Archive for the ‘Letras’ Category

Notas de segunda-feira

Na torcida por Amazonino

Devem ter sido duros os últimos dias do prefeito Amazonino Negociando Mendes. Com o fim do prazo para decidir se ‘o povo lhe chamaria’ para largar novamente a Prefeitura, o prefeito optou por tentar salvar o resto do mandato e, quem sabe aceitando apoiar Alfredo em troca de muita verba federal, se capacitar para a reeleição em 2012, o que lhe daria o trono do Reino Encantado de Tão Tão Perto (Manaus) em plena Copa do Mundo. Sem a necessidade das rajadas de mentiras típicas de uma campanha, Amazonino fica livre para organizar o que for possível, como o trânsito, a educação e a saúde. Se Amazonino evitar mais mortes de fetos na maternidade Moura Tapajoz por falta de leito, operador de ultrassom ou equipamento quebrado, por exemplo, já será um grande começo. Nas propagandas institucionais da Prefeitura, a maternidade é saudada por ter recebido o título de “Amiga da Criança”.

Renúncia — É tida como certa a renúncia do desembargador Ari Jorge Moutinho da presidência do TRE-AM nesta segunda (5). Moutinho, que vive uma guerra interna com a desembargadora Graça Figueiredo desde o início do ano passado, deverá alegar em sua carta-renúncia que deixa o tribunal atendendo a pedidos da família. Além disso, tem contra si o julgamento do TSE que deve confirmar a irregularidade de sua recondução à presidência. Dizem os mais entendidos, também, que a pauta de julgamentos do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) nesta terça não é das mais tranquilas para vários magistrados amazonenses.

Artigo raro — Omar Aziz assumiu o governo e levou o mercado de vices ao colapso no Amazonas. Especialistas em recolocação profissional dizem que está mais fácil encontrar uma empregada doméstica ou um astronauta com experiência comprovada em carteira do que políticos inexpressivos à disposição. José Melo, último exemplar disponível no mercado, estaria custando os olhos da cara.

iPed — “Chega nesta segunda-feira às calçadas mais movimentadas do País a versão pirata do iPad, a engenhoca da Apple que chegou ontem às lojas autorizadas. Dizem os camelôs que o modelo original não tem isqueiro nem canivete.” Tutty Vasques, em seu blog.

Estudantes: de novo, o problema — De provincianismo o manauara não tem podido reclamar muito. Um exemplo é a entrada da cidade no circuito das medições diárias de engarrafamentos, como em São Paulo. Hoje, por exemplo, a cidade registrou 3,2km de congestionamento nas proximidades do Complexo Viário Gilberto Mestrinho, a famosa Bola do Coroado. O detalhe é que a obra já foi inaugurada, não há como atribuir os problemas às obras. Como resultado, a Prefeitura inventou o semáforo humano: no lugar dos faróis coloridos, instalou azuizinhos (agentes de trânsito) para parar e liberar o fluxo de veículos.

Solução rápida — Tida como a causa do problema, a entrada do campus da UFAM precisa urgentemente de uma obra que resolva o gargalo. Especialistas, inclusive agentes de trânsito, concordam que a saída definitiva seria uma passagem de nível no local, o que não seria nenhum problema para uma Prefeitura que, em 11 meses, diz ter construído todo o viaduto da Bola do Coroado. Se para aquela obra bateu-se o recorde de rapidez, estima-se que uma passagem de nível na entrada da universidade deva consumir algo como dois meses.

Mais recorde — Falando nisso, o Portal Amazônia conta hoje que a equipe do TrânsitoManaus achou fissuras e buracos na estrutura do Complexo Gilberto Mestrinho.

Requisições 1 — No final da noite deste domingo de Páscoa, o advogado Daniel Nogueira, ex-representante de Amazonino Mendes diante da Justiça Eleitoral, contou no Twitter que encontrou uma bomba no processo que o prefeito responde por suposta compra de votos e caixa dois nas eleições de 2008. Nogueira disse que havia um anexo perdido, sobre uma operação da Polícia Federal ocorrida no dia do primeiro turno de 2008 — a operação “contra” Amazonino ocorreu na véspera, 4 de outubro.

Requisições 2 — Nogueira diz que a PF ouviu pessoas que dizem ter recebido requisições de gasolina de pessoas ligadas ao ex-prefeito Serafim Corrêa. Uma dessas pessoas teria dito que vendeu seu voto em troca da gasolina. O advogado disse que iria avisar o atual advogado de Amazonino, e insinuou que o Ministério Público Eleitoral trata de forma diferente casos semelhantes.

https://twitter.com/transitomanaus

“Absolutizando” o que foi “relativizado”

Escrevi isso em outubro de 2006. Achei por acaso há pouco e gostei do que li:

Um dos preços da verdade é a dor. Dor de saber, por convicção, que um governo ou um amigo sempre estará errado, seja roubando da classe média pra dar pros pobres, seja roubando uma caixa de leite do supermercado pra dar ao vizinho desempregado. Conheço vários petistas, na maioria honestos, gente de bem. E esse recado pessoal vai pra eles. Não se rendam ao cinismo. Se há ainda uma herança boa deixada pelo PT, talvez seja o pouco que resta do idealismo barato e pobre, porém nobre, de seus militantes. “Herança” pressupõe morte, e no caso dos estudantes universitários, dos sindicalistas, dos trabalhadores, dos intelectuais e dos artistas petistas ficou a sensação de orfandade. Agem e reagem, todos, como bonecos falantes, soltando palavras ao vento, sem que haja comando cerebral para que outras palavras, novas palavras e discursos sejam criados. O cérebro, o comando central desta nação vermelha, está desligado – ou ocupado demais fazendo alianças para as eleições.

Assim eu tenho visto o petismo, uma “idéia” socialista retrógrada de luta de classes, nascida de um tempo em que trabalhadores queriam salário, mas não patrão; um Muro de Berlim que caiu sobre as cabeças dos crentes, como certeiramente relatou meu querido Marcus Pessoa. Idéias retrógradas morrem com mais facilidade, não resistem a um sopro de liberdade de pensamento, de honestidade intelectual. Daí em diante se mantêm respirando com a ajuda de aparelhos, mas mortas. Assim é o regime de Fidel, anacrônico, ridículo, sustentado em vida com a ajuda dos respiradores artificiais da ajuda de Chavez. Assim se manteve supostamente intacto, para ser adorado pelas viúvas do Comunismo, o cadáver de Lênin. Honestidade intelectual pressupõe rompimento, desprendimento, a capacidade de um admirador de se tornar um crítico. Isso é ser honesto intelectualmente. Há gratos exemplos na democracia brasileira. Deviam ser mais frequentes, porque não entendo esse apego ao passado. Os manda-chuvas deste partido são desonestos. Que maior motivo poderia haver para uma revolução – palavra que os esquerdistas tanto prezam – dentro das hostes do próprio PT?

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Comprando a lebre da Verdade, levando o gato da Política

Não é de hoje que falo da iniciativa democrática e honesta, por parte de grandes jornais e veículos de imprensa, que decidem assumir suas posições ideológicas ou escolher candidatura durante períodos eleitorais. Não vamos negar o fosso de qualidade entre o público leitor de jornais no Brasil e o de países mais desenvolvidos, mas também é difícil ignorar que, no Brasil, ser leitor de jornal já é um grande avanço. O brasileiro pode ainda ter chances de vir a ler jornais antes que os jornais acabem.

Para o leitor mediano, porém, acaba ficando sutil demais a guinada que certos veículos dão assim que o calendário eleitoral vai passando. Em mercados editoriais como o de Manaus, não adianta saber que jornal A, tevê B ou rádio C estão sem credibilidade. Em mercados editoriais como o de Manaus, não é a credibilidade o que leva o leite das crianças pra casa. Veículos como o Amazonas Em Tempo, por exemplo, sequer defendem o jornalismo que praticam, porque sabem que o que a má fama é justa.

É injusta, por exemplo, a má fama do extinto Correio Amazonense como um jornal criado como máquina de imprensa a favor de Amazonino Mendes. Amazonino não inventou a fórmula, tampouco ela morreu com os portões do Correio sendo fechados na cara de seus funcionários, logo após sua derrota nas urnas. A Crítica é o PMDB da imprensa local, com inegável tradição, capacidade comprovada e considerável poder de formação de opinião. Mas carrega também os defeitos do PMDB, cujo tamanho é usado como moeda de troca na hora em que políticos com poder econômico (quase sempre dinheiro público) precisam das letrinhas pretas impressas em papel jornal, que tão melhor impressão passam ao eleitor e leitor do que os tradicionais santinhos — se houver um nome tradicional por trás dessas letrinhas, tanto melhor.

