. Tudo o que ele professou e tentou ensinar foi por água abaixo. Dizem que apesar do seu método ser bem eficiente, era de difícil interpretação. Azar da população que, se em 1926 não conseguiu pensar sobre esse intrincado assunto, imagina agora oitenta e quatro anos depois. Em meados do século passado inventaram a tal de cibernética. Baseando-se no fato que ela veio para ficar… Adeus, cabeças pensantes!
No ótimo filme “Pasqualino Sete Belezas”, da cineasta italiana de nome alemão Lina Wertimüller, um personagem profetizou que lá pelo ano de 2050, um filho matará o pai ou o irmão ou a própria mãe para lhes roubar um naco de pão. Absurdo? Não! A população mundial cresce vertiginosamente e brevemente não haverá mais espaço para se plantar nem um reles pezinho de couve. E que não me venham esses japoneses com seus bonsais tentando resolver o impossível.
Para se ter uma pequena ideia, no ano 1500 a.C. a população mundial era de 28 milhões. No ano zero, isto é, há dois mil e dez anos era de 170 milhões de pessoas. A matemática é uma ciência exata. Nestes 1.500 anos a população cresceu apenas 142 milhões de seres. Hoje, após mais 2.010 anos ela passa dos sete bilhões, isto é, em números reais um aumento de 6.858.000 de criaturas. Pelo andar dos burros da carroça, acredito que no tempo do decantado “dilúvio” bíblico, a população contava no máximo com uns mil gatos pingados já incluindo a numerosa família do afamado Noé.
Atualmente, os mais pessimistas, vislumbram a falta de comida, de água e até do próprio ar. Os ambientalistas se coçam mais que jogadores de futebol dando entrevistas após as partidas, e não chegam a nenhuma solução concreta. Partindo do pressuposto que eu não sou pessimista e também por achar que em 2050 eu “já era”, infelizmente não vou poder assistir e, muito menos participar deste processo.
Calma gente! Nada de se mudar para a Lua ou Plutão.
Volta à tona o Émile Couê. Quem sabe aparece um Pelé, digo, um novo Couê da ciência e redescobre a nova fórmula da pólvora? Se aparecer tudo estará resolvido como num passe do Jacó, aquele pai de santo. Ao contrário, se não aparecer o esperado Raimundo, digo, Messias da nova era, como dizia Adoniran… Paciência Iracema.
Afinal, “Quem pariu Mateus que embale Mateus”.
Benayas Inácio Pereira é cronista e poeta - benayas_poeta@hotmail.com