Os veículos menores ou menos longevos também não diferem dos partidecos de aluguel que pululam pelo país, a serviço de candidaturas majoritárias ou de políticos sem expressão, que no mais das vezes trocam grandes siglas pelos PPs, PMNs e PSCs da vida. Assim são os jornais de ocasião, como foram O Estado do Amazonas, o Jornal do Norte, o Correio Amazonense ou hoje o Em Tempo. Hoje A Crítica, tal qual uma sigla política, decide quem vai apoiar. Na redação do Em Tempo, funcionários já foram informados, pela direção, que devem também “marchar” ao lado do candidato Omar. Nada de mau em que um jornal decida declarar a candidatura que deverá apoiar.

Daí a tentar transformar esse apoio em notícia é má fé. Levar acordos comerciais para a manchete é enganar o cliente — que é bom lembrar, não é o governador, é o leitor. Jornalecos de fachada não se constrangem em fazer isso, mas jornalões com alguma história deveriam zelar mais pelo respeito que devem ao cliente. Notícia é notícia, opinião é opinião. Misturar as duas e vender isso como jornalismo é atentar contra a inteligência alheia.

Uma mentira impressa em papel jornal vira quase automaticamente verdade. Uma mentira voando pelas ondas de uma rádio como a Difusora, por exemplo, é uma verdade. Sabemos das quedinhas que nossa “grande imprensa” tem não por candidato A ou B, mas pelas verbas publicitárias mantidas com dinheiro público. Não sendo ilegal a subserviência da mídia aos donos desses cofres, é no mínimo questionável o aspecto moral dessa relação.

Fato é que, como em tantos outros mercados, no mercado da imprensa é preciso saber quem é o real cliente no Amazonas, sob pena de, sem saber quem ele é, os jornais acabarem institucionalizados como braços propagandistas do poder público, como empresas estatais que não dependem do lucro pra sobreviver. Jornais mantidos com dinheiro público não dependem de leitores, precisam apenas apoiar o político certo. Ainda que não venda um exemplar sequer, um jornal como o Em Tempo vai continuar exsitindo, porque sua vida não é decidida pelas escolhas que o amazonense faz na banca de revistas, mas pelas que faz na urna.

Mas o fato é que eles estão aí, sendo vendidos nas ruas, como se já não tivessem sido pagos pela população. Acabam as eleições, conhecem-se os vencedores, refazem-se as simpatias e antipatias “eternas”, e fica tudo por isso mesmo. É muito difícil levar a sério uma imprensa que tem no Google e na história recente um inimigo, e não um aliado. A verdade parece não gozar de muito prestígio político.

No mercado de notícias amazonense, a verdade é como aquele político honesto que todos adoram elogiar, mas que morreu solitário.

Um papo surrealisticamente utópico com Sebastião Reis

por Benayas Inácio Pereira

benayas“E aí Reis, tudo bem? Poxa, estou morrendo de saudades e parece que foi ontem que você viajou. Pensando bem, como o tempo passa rápido, não?

Se quiser que eu conte as novidades por aqui, eu posso relatar, mas elas não são tão alvissareiras como você gostaria de ouvir.

No jornalismo local, a coisa está para lá de marrom. Os jornais, como que obedecendo a ordens superiores, exaltam os políticos que de uma forma ou outra ‘sustentam’ financeiramente a permanência deles, ocorrendo por isso, um paradoxo nos noticiários. Em outras palavras, cada jornal publica o que os ‘verdadeiros donos’ determinam.

Meu olhar adentra para as redações e não consigo enxergar um novo Reis, o que comprova que o seu trono ainda se encontra desocupado. Por falar nisso eu ainda continuo fora daqueles projetos que estávamos elaborando.

Na música nada de novo. No palco iluminado as luzes não foram trocadas e o brega que tanto condenávamos continua dando as cartas. Tenho ouvido bastante as canções do nosso tempo, principalmente MPB, aquelas que vivíamos entoando.

Nossos amigos são ainda os mesmos. Tenho visto pouco o Marcelo que nos acompanhou no último almoço quando rimos descontraidamente e tivemos muito tempo para falar de Reiquixás, cacófatos e palíndromos. Não tenho visto o Júnior Lima, tendo apenas conversado com ele ao telefone. Sei que ele continua batalhando na música e jamais abandona seu violão. Encontro-me algumas vezes com o Cláudio Barboza e, sempre sobra um tempinho para falarmos de você e de sua viajem inesperada. Com a Betsi Bell, não tenho conversado apesar da perene amizade que nutrimos por ela. Dias atrás eu dei uma boa olhada em umas fotos que o Pedro pôs no meu computador. São fotografias tiradas lá no jornal, “O Estado do Amazonas”. Você aparece em muitas delas e, em algumas, sua cara está engraçada que só. Eu ainda lembro-me bem de quando você dizia que uma redação igual àquela, nunca mais, pois lá, era uma verdadeira família. O Sebastião Assante está meio sumido, mas sei que ele continua com o mesmo apreço que sempre teve por você. Sobre a Rebecca, tenho tido contatos com ela apesar de sua vida atribulada, todavia sempre tocamos no seu nome e nos comovemos.

Tenho visto e falado com o Joaquim Marinho e, menos um pouco com o Limongi.

Na política, nada de novo e os nomes são os mesmos. Muda-se a sopa, mas permanecem as moscas. Na literatura, caro Reis, perdemos algumas personalidades importantes, entre elas o nosso amigo Anibal Beça. Quase me esqueço, o Lombardi do qual fazíamos imitações também viajou. É a vida escrevendo seu ciclo.

Acredite que a ficha sobre a sua viagem ainda não caiu por inteiro. Continuo tentando absorver, mas permaneço incrédulo. Ah, assim que você viajou, enviei um e-mail ao seu amigo Antero Greco que está na ESPN, falando da sua ida. Como você pode notar pouca coisa aconteceu por aqui.

Voltando ao nosso último almoço, recordo-me que havíamos marcado encontro para uns dias depois, porém, não foi possível em razão das circunstâncias e armadilhas que a vida nos prepara, mas o que se vai fazer?

Bem, penso que você deve estar ocupado e não pretendo aborrecê-lo mais. Vou me despedir mandando um abraço de ‘até breve’. Se encontrar com o Aguinelo, mande minhas recomendações. Tchau”.

Benayas Inácio Pereira é cronista, poeta e amigo do Reis.

Menina é “esquecida” no Pinel por 4 anos

Texto recomendado no Twitter pela jornalista Elaize Farias.

LAURA CAPRIGLIONE / da Folha de S.Paulo – MARLENE BERGAMO /repórter fotográfica da Folha

A menina 23225 — é assim que ela está registrada nos prontuários médicos– foi internada aos 11 anos no Hospital Psiquiátrico Pinel. “Inteligente, agressiva, indisciplinada, sem respeito, fria e calculista”, escreveram dela os que a levaram à instituição-símbolo da doença mental de São Paulo.

Psiquiatras, enfermeiros e psicólogos do Pinel logo viram que o caso de 23225 dispensava internação. Deram-lhe alta. Mas, como a garotinha não tem quem a queira por perto, já são mais de 1.500 dias, ou 4 anos e três meses esquecida dentro da instituição de tipo manicomial.

A menina não é psicótica ou esquizóide; não é do tipo que ouve vozes ou vê o que não existe. Uma médica do hospital resumiu assim o problema: “O mal dela é abandono”.

Em termos técnicos, 23225 foi catalogada no Código Internacional de Doenças como sendo F91, que designa transtorno de conduta –desde agressividade até atitudes desafiantes e de oposição.

Miudinha, cabelos cacheados, 23225 tinha apenas quatro anos quando a avó colocou-a em um abrigo para crianças de famílias desestruturadas. O ciúme, diz a mulher, vai acabar com ela. Era só 23225 ver outra criança recebendo carinho e armava uma cena. Jogava-se no chão, chorava. Virou “difícil”.

BUQUÊ NO CHÃO

Até os sete anos, a menina não conhecia a mãe, que cumpria pena por roubo e tráfico de drogas. A mulher é usuária de crack. Reincidente, enfrenta agora outra temporada de sete anos atrás das grades.

O primeiro encontro das duas foi um desastre. Uma saía da Penitenciária Feminina, a outra a esperava, vestidinho branco, e um buquê de flores para entregar. A mulher xingou a filha e o buquê ficou no chão.

No dia 8 de novembro de 2005, o abrigo conseguiu que um juiz internasse 23225 na Clínica de Infância e Adolescência do Pinel, voltada para quadros psiquiátricos agudos. Os atendimentos duram no máximo 18 dias e o paciente é logo reenviado para seu convívio normal. Se cada 18 dias contassem como uma internação, a menina 23225 já teria sido internada 86 vezes.

DEITADA NA RUA

“Essa internação contraria toda e qualquer política atual de saúde mental, além de provocar danos irreversíveis, já que [a menina] vivencia cotidianamente a realidade de uma enfermaria psiquiátrica para casos agudos e é privada de viver em sociedade e de frequentar a escola”, relatou o diretor do Pinel, psiquiatra Eduardo Augusto Guidolin, em 8 de março de 2007.

À Folha, a avó da menina, evangélica da igreja Deus é Amor, disse que acaba de conseguir um emprego com carteira assinada –serviços gerais, R$ 480 por mês. “Não vou pôr a perder por causa dela”.

Certa vez, em fuga do Pinel, 23225 deitou-se no meio da rua em que mora a avó –queria morrer atropelada: “Eu tinha acabado de dizer que aqui ela não podia ficar”.

O diretor do Pinel pediu a todos os santos dos abrigos: à Associação Aliança de Misericórdia, Parque Taipas, à Associação Lar São Francisco na Providência de Deus, ao Instituto de Amparo à Criança Asas Brancas, de Taboão da Serra, ao Abrigo Irmãos Genésio Dalmônico, ao Abrigo Bete Saider, em Pirituba, à Associação Santa Terezinha, ao Abrigo Amen-4, entre outros, que arrumassem uma vaga para 23225 viver. A menina moraria no abrigo, poderia frequentar uma escola, e receberia atendimento psiquiátrico ambulatorial em um Centro de Atendimento Psicossocial mantido pela Secretaria Municipal de Saúde.

Não deu certo. Ou os abrigos alegavam não ter vagas, ou diziam não ter vagas para alguém com o “histórico Pinel”. Em duas oportunidades, dois abrigos concordaram em acolher a menina. Ela quis voltar para o hospital. Outras tentativas precisariam ser feitas.

PROTESTOS

O médico Guilherme Spadini dos Santos, então coordenador do Napa (Núcleo de Atenção Psiquiátrica ao Adolescente), do Pinel, escreveu ainda em 2005, em um relatório: “O isolamento social é extremamente prejudicial aos quadros de transtorno de conduta. O hospital psiquiátrico não é local para tratamento de longa duração. A paciente precisa ser encaminhada para serviço ambulatorial especializado para continuar seu tratamento e para que se promova sua reinserção na sociedade”.

Em 18 de dezembro de 2006, o diretor do Pinel informava que a menina já se encontrava em alta médica havia vários meses, permanecendo na instituição por ordem judicial. “Essa situação permanece porque a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social não consegue nos indicar um abrigo para onde se possa encaminhá-la. [A menina] está sendo privada de uma vida social e educacional a que tem direito, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente.”

Em 10 de novembro de 2009, Guidolin endereçou ao procurador regional dos direitos do cidadão do Ministério Público Federal, um ofício em que manifesta “indignação desta equipe técnica que por diversas vezes acionou o Judiciário solicitando a desinternação desses adolescentes que na ocasião precisavam apenas de um abrigo para moradia e dar continuidade a seu atendimento médico ambulatorial. Cabe à Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social definir o local de abrigamento.”

OUTRAS CRIANÇAS

No mesmo texto, o diretor dizia haver outras crianças “nessa mesma situação”.

Em 6 de agosto de 2008, o Pinel enviou ao Judiciário pedido de desinternação de 23225, e de dois outros adolescentes: L. (internado por ordem judicial em 3/2/2005, alta no mesmo ano) e A.C. (internada em 17/ 8/2007, em alta desde 12/11/ 2007).

Segundo funcionários do Pinel, até a última sexta-feira, apenas a adolescente 23255 seguia internada. Agora, a secretaria diz ter encontrado uma vaga para a menina.

Os nomes de 23255 e seus parentes foram suprimidos dessa reportagem, assim como quaisquer referências que permitam identificá-la, em atenção ao que estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Outro lado

“Faltam equipamentos do Estado para acolher e fazer o tratamento de pessoas com comprometimento psíquico”, disse o Reinaldo Cintra Torres de Carvalho, juiz da Vara da Infância e da Juventude do Foro da Lapa, que cuida do caso da menina 23225. De acordo com o juiz, ela não tem condições de permanecer em abrigo com outras crianças, sem acompanhamento especial de um cuidador constante. “Quando está em crise violenta, não há como contê-la”, disse.

“Já tentamos dois abrigos e o resultado foi muito ruim. Ela quebrou coisas, machucou a si e a outras pessoas. Por isso, foi mandada de volta para o Pinel, onde recebe tratamento segundo as possibilidades do Estado. Nas atuais circunstâncias, o Pinel é o melhor lugar para ela.”

Sobre a negativa dos abrigos em receber a menina, o juiz afirmou: “Ninguém a aceita pelo histórico dela”.

Ele concorda que toda a situação configura um desrespeito em relação ao Estatuto da Criança e Adolescente, “mas enquanto não houver os equipamentos ou outro lugar, ela tem de permanecer lá. Eu sou inerte. Não posso tomar a frente, tenho que esperar que algum órgão tome a iniciativa”.

Secretaria da Saúde

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde, à qual o Pinel está subordinado, disse que “obedece decisão do Poder Judiciário para manter a paciente em sua enfermaria de agudos”.

A secretaria e o hospital afirmam que o local indicado pela Justiça não é adequado, uma vez que o transtorno de conduta da paciente não justifica, sob o ponto de vista clínico, uma internação psiquiátrica.

“Tanto que o hospital vem trabalhando no sentido de procurar alternativas de moradia e tratamento da paciente em outros locais, como abrigos e Caps [Centros de Atenção Psicossocial].”

Prefeitura

A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social disse por intermédio de sua assessoria de imprensa que a menina 23225, até 2005, estava acolhida em um abrigo. Manifestava “comportamento por vezes agressivo”. “Seu atendimento passou a ser isolado, em uma edícula, acompanhada de uma mãe social.”

Segundo a assessoria, a secretaria vem buscando desde 2009 atuar “com o Hospital Pinel, a Vara da Infância da Lapa e o Centro de Atenção Psicossocial Infantil”, em busca de “um atendimento integral à adolescente”. “A secretaria e o abrigo R. conseguiram abrir uma vaga para a menina e já se iniciou o processo de transferência do Hospital Pinel para um abrigo.”

Lá como cá

Para despertar o espírito corporativo interno, a matéria diz que minhas notas no caso Eletronet tentaram desqualificar jornalistas. Ora, é fato inédito o jornal se levantando em defesa de seus jornalistas. Nesta mesma semana, Otavinho conferiu a terceiro o direito de fuzilar dois jornalistas seus em plenas páginas do jornal, tratando-os como “delinquentes”. Todo jornalista da Folha sabe que, a qualquer momento, poderá ser o alvo da deslealdade de seu chefe, que age assim mesmo. Quando percebeu que nem os jornalistas suportavam mais o amordaçamento total a que foram submetidos e começavam a pipocar aqui e ali matérias fora desse padrão suicida de manipulação, convocou Demétrio Magnolli para executar exemplarmente dois deles em praça pública: através da página 3 do jornal, em um artigo que os tratava como “delinquentes”. A intenção foi, liquidando covardemente com dois deles (em um tema, cotas raciais, que não tem nenhuma relação com a guerra política empreendida pelo jornal), enquadrar os demais.

Pesquei esse trecho de um post do Luis Nassif, sobre o jeito Folha de fazer jornalismo, porque me identifiquei com ele. Em 11 de julho de 2006, no extinto O Estado do Amazonas, eu escrevi um artigo intitulado “O mundo cão da ALE“, e nele eu citava o deputado Nelson Azedo. Dias depois, no dia 19, fui surpreendido ao ler o jornal e não encontrar o artigo que escrevera para aquele dia. No lugar do meu texto havia outro, intitulado “Estado de Direito”, assinado pelo deputado Nelson Azedo, em que o parlamentar me chamava de “dublê de juiz”, “dublê de parlamentar”, “hipócrita” e “cidadão” (assim, com as aspas).

Não culpo o deputado Nelson Azedo. Ele é o que é. O problema é ser jogado aos leões pelo veículo que representamos.

Não deve ser à toa que eu continuo escrevendo e o jornal fechou.

Se eu fosse jornalista, pensaria duas vezes antes de dar um ultimato ao meu chefe: “Ou eu ou o político!”

http://omalfazejo.blogspot.com/2006/07/o-mundo-co-da-ale.html

Arrogância

Tenório Telles

Os fracos e ignorantes dissimulam a própria fragilidade e ausência de esclarecimento pelo uso da presunção e da arrogância. Quando não, extrapolam do poder de que estão investidos para impor suas vontades e interesses. A empáfia e a grosseria tornaram-se tão comuns que são encaradas socialmente como sinais de força e autoridade. Esse tipo de conduta contaminou as relações entre os indivíduos. Neste tempo de inversão de valores, civilidade e tolerância são virtudes banidas do convívio social.

Incomodou-me uma cena que testemunhei esses dias: num encontro com algumas autoridades e convidados, em meio ao diálogo surgiu uma divergência de ponto de vista entre o representante de um órgão público e seu superior. Para surpresa dos presentes, o funcionário foi desautorizado publicamente e instado a se calar. Nervoso e constrangido pediu desculpas a seu chefe. O mal-estar era evidente. Humilhado, retratou-se, quando deveria ter sido o contrário. Assistimos diariamente a exemplos como este de incivilidade e falta de cortesia e respeito pelo outro. O pior é que as pessoas que, normalmente, agem assim não são nenhum exemplo de correção.

Pus-me a refletir sobre o porquê de pessoas agirem dessa maneira: se seria ausência de formação, de valores morais, autodefesa! A explicação mais convincente, encontrei nos argumentos do escritor Eder Siegel: “A arrogância sempre é o véu que está na iminência de ser despido para efetivamente mostrar a ignorância tal como é: nua, crua e feia de doer”. De fato, atitudes assim são sintomáticas desse mal que assola o nosso tempo: soberba, grosseria e o uso da força como solução para as divergências e conflitos. O pior de tudo isso é que a arrogância é apenas um dos passos do caminho que leva à violência, à brutalidade e à destruição dos outros. As palavras do sábio romano Plínio, o velho, são mais que esclarecedoras: “Pasma ver até onde pode chegar a arrogância do coração humano estimulada pelo menor êxito”.

Acredito ser a arrogância uma das conseqüências da falta de sabedoria. Um espírito esclarecido e nobre é incapaz de fazer uso desses expedientes para convencer ou dissuadir os outros dos seus argumentos. Até porque tem consciência das suas fragilidades e de seus limites. Os seres humanos elevados usam a força da argumentação e do convencimento para fazer valer suas idéias e princípios. Em nossos dias, raros são os líderes políticos que agem com serenidade e sabedoria. Tampouco com honestidade. Aliás, a arrogância é o instrumento que usam para intimidar e, assim, acobertarem seus atos e aquilo que realmente são.

A soberba é uma doença. Causa sofrimento a quem é atingido pelo seu veneno. As conseqüências, entretanto, desse mal atingem principalmente o seu portador. O arrogante é a maior vítima da arrogância: torna-se indiferente à dor que causa e, por acreditar está certo, não reflete sobre seus atos. Pelo contrário, compraz-se com a sua dureza. O arrogante torna-se um ser enfermo, descontrolado e megalomaníaco. Por se achar superior e melhor que os outros, acredita que todos devem aceitar suas grosserias. O destino desse tipo humano é a solidão e a loucura. É preciso ter cuidado com ele, pois impõe-se destruindo a autoestima alheia. O poder que detém é aparente, esgota-se na força momentânea que possui e não na sua autoridade. Como ensina a sabedoria judaica: “A arrogância é o reino – sem a coroa”.

 

Não pude pedir permissão ao professor Tenório para publicar o texto, enviado por um amigo. Mas o texto vale a pena.

O humanista que negou a história aos cidadãos

Tarcisio Serpa Normando


Tornei-me humanista através das leituras, nas longas viagens pelos rios do Amazonas, dos livros de Arthur Cezar Ferreira Reis, Leandro Tocantins e Agnello Bittencourt.

A declaração não é minha. É do Sr. Amazonino Armando Mendes, publicada em 1989, na reedição do livro História do Amazonas (Arthur Reis). Ela é muito feliz porque reconhece o valor dos autores regionais na produção de saberes sobre a problemática amazônica, especialmente seus processos de formação histórica. Uma pena que as últimas medidas adotadas pela SEMED renegam essa centralidade.

Sob pretexto de modernizar a educação e melhorar a nota do IDEB, foi extirpada dos currículos das escolas municipais, a disciplina Fundamentos de História do Amazonas, responsável pela introdução de muitas das questões levantadas por esses pensadores e, principalmente, por discutir cidadania. Como historiador e professor, gostaria de advertir o leitor de como essa mudança, aparentemente simples, pode comprometer as gerações futuras de estudantes manauaras.

A partir do momento que foram firmados convênios entre Estado e municípios com a UFAM e UEA para oferecimento de turmas especiais de graduação, oportunizou-se que centenas de professores melhorassem suas condições de ensino através do estudo dos fundamentos teóricos e metodológicos da disciplina História. Muitos tomaram contato com os processos que ajudaram a fazer do Amazonas o que ele é hoje. Perceberam que há muito que pesquisar sobre a região e que poderiam contribuir na tarefa árdua de reflexão sobre a História amazonense.

Em conseqüência, acredito que a formação inicial inflamou os novos historiadores a ampliar seus horizontes e desbravar temas, objetos e abordagens que ainda não tinham sido devidamente mapeados. Em alguns casos, as inquietações renderam dissertações e teses. Em muitos outros, colaboraram para fazer das aulas momentos colaborativos de construção de conhecimento histórico sobre a globalização, as comunidades quilombolas sobreviventes no norte do país ou a situação do transporte público em Manaus, por exemplo.

É um processo que levará ao fim o ensino decoreba que torna a escola um lugar chato e sem significado afetivo para o estudante. Assim, o estudo da História do Amazonas conquista o aluno, fazendo-o perceber que a violência que assola seu bairro ou a falta de emprego que atinge sua família foram frutos de idéias e ações tomadas por indivíduos num determinado momento no passado e que, portanto, podem ser transformadas, cabendo-lhe um papel protagonista.

Por isso é um engano pensar que focar o ensino apenas nas disciplinas de língua portuguesa e matemática trará desempenho de qualidade no IDEB. Elas são importantes, evidentemente, mas precisam das demais para, juntas, ajudarem os jovens a ler o mundo na sua complexidade. Não se pode abrir mão de professores interessados em fazer da sala de aula um lugar estimulante por conta de uma corrida alucinada por notas. Discutir os Fundamentos da História do Amazonas é possibilitar que o aluno entenda suas raízes sociais e culturais e perceba que, individual e coletivamente, é ele quem escreve a História de sua vida e de seu mundo. Entender isso é, num certo sentido, levar a cabo as lições de humanistas como Reis, Bittencourt e Tocantins. Negar, caro leitor, é impedir que as futuras gerações tornem-se plenos cidadãos.

Um historiador chamado Peter Burke escreveu que a função da História e lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer. Nesse sentido, a sobrevivência da História do Amazonas nos currículos das escolas municipais lembraria que a formação humanista ainda não perdeu sua validade, a despeito do que possa pensar os Sr. Secretário de Educação e, principalmente, o Sr. Prefeito de Manaus que parece querer negar aos jovens alunos municipais a oportunidade que ele teve de conhecer nossa História.

Tarcísio Serpa Normando é professor de História e Doutorando em Sociedade e Cultura na Amazônia.

“Meu Bloco na Rua”, o novo livro do Mário Adolfo

A saga vitoriosa do bloco Andanças de Ciganos contada em 300 páginas, será lançada na quadra da escola de samba

mario_livro_001No período de 1976 a 1980, o bloco carnavalesco Andanças de Ciganos conquistou o título inédito de Pentacampeão do carnaval de Rua do Amazonas, de forma consecutiva. Em 81, 82 e 83 foi vice, até se transformar em Escola de Samba por sugestão da Empresa Amazonense de Turismo.

Essa história, marcada por acontecimentos pitorescos e fatos que mudariam os rumos do carnaval amazonense, está sendo contada no livro Meu Bloco na Rua de autoria do jornalista e cartunista Mário Adolfo, um de seus fundadores.

O livro, que tem prefácio do escritor Simão Pessoa, será lançado dia 05, às 20h na quadra do G.R.E.S Andanças de Ciganos (Rua Borba, 1303).

Em 300 páginas, Mário desenvolve uma narrativa traçando um paralelo entre a trajetória do bloco criado por um grupo de universitários, em 1976, e a própria história do bairro da Cachoeirinha, seus personagens, logradouros e prédios históricos, como o Palácio Rodoviário, o famoso Cine Ypiranga e o grupo escolar Carvalho Leal, onde o jornalista estudou na infância.

Meu Bloco na Rua também revela a forma ousada como o Andanças de Ciganos mudou a história do carnaval de rua amazonense, que na década de 70 ainda era um movimento de “mascarados” de porre atirando talco e lança-perfume uns nos outros.

Para mudar essa postura, Mário Adolfo, Simone Pessoa, Sérgio Mubarac, Rui Assunção, Antídio Weil, Simão Pessoa, Wilson Fernandes, Sici Pirangy e outros fundadores colocaram na rua um bloco recheado de universitários, belas garotas, crianças em companhia dos pais, fantasias de fino acabamento e enredos politicamente corretos, como “Grito da Selva”, contra a venda da Floresta Amazônica; “Demarcação” – Em Defesa das Terras Indígenas”; O Mundo Encanto de Charlie Chaplin, que homenageou o comediante no ano de sua morte; Saravá Poeta, em memória do poeta Vinícius de Moraes; e “Amado Jorge Amado”, homenageando os 50 do Livro O País do Carnaval, do escritor baiano.

― Esse enredo valeu uma carta de Jorge Amado endereçada a mim, que até hoje está num quadro, no meu ateliê de desenho – conta o autor do livro. Na ocasião do enredo, Mário escreveu uma carta convidando Jorge a vir desfilar nos Ciganos e ainda anexou uma fiota cassete com a gravação do samba que compôs em parceria com Armando e Felisberto Felica. Acontece que o escritor e a mulher, escritora Zélia Gatai estavam de viagem marcada para os Estados Unidos, o que impossibilitou a vinda a Manaus. Simpático, Jorge resolver escrever assim mesmo, agradecendo a homenagem e pedindo fotografias e matérias jornalísticas do desfile.

De acordo com o jornalista, o lançamento na quadra cigana vai reunir literatura, samba, cerveja e confraternização entre amigos de mais de 30 anos uma apresentação história de puxadores cantando os sambas do passado, seis deles escritos pelo próprio Mário Adolfo. “Uma livro resgata uma época de ouro do bairro da Cachoeirinha, um lugar bom de se morar. Onde a boemia no Top Bar do seu Aristides e no Bar-Raka, do Wilson Fernandes, mas parecia uma reunião familiar”, comenta o autor.

Mário Adolfo é formado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), está no jornalismo há 33 anos, onde já exerceu cargos de repórter especial, editor assistente, diretor executivo e diretor de redação. Ganhou dois Prêmios Esso de Jornalismo, em 1985 (A Crítica) e em 1997 (Em Tempo), e o Prêmio Caixa Econômica de 1995 (Em Tempo), além do Ecologia 2000. O jornalista também é o criador do personagem Curumim, o último herói da Amazônia.

CBN Manaus – Umas verdades incovenientes

Durante toda a semana passada, a cidade de Manaus assistiu a um dos mais agressivos ataques, por parte de um veículo de imprensa, à honra de uma pessoa comum, sem a possibilidade de defesa, sem o direito ao contraditório, sem a obediência aos princípios mais elementares do mais amador dos jornalismos. A rádio CBN de Manaus, afiliada do Sistema Globo, abriu campanha raivosa contra a médica Bianca Abinader, servidora concursada da Prefeitura de Manaus que dá expediente diário, há quase 3 anos, numa das unidades do programa Médico da Família.

Um repórter da rádio estacionou o carro da emissora a dois quarteirões do posto de saúde, aguardou que a médica deixasse o local, e invadiu a “casinha” (como são conhecidas as unidades do programa), perguntando “É aqui que trabalha a Dra. Bianca Abinader?”. O relato fiel do que ocorreu está neste texto. No dia seguinte, durante o programa CBN Manaus, o único produzido localmente pela emissora, aproximadamente às 8h15, o âncora da rádio, Ronaldo Tiradentes, veiculou a matéria, acusando a médica de faltar frequentemente ao trabalho, não atender os pacientes do posto, utilizar indevidamente sites de internet e de literalmente “contaminar a classe médica”.

Foram cerca de 5 minutos de “reportagem” e todo o resto da semana, até a quinta (7), de comentários agressivos contra Bianca, sem que a acusada tivesse sido ouvida. Pelo contrário, na visita ao posto, a emissora fez todo o esforço para esconder a identidade de seu repórter e a sua própria identidade. Procurar a médica acusada não estava nos planos da emissora, nunca esteve. Estava claro, pra pouquíssimas pessoas (o público usuário de internet de Manaus) que a missão da rádio era destruir a honra da médica.

Mas mentira tem perna curta. Todas as acusações foram derrubadas por documentos oficiais apresentados pela médica, assinados por seus superiores. A rádio a acusava de faltar demais ao trabalho, não atender pacientes e de, veja só, interromper atendimentos para usar o Twitter. Bianca provou, com documentos assinados pela Prefeitura de Manaus, que não tem nenhuma falta injustificada, em 3 anos de trabalho.

Provou também que o ponto de partida da “reportagem”, sua saída do posto às 11h30 (meia hora antes do horário de almoço), era uma mentira. No horário em que o repórter descaracterizado da CBN interrogava funcionários da casinha, Bianca estava na presença de sua superior, apresentado relatórios de atendimento — portanto trabalhando.

Nenhuma das provas apresentadas pela médica em sua defesa foi exibida pela CBN. Arrancada de surpresa de sua vida diária e acusada publicamente de “contaminar” a classe médica local e de ser “gazeteira”, em nenhum momento a mortal Bianca foi procurada pela rádio, que todos os dias consegue entrevistar os dois homens mais importantes do Amazonas — institucionalmente falando, é bom dizer –, Eduardo Braga e seu vice, Omar Aziz, ambos em indisfarçada campanha eleitoral.

Ronaldo, que diz praticar jornalismo há 30 anos, ainda não aprendeu a profissão — eis aí um bom argumento para os defensores do diploma, afinal, Ronaldo nunca sentou num banco de faculdade de comunicação. Quando se produz uma reportagem tão grave, com acusações sobre a honra de alguém, procurar o acusado é obrigação do jornalista, e não o contrário.

Com Ronaldo parece ser o contrário:

  • Quando a esposa do deputado federal Sabino Castelo Branco, Vera Lúcia (ela própria deputada estadual) o acusou de espancamento em praça pública, a CBN Manaus conseguiu encontrar Sabino pra se defender. Vera Lúcia não foi procurada.
  • Quando o irmão de Omar Aziz invadiu a Universidade Federal do Amazonas e espancou um professor durante uma aula, a CBN Manaus abriu seus microfones para Omar se defender das acusações de pedofilia. Gilson Monteiro, o professor espancado em sala de aula, nunca foi procurado pela CBN.
  • Quando Carlos Souza, vice-prefeito de Manaus, foi acusado de pavimentar sua carreira política num programa de TV policialesco suspeitamente mantido com dinheiro público e do crime organizado, a CBN entrevistou Carlos Souza, e não os parentes das vítimas do programa Canal Livre.
  • Quando a Polícia Federal desbaratou uma quadrilha que roubou cerca de R$ 70 milhões em licitações no município de Coari, a CBN entrevistou, seguidas vezes, os acusados, que também respondem pelos crimes de pedofilia, homicídio, coação a testemunhas, formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva, entre outros.

Com tanto talento e disposição para encontrar políticos de prestígio enrolados em crimes cabeludos, qual foi a dificuldade da CBN, então, para ouvir Bianca Abinader antes de levar a reportagem ao ar? Aqui pergunto: Há alguma chance de uma rádio que manda repórteres ‘descaracterizados’, saindo de carros estacionados a duas quadras do local da reportagem, esperando de campana a personagem principal de sua matéria sair do local, estar procurando a versão dessa personagem?

Uma lição básica de jornalismo como ouvir os dois lados da notícia deve ser o que difere, por exemplo, um Ronaldo Tiradentes de um Marcos Losekann, correspondente internacional da TV Globo. Antes de publicar no Jornal Nacional a reportagem em que contou a história do deputado acusado de falsificar seu diploma de segundo grau, Losekann procurou o acusado do crime pela Polícia Federal: Ronaldo Tiradentes. Afinal, o acusado precisava ser ouvido. E o que Ronaldo disse a Losekann? Que o delegado da PF, responsável pela investigação que caçava várias outras pessoas, estava querendo se promover às suas custas.

Tuiteiro durante 18 horas

Dias antes do ataque a Bianca, ainda em dezembro de 2009, o jornalista Ronaldo Tiradentes criou seu próprio perfil na rede Twitter. Seguia os passos de boa parte da cidade, e chegava saudando a nova ‘ferramenta democrática’. No rádio, no ar, brincava com seu parceiro de programa, Marcos Santos, dizendo esperar sugestões dos ouvintes para o seu perfil. “RonaldoTiradentes” era muito longo, e o radialista queria mudar isso.

Não deu tempo. No dia seguinte, depois de menos de 10 mensagens publicadas, Ronaldo abandonou a rede. Dizia haver muitos imbecis no Twitter, e que o ambiente ali estava muito pesado. O que se viu nos dias seguintes foi uma enxurrada de piadas sobre o ocorrido, algo parecido com o que ocorreu com a apresentadora Xuxa Meneghel.

Mas o que teria feito o ambiente ficar tão pesado para um jornalista com 30 anos de experiência nas costas? É simples: Essencialmente falando, Ronaldo não é jornalista. Um jornalista lidá bem com a contradição, e para quem já o assistiu no vídeo da agressão à secretária, fica fácil perceber que Ronaldo não tem a isenção mínima requerida para o exercício da profissão, tampouco o temperamento esperado para um âncora de nada menos que a rádio CBN, reconhecida pela qualidade de sua programação e pelo profissionalismo de sua equipe.

Assim que Ronaldo chegou ao Twitter, um blogueiro da cidade lhe recepcionou com alguns tweets direcionados, fazendo-lhe perguntas que já fizera em seu blog, mas que nunca tinham sido respondidas. A primeira pergunta foi sobre uma suposta perseguição a outra usuária de internet em Manaus, Carolina Coelho, fisioterapeuta que trabalha numa multinacional instalada na cidade. A pergunta era simples: “É verdade que você pediu a uma multinacional para demitir a funcionária Carolina Coelho? Por quê?”

Parece roteiro de filme de suspense adolescente, mas é verdade: Ronaldo Tiradentes, em pessoa, mandou carta — com o timbre e a marca da rede CBN — à diretoria da empresa onde Carolina trabalha, denunciando a moça por, anotem aí, “utilizar equipamentos da empresa para insultar a REDE DE RÁDIO E TELEVISÃO TIRADENTES LTDA.” E quais foram os insultos da moça à empresa? Está tudo registrado, ela se ocupou de cobrar as respostas do jornalista às perguntas feitas pelo blogueiro.

O próprio blogueiro, Ismael Benigno Neto, que assina nome e sobrenome, há 5 anos, no blog O Malfazejo, está sendo processado por Ronaldo Tiradentes por calúnia, injúria e difamação. Ronaldo, quem diria, utilizando equipamentos de sua empresa de rádio e tevê para fins pessoais, percorreu diversos fóruns da cidade de Manaus e protocolou o mesmo processo várias vezes, acusando Ismael de atacar a honra de sua família ao expor documentos oficiais (diários oficiais do Estado e do Município) que mostram empresas e parentes seus sendo beneficiados com cargos e contratos do poder público. É bom repetir, está tudo nos diários oficiais.

A 'ficha corrida' de Ismael Benigno, com 9 processos, todos de Ronaldo Tiradentes

Um desses contratos, entre a Prefeitura de Coari e a empresa AMZ Produções, previa o pagamento de R$ 4,3 milhões pelo aluguel de trios elétricos para a Prefeitura da terra do gás natural e do petróleo amazonense. Em 2007, Coari foi sacudida pela Operação Vorax, da Polícia Federal, que desbaratou uma quadrilha liderada pelo prefeito, Adail Pinheiro, e seus secretários. A AMZ pertence a Robson Tiradentes, irmão de Ronaldo. A licitação que daria à AMZ os tais R$ 4,3 milhões, pelo aluguel de trios elétricos no período de 5 meses, foi denunciada por outro blogueiro de Manaus, o jornalista Raimundo Holanda.

Coincidência das coincidências, mesmo sem citar o nome do proprietário da AMZ, Raimundo Holanda denunciou Ronaldo Tiradentes à polícia por ameaça de morte, meses antes, quando o radialista soube que o blogueiro vinha ligando para funcionários da empresa de rádio, colhendo informações sobre seus negócios. Com o nome da empresa AMZ em mãos, o blogueiro Ismael Benigno deu uma ‘googlada’ e chegou ao seu proprietário, Robson. Foi expor isso em seu blog, e uma caçamba de processos lhe caiu sobre a cabeça.

Agosto de 2008: O blogueiro Raimundo Holanda denuncia Ronaldo por ameaça de morte

Como se não bastasse a angústia de ver seu nome virar ‘ficha suja’ da noite pro dia, indo de nenhum processo para quase uma dezena, Ismael ainda precisou conviver, dentro de casa, com o medo de ser agredido. É que dias antes de xerocopiar seu processo diversas vezes e protocolá-lo como se fossem vários, Ronaldo escreveu um ‘post’ em seu blog, intitulado “Minha resposta ao blogueiro salafrário“. No texto, publicado também sob a marca CBN, Ronaldo deixava claro o que pretendia:

Não vou falar o nome dele. É tudo que ele quer. Ele morre de vontade de ser citado aqui para sair do porão e do esgoto onde mora e de onde exala sua catinga em forma de palavras ofensivas à honra alheia. Está habituado a atacar as pessoas de bem. Ingressei hoje com 14 ações na Justiça contra esse verme. Sete (07) representações criminais e sete (07) ações por danos morais. Vou preparar pelo menos outras 20. Vou dar a ele um pouco de trabalho, para que ele saia do ócio (bem remunerado).

A carta inteira pode ser lida aqui, e nela o jornalista de 30 anos de estrada vai além:

(…) ele ataca tanta gente de bem que está morrendo de medo de levar uma boa surra (…) Salafrário, para que você fique morrendo de medo das pessoas de bem que você ataca, vou divulgar o seu endereço que está citado em todas as ações (que não estão em segredo de justiça) que ingressei na justiça contra você. O endereço é o seguinte: RUA 7, CASA 1, QUADRA 11, JARDIM DE VERSALHES – AJURICABA 2. É este o endereço que o oficial de justiça vai procurar o salafra. Aguarde.

Assinado: Ronaldo Tiradentes.

O endereço particular do blogueiro Ismael Benigno está exposto ao mundo inteiro desde o dia 28 de outubro de 2009, no site da CBN. Ismael mora com a esposa e um filho de 3 anos, e no dia seguinte precisou, com chave de fenda à mão, retirar da frente de sua casa a placa com o número do imóvel. 58 comentários foram publicados ao texto, invariavelmente atacando Ismael. Alguns, como o leitor “Policial militar”, dizem “Não sei quem é esse otário. JÁ To COM RAIVA DELE.” Eis alguns outros exemplos dos comentários direcionados ao blogueiro Ismael, publicados no site da CBN Manaus:

  • “pode ficar certo que esse rapaz que ataca os Poderes contituídos com seus comentários fantasmas não ficará sem a reprimenda.” – “Promotor de Justitia”, 28 de outubro, 20h50.

  • “Diga o nome desse ser desprezível. Quero saber quem é para dar uns bons (editado) na cara dele”. – “Leitor do Além”, 29 de outubro, 8h51.

  • “Não sei quem é esse otário. JÁ To COM RAIVA DELE.” – “Policial Militar”, 29 de outubro, 15h57.

  • “Dá-lhe peia, nesse arretado !!”.- “Justiça”, 29 de outubro, 15h54.

  • “Bote quente nesse (editado) Soube que ele gosta muito é de (editado)”. – “Roger”, 29 de outubro, 20h38.

  • “MANDA ESSE (editado) PRO INFERNO”. – “Marcelo Tayah”, 30 de outubro, 2h38.

  • “meta nele, sem dó Ronaldo. Ele é um desocupado, dê trabalho prá responder as ações e cadeia , prá ele dormir com Adail e Walace. Ele será a CARNE NOVA do xadrez. vai virar noiva no xilindró.” – ‘Príncipe das Trevas”, 30 de outubro, 10h14.

  • “Eu bem que avisei pra ele que vinha chumbo grosso” – “Mosca”, 30 de outubro, 13h40.

  • “BOTE QUENTE NESSE (editado)! ELE VAI VIRAR A NOIVA DO IPAT” – “Eu”, 30 de outubro, 18h56.

  • “Já tem leitor deste blog (…) que deseja aplicar uma boa surra no blogueiro.” – “João Filho”, 1 de novembro, 15h41.

  • “(…) VAI SUMIR DO MAPA” - “De longe”, 1 de novembro, 6h15.

No que em Manaus parece ser extrema ousadia de um provável suicida, Ismael assina seu blog, e durante os últimos anos tem escrito sobre os escândalos de corrupção e as malandragens dos políticos locais. Ciente de que fala para milhares de leitores e ouvintes, gente de todo tipo, Ronaldo vem expondo há 58 dias a família do blogueiro. Nem os apelos do próprio Ismael, pedindo a retirada de sua família da situação, foram suficientes para que Ronaldo desfizesse a agressão, que segue até hoje, 13 de janeiro.

Agressões e ameaças

No último dia 2 de dezembro, ainda em seu blog, Ismael Benigno expôs mais uma presepada de Ronaldo Tiradentes, a cara da Rádio CBN em Manaus. Após um cruzamento simples de dados de seus leitores, provou que um leitor chamado “OFICIAL DE JUSTIÇA”, que vinha lhe ameaçando diariamente, era o próprio Ronaldo. O radialista usava o próprio computador, um equipamento da empresa CBN Manaus, para intimidar o blogueiro. Abaixo, alguns dos comentários partidos do computador pessoal de Ronaldo Tiradentes, todos protegidos pelo anonimato:

  • “Patife, Você aprenderá agora a brincar com a honra alheia. Te prepara. O jogo está apenas começando. Até breve.” – “RT” – 14/Out – 22h20.

  • “Ô bobalhão, cadê a decisão que você menciona. Publique-a. Mentira pega mesmo. Passa através do saco. Essa decisão é tão verdadeira quanto aqueles reservatórios de agua e 38 km de tubulação que seu sogro inventou. Contrate um advogado melhor e espere as próximas 48 horas. Você vai precisar de bons advogados e tempo suficiente para se defender. Até lá vista!” – “RT” – 25/Out – 9h17

  • “E ai boquirroto, Tens diploma de curso superior, serás o verdadeiro colega do Adail, do Wallace e do Rafael. Terás muito tempo para ficar contando IPs, fazendo cruzamento de IPs. Já contabilizei 65 ações. Já tenho 14 intimações, virão mais 3 por semana. O jornal EM TEMPO DE ELEIÇÕES também está preparando uma tonelada. A rádio de Iranduba, aquela que se vende, também tá vindo ai com 23 ações. Acabou seu sossego. Prepare-se para as audiências diárias. Contrate a boa equipe de São Paulo. Quero ver você faltar uma audiência, vou lhe buscar debaixo de vara com o camburão. Se vc me encher mais o saco, vou arruamr advogado de graça prá todo mundo que você atacou. Serão 300 ações até o fim do ano. Durma em em paz, aliás, vá contar os IPs, aproveite para contar os anos de cadeia que você vai ter, seu FILHO DUMA PUTA. Se não publicar, já sei aonde vou publicar. A brincadeira só está começando” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 29/Out – 22h48

  • “QUE FIQUE REGISTRADO” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 29/Out – 22h58

  • “ESQUECI DE TE AVISAR: AS DEMAIS AÇÕES NÃO APARECERAM NO SITE DO TRIBUNAL PORQUE ELAS ESTÃO SENDO DIGITALIZADAS. DEMORA UM POUCO. FALTA GENTE SUFICIENTE PARA ESCANEAR TANTOS PROCESSOS. AGORA SIM. VÁ DURMAR, QUER DIZER, VÁ CONTAR IPs E FAZER POSTS COM CODINOMES. CHAME A CAROLINA E O ROMMEL, TÁ?” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 29/Out – 23h03

  • “VAGABUNDO, VC FICA VISITANDO O BLOG ALHEIO E NÃO SE ASSUME. ESCREVA AQUI, SEJA MACHO. ONTEM TEVE FESTA NO JUDICIÁRIO. CHEGOU A VEZ DA CAÇA!!!! KKKKKKKKKKKKKKK SEGURA PEAO… ESTOU CRUZANDO IPs. VOCÊ É O CAMPEÃO DE ACESSOS NO BLOG DO TEU ÍDOLO. O ADAIL E O WALLACE ESTÃO TE ESPERANDO PARA COMER UMA CALDERADA DE TAMBAQUI. BREVE” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 31/Out – 12h43

  • “TEVE FESTA NO JUDICIÁRIO. AGORA É A VEZ DA CAÇA. ISMAEL ESTÁ CONVIDADO PARA COMER UMA CALDERADA DE TAMBAQUI COM ADAIL E WALLACE. VAI VIRAR A NOIVA DO PEDAÇO. HUUUMMMMM QUE DELÍCIA. ESTAMOS TODOS ATRASADOS…….. QUER DIZER, ESTÁVAMOS….. CADÊ A SOLIDARIEDADE DO GECA, MR, ROGER WATERS, CAROLINA LEBRE, E OUTROS ISMAELS………..VAI TER FESTA NO IPAT//……….” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 31/Out – 12h50

  • “VAI TER FESTA NO IPAT. HEI …HEIIII HEII…..ISAMEL É O NOSSO REI, DIGO, RAINHA…. VAI COMER UMA CALDEIRADA COM ADAIL E WALLACE. VAI CONHECER O MANICÃO. VAI VIRAR NOIVA. TRAS A CAROLINA, A MOCRÉIA.” - “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 31/Out – 12h53

  • “A Carolina já tomou banho hoje?? Dizem que ela fede prá dedel. Gorda, suada tem mau hálito e ainda tem uma vasta cabeleira debaixo do suvaco. Ai que nojo!!! Carol, passe uma gillete nessa suvaqueira fedorenta.” – “OFICIAL DE JUSTIÇA” – 2/Nov – 20h52

Deve ser aborrecido para os leitores desse blog, acostumado a temas mais elevados e de interesse nacional, ler o relato do que ocorre no distante Amazonas. Mas há um componente que merece ser levado em consideração: não estamos falando de uma rádio pirata, e sim da CBN. Não estamos falando de uma briga de vizinhos de condomínio, e sim da escancarada perseguição da CBN Manaus a pessoas que questionam seus métodos jornalísticos e, noutra dessas coincidências absurdas, entraram no rol de mais de 500 manauaras que se opuseram publicamente à taxa do lixo, recriada pela Prefeitura de Manaus e aprovada pelos vereadores no apagar das luzes de 2009, sem discussões, audiências ou campanhas de informação à sociedade.

A fisioterapeuta Carolina Coelho, o administrador e blogueiro Ismael Benigo e a médica Bianca Abinader cometeram um erro em comum: se opuseram à cobrança da taxa de lixo e participaram de uma movimentação, nascida no Twitter, para expor os nomes dos vereadores que a aprovaram em outdoors da cidade. Um abaixo assinado eletrônico foi criado, e mais de 500 pessoas já o assinaram. Uma cota foi organizada via Twitter, e o dinheiro para os outdoors foi levantado. Agora a suprema coincidência: quem eram os coordenadores da campanha pelos outdoors?

Sim, Ismael Benigno, Carolina Coelho e Bianca Abinader.

As placas só não foram às ruas porque, na última hora, todas as empresas de outdoor procuradas negaram o serviço, alegando pressões políticas. Um projeto da Prefeitura deverá ser votado ainda neste começo de 2010, e caso aprovado, vai ferir de morte estas empresas, pois prevê a retirada de outdoors da cidade, algo parecido com a lei paulistana que previa a diminuição da poluição visual da cidade. Os vereadores que teriam seus nomes expostos nos outdoors são da base aliada de Amazonino Mendes, e são os mesmos que deverão aprovar a limpeza visual de Manaus.

Então o grupão dos 500 manauaras arrumou outro veículo para fazer seu protesto, e os outdoors viraram anúncios de jornal, veiculados na última sexta-feira (8). Novas ações estão sendo programadas pelo grupo. Bianca, naturalmente, retirou-se da ‘campanha’ pela divulgação dos votos do lixo. Mas outros se puseram à disposição para continuar a ação. Hoje o movimento “Manaus de Olho” já planeja ações de rua, campanhas de internet, recebe colaborações de qualquer pessoa interessada em ajudar e incomoda, e muito, os homens e mulheres públicos que não querem ver seus atos tornados públicos.

O que haveria, então, por trás dos ataques pessoais de Ronaldo Tiradentes a Carolina, Bianca e Ismael?

É difícil saber com exatidão. Ronaldo é conhecido na cidade pela truculência a agressividade com que lidá com opiniões divergentes. O vídeo exibido no blog de Luis Nassif não deixa margem para interpretações. Ao entrar no Twitter e sair horas depois, sem responder as perguntas dos ouvintes, Ronaldo teve seu orgulho ferido. Ao ver gente comum lhe pressionando para responder perguntas incômodas, Ronaldo achou-se atacado em sua honra.

Mas tudo isso é intangível, vago demais. Portanto vamos a dados mais concretos.

Desbancando os grandes

Planilhas internas da Secretaria Municipal de Comunicação da Prefeitura de Manaus, vazadas de dentro da administração, trazem os pagamentos feitos pela secretaria aos diversos órgãos de imprensa da cidade em 2009. São dados detalhados, que mostram que a CBN Manaus e a Tiradentes FM (outra rádio do grupo de Ronaldo) levaram, juntas, quase R$ 700 mil do orçamento da Prefeitura para a área de Comunicação.

Não é pouco para um relatório que registra pagamentos totais de R$ 8,5 milhões. Grosso modo, pode-se dizer que Ronaldo, sozinho, ficou com quase 10% da verba de comunicação da Prefeitura de Manaus em 2009. Do dinheiro dividido entre as 10 principais rádios da cidade, Ronaldo ficou com quase metade.

O quadro abaixo foi produzido a partir dos relatórios recebidos pelo blog, e mostra quanto cada um dos principais veículos de imprensa recebeu da SEMCOM em 2009. Estão listados as rádios, as emissoras de TV, os jornais impressos e os amigos do prefeito:

quadros semcom

Ronaldo Tiradentes poderia reeditar a alcunha do jogador gorducho de futebol, e ser chamado com justiça de “Ronaldo Fenômeno”. Em 2009, com sua infante CBN Manaus e sua musical Tiradentes FM, botou toda a mídia local pra trás, recebendo quase R$ 700 mil e comendo quase metade (46%) de tudo o que as rádios de Manaus levaram no ano. Nem mesmo as emissoras de TV foram páreo para as ondas do rádio de Ronaldo Fenômeno. Apenas a gigante e global TV Amazonas conseguiu impedir que o radialista fosse o homem mais bem pago pela Prefeitura na mídia manauara.

Mesmo amigos do peito do prefeito Amazonino Mendes, o publicitário Durango Duarte (da Perspectiva, empresa de pesquisas eleitorais) e Antônio Pizzonia, não receberam tanto dinheiro. Mas não podem reclamar, especialmente Durango, que durante os primeiros meses da gestão de Amazonino comandou até reuniões de secretariado sem ter qualquer vínculo formal com a Prefeitura. Durango dizia à imprensa, em 2009, que despachava na Prefeitura apenas por amizade, pra ajudar o prefeito.

A amizade desinteressada de Durango custou aos cofres da Prefeitura R$ 635 mil. Segundo os relatórios da SEMCOM, a Perspectiva recebeu, apenas pelo serviço “DIAGNÓSTICO 3 MESES”, R$ 84.500,00 — o resto foi tudo pesquisa, não se sabe de quê. Ou seja, o amigo de Amazonino parece ter recebido quase R$ 100 mil para ajudar o prefeito a denunciar a falência da Prefeitura, com diagnósticos sobre finanças, dívidas, propondo cortes na folha de pagamento, acusando a administração anterior de mentir sobre as contas etc. O resultado do tal “DIAGNÓSTICO 3 MESES” foi uma auditoria do TCE amazonense, solicitada pelo próprio Amazonino, que concluiu que todo o discurso do prefeito recém-empossado, amparado pelos números de Durango, eram uma mentira.

As prefeituras amigas e a AMZ Produções

No último dia de 2009, o Diário Oficial do Município trouxe mais boas notícias para Ronaldo e sua família. A AMZ Produções, a mesma que levou os R$ 4,3 milhões da Prefeitura de Coari pelo aluguel de trios elétricos durante cinco meses, venceu pregão 076/2009 da Prefeitura de Amazonino, e vai fornecer serviços de ’sonorização e iluminação’, que somados chegam a mais R$ 3,5 milhões.

É possível que a AMZ não tenha recebido os R$ 4 milhões de Coari, pois o prefeito Rodrigo Alves, amigo pessoal de Robson Tiradentes, foi cassado em 2009 por crime eleitoral. Rodrigo era o vice de Adail Pinheiro, o suposto chefe da quadrilha das licitações derrubada pela PF, e tornou-se prefeito após o segundo mandato de Adail. Por diversas vezes, ao longo de 2009, Rodrigo teve os microfones da CBN Manaus à sua disposição, exatamente para se defender da acusação de participar do esquema, que envolvia corrupção, assassinatos e pedofilia.

Foi também o blogueiro Ismael Benigno quem encontrou, lendo os diários oficiais do estado, a nomeação da filha de Ronaldo para um importante cargo no governo Eduardo Braga. Sanmya Tiradentes é dentista recém-formada, mas já responde pela Coordenação do Programa de Saúde Bucal do Amazonas, viajando pelos inóspitos municípios do interior por força de seu trabalho. Um dos processos criminais a que Ismael responde se deve à publicação de um diálogo entre Ronaldo e Haroldo Portela, secretário da Prefeitura de Coari, captado pela operação Vorax da PF. Na conversa, Ronaldo negocia a interrupção de suas críticas a Adail supostamente em troca de um emprego na Prefeitura de Coari. O emprego era para sua filha, Sanmya.

Sobre a publicação do diálogo, Ronaldo, em seu próprio blog, dedicou as seguintes palavras ao blogueiro Ismael:

Que bom que agora vc botou sua cara cínica e suja prá fora. Eu sabia que vc tava por trás das sacanagens. Inclusive aquelas do seu bloguinho de merda. Brinquei contigo até te puxar prá dentro. Vc mordeu minha isca. Vc é apenas um pequeno idiota. Não se meta comigo. Vc lembra do ditado. “Pimenta no cú do outro é refresco”. Família ????? Quem é vc prá falar de família. Vc não respeita a minha nem a de ninguém. Saiba que vc responderá na justiça por todas as ofensas gratuitas que fez à mim e à minha família. E vou sugerir que os outros façam o mesmo. Vou suspender temporariamente seu endereço, em homenagem ao seu filho, o qual não deveria respeitar, pois você não respeitou a minha filha, moleque! Vou te dar um tempo de 24 horas: Apague tudo que vc escreveu sobre minha filha e minha família e peça desculpa pública, senão virei aqui publicar as 18 ações que tenho contra vc. Em todas as ações constam seu endereço e do resto da família no Eldorado. Vamos, corra, o relógio está contando……

Outro dado curioso na súbita movimentação da CBN Manaus em torno da médica Bianca é que Sanmya, a filha de Ronaldo, parece não precisar da influência do pai para provar sua competência. Como não bastasse ganhar um cargo importante no governo de Eduardo Braga, a quem Ronaldo chamou de corrupto durante alguns meses e que hoje entrevista quase diariamente, Sanmya foi aprovada em concurso público da Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA). Caso Sanmya já tenha sido convocada para assumir seu posto de dentista na Suframa, cabe aos mais curiosos perguntar onde a moça dá expediente regularmente. Com dois cargos públicos em dois órgãos tão distintos, é de se imaginar se em algum lugar do Amazonas não há pacientes com dor de dente, sem atendimento.

Mas estamos falando da filha de Ronaldo Tiradentes, defensor da sofrida população de baixa renda da periferia de Manaus e inimigo mortal de servidores públicos que se ausentam do trabalho. Um jornalista destes, com essa veia comunitária, não deixaria que sua filha largasse um trabalho tão importante de lado.

O jornalista, a médica e o Twitter

Ronaldo saiu do Twitter porque não quis responder perguntas simples, daquelas feitas por jornalistas com 30 anos de experiência: Você conhece o dono da empresa AMZ? Você processou Marcos Losekann por ter publicado, no livro O Ronco da Pororoca, o diálogo em que você lhe deu a receita do seu sucesso? Você realmente enviou carta e depois ligou para a diretoria de uma multinacional, para pedir ‘ao menos uma prensa’ na fisioterapeuta Carolina Coelho?

Ronaldo não respondeu. Incomodado pelas perguntas, desferiu mensagens ameaçadoras contra o blogueiro Ismael Benigno, lhe chamando de ‘vagabundo’ e ‘imbecil’. Depois disso, deletou sua conta no Twitter e submergiu. Só voltou à tona dias depois, já atrás do microfone e do blog da CBN, protegido pelo isolamento acústico de seu estúdio, onde as perguntas não podiam lhe incomodar. Foi dali que partiu a ordem, na segunda-feira (4), para que o carro de reportagem da rádio CBN estacionasse a duas quadras do posto de saúde de Bianca Abinader. Dali em diante, e a médica passou a ser conhecida, na cidade inteira, pela má profissional que não é.

Ronaldo ainda tentou fazer colar a história de que a perseguição a Bianca era parte de uma série de reportagens sobre a saúde estadual. Não colou, entre outros motivos porque a audiência de sua rádio, alardeada como inteligente e formadora de opinião, realmente é assim. Ronaldo fez uma série de 2 (duas) reportagens, a de Bianca, em que a médica foi procurada pelo nome, e outra, em outro bairro, em que o repórter mal sabia o que fazer no ar. Depois da indignação de seus ouvintes, Ronaldo engavetou sua ’série de reportagens’.

Estava claro, a reportagem era apenas uma, com nome e sobrenome: Bianca Abinader, uma das três pessoas que, dias antes, organizavam um protesto contra um projeto da Prefeitura de Manaus. A mesma prefeitura que, em 2009, pagou quase R$ 1 milhão às rádios de Ronaldo Tiradentes. A mesma prefeitura que, no dia 30 de dezembro de 2009, deu à AMZ Produções um contrato de R$ 3,5 milhões.

As mães e filhos da Casinha de Saúde

Depois do ocorrido, Bianca, entrando no nono mês de gravidez, pediu licença médica de três dias. Precisou de atendimento médico, tomou calmantes para superar o abalo emocional, se afastou dos tweets bem humorados da internet. É possível que tenha pedido a antecipação de sua licença maternidade. Se isso ocorreu, é provável que a comunidade do Campo Dourado II, na humilde zona Norte de Manaus, finalmente esteja sem sua ‘médica da família’, depois de três anos.

Se a comunidade agora está sem médico, caberia a Ronaldo Tiradentes visitar a Prefeitura de Manaus e cobrar a substituição da médica que abateu publicamente, com a força de sua concessão pública de rádio. A CBN Manaus, com sua sanha por defender a saúde pública, voltou ao Campo Dourado pra saber se há outro médico atendendo a população? Ou a vontade de defender os mais humildes acabou com a derrubada da médica grávida?

Ficam também perguntas simples aos leitores do blog do Luis Nassif: que outro âncora, ou mesmo repórter da CBN, em todo o país, já esteve envolvido em tanta confusão quanto Ronaldo Tiradentes? Que outro jornalista da CBN carrega tantos processos nas costas? Que outro repórter da CBN tem ligações pessoais tão umbilicais com o poder público, a ponto de receber dinheiro tanto através de suas empresas em licitações, quanto através de verba pública de comunicação? Que outro jornalista da CBN é suspeito de ter ordenado um atentado a um jornalista em 1996, e foi acusado por outro de ameaça de morte em 2008?

Talvez já seja tarde para a direção da CBN perceber o que fez com sua marca no Amazonas. Quanto a todas as confusões e suspeitas em que está envolvido, ainda que tenham sido criadas por ele próprio, Ronaldo tem o direito que não deu a suas vítimas, o de se explicar e se defender. Se prefere ficar calado, e em vez disso utilizar a marca CBN para seus negócios pessoais, o problema é seu. E claro, da própria CBN.

Não à toa, em Manaus já há adesivos nos carros, com o slogan “CBN, a rádio que troca notícia”.