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Direito de resposta

Recebi, do radialista Jefferson Coronel, uma carta-resposta ao proprietário da rádio CBN Manaus, que no último sábado (22), o denunciou em seu blog, na página oficial da rádio. Coronel enviou a carta ao blog do referido senhor, que não a publicou. Jefferson então enviou sua carta a outros blogs que, talvez por não adotar o mesmo critério democrático da rede CBN, optaram por publicá-la. Este blog adotou como política, já há algum tempo, não se envolver com pessoas ou instituições incapazes de interagir oficialmente com seus consumidores. Em bom português: não falo mais de quem não assume oficialmente sua identidade, mas cumpro o dever democrático de publicar a carta. Convém informar: os posicionamentos expressos na carta não refletem, necessariamente, a opinião do autor deste blog.

Por Jefferson Coronel

Caro Ronaldo…

Esse seu “artigo” bem que não merecia resposta, tal o nível a que o amigo desceu. Mas essa de ameaçar descaradamente com estórias de amantes e prostitutas me parece ser o fim da linha no que poderia ainda ter algum tipo de debate. Não entre nisso. Você sabe que esse tipo de atitude é desprezível. Você representa em Manaus a bandeira CBN e, se depender de mim, não tem o direito de partir pra uma abordagem que desmoraliza e ridiculariza sua figura. Proteja esse patrimônio chamado CBN.

Pense que sempre lhe tratei com respeito e consideração. Quando critiquei, o fiz em termos íntegros, nunca pessoais. Não fiz insinuações contra o Omar (Omar Aziz, atual governador e candidato à “reeleição”). Se você acha que fiz, cite como e qual foi a insinuação. Agora, tenho liberdade sim pra me expressar, reclamar, criticar e debater. Você não tem? Tem e eu defendo que tenha a vida toda, plena, irrestrita. Só não pode é ficar nessa coisa de prostitutas e amantes. Isso é coisa que o dono de uma rádio bandeira CBN, advogado, jornalista, fique clamando e ameaçando?

Faça suas críticas ao Alfredo Nascimento (ex-ministro de Lula e candidato ao Governo do Amazonas). Tenha sua opinião. Diga o que quiser dele e de qualquer político. Opte pelo Omar nessa eleição. Tudo isso pode e vale numa democracia. Mas há leis, leis que você, como advogado, deve conhecer melhor que eu.

Tente se manter numa linha aceitável. Não fique querendo transformar em bandidos e perseguidos todos os que de alguma forma discordam do seu pensamento e das suas opções políticas, como é o caso da opção pelo Omar Aziz. Não tem mal nenhum nisso. E também não tem mal nenhum se outras pessoas optarem por B, C ou D nessas eleições. As eleições acabam em Outubro. Depois a vida continua, eu sustentando meus filhos, você sustentando os seus. E todo mundo trabalhando e sobrevivendo dignamente.

Temos, ambos, mais valores a defender que o clima tenso de uma eleição. Veja só, você não receberia em sua casa um cara que tivesse feito tudo o que me atribui. Não tomaríamos aqueles vinhos juntos se você soubesse que eu teria feito essas lambanças. Você teria, antes, denunciado, contado pra todo mundo. Sou amigo dos seus irmãos, trato sua família com o mesmo respeito que trato a minha. Conheço e me relaciono bem com seus filhos. E você com os meus.

Proponho defendermos esses valores juntos, preservarmos esses espaços pessoais que, confesso, foram até generosos de sua parte. Você não seria amigo de um cara que tivesse sido capaz de engendrar tudo o que, agora, só agora, por questões políticas, resolve colocar nas minhas costas.

E o faz de uma forma agressiva, infundada e, por si só, dúbia e sem argumentos. E aquele fraudulento contrato que você mostra? Uma arte tosca e mal acabada feita pra injustiçar pessoas. Aquilo é um tiro no pé de quem inventou, de tão mal feito. Tanto que foi desmontado tim-tim por tim-tim pelos que foram ali citados.

Eu não pretendia responder nada. Mas meu coração ficou aqui me cutucando e pedindo que tentasse e tentasse um caminho de paz, de tranquilidade e, muito muito, de amizade, de consideração.

Venha, pense, reflita e aceite, comigo essa proposta humilde e sincera. Insisto em continuar seu amigo. É mais que apelo, é um pedido do simples radialista Jefferson Coronel.

Ismael Benigno

Ismael_20Benigno-vereadorCopiado do excelente blog Baú Velho, de Carlos Zamith:

Neste dia 4 de maio completa 22 anos que Ismael Benigno nos deixou, o maior benfeitor do São Raimundo Esporte Clube ao qual dedicou grande parte de sua vida. Foi o construtor de todo o patrimônio da agremiação diminuído com o tempo por falta de cuidado e dedicação de seus sucessores.

Ismael Benigno – vereadorIsmael era um apaixonado pelo São Raimundo e pelo bairro. Sempre quis o melhor para ambos. Atendia a população carente em sua residência, em frente à Igreja, mesmo fora da política. Em 1956, levou o seu clube à primeira divisão da então Fada. Fazia questão de comemorar, com jogos interestaduais, qualquer melhoramento no estádio da Colina, hoje com o seu nome. Assim foi na inauguração da arquibancada, dos túneis, dos vestiários, do alambrado e quando promoveu um amistoso com o Nacional para a inauguração dos refletores.

Funcionário estadual aposentado, ao deixar a política, exerceu o cargo de diretor da Rádio Difusora do Amazonas de seu amigo Josué Cláudio de Souza. Ismael morreu no dia 4 de maio de 1978, em Manaus, vítima de um AVC. A notícia de sua morte consternou a toda comunidade sanraimundense. O bairro chorou a perda de seu mais querido filho. Em sua homenagem, em 1979, a Vereador Josefa Vasquez deu o nome de Praça “Ismael” ao logradouro em frente à igreja de São Raimundo Nonato.

Ismael Benigno nasceu a 2 de janeiro de 1912. Era filho de Ismael Benigno e Francisca de Aquino Benigno. Tornou-se político por imposição de amigos, concorrendo pela primeira vez, às eleições para a 2ª Legislatura da Câmara Municipal de Manaus, eleito para período de 1952 a 1956, pelo Partido Social Democrático e reeleito para a Legislatura seguinte de 1956 a 1960.

Era presidente da Câmara Municipal quando foi nomeado Prefeito pelo então governador Plínio Ramos Coelho a partir de julho de 1958, permanecendo no cargo, por quase um ano. Voltou a ser Vereador na 5ª Legislatura, pelo Partido Rural Trabalhista mas renunciou ao mandato por ter sido eleito Deputado Estadual nas eleições de 1966, quando foi atingido por ato da Revolução de março, com a cassação de seu mandato. Depois disso não quis saber mais de política, entregando a missão a outro filho do bairro, Raimundo Sena, que durante quinze anos consecutivos ocupou o cargo de Vereador e também, por dois anos, a presidência do legislativo Municipal.

Sobre o triunfo dos nerds!

michellepor Michelle Portela

Nas escolas católicas, padres acumulam a função de professor de religião e supervisores pedagógicos. Quando fazia o segundo grau, atual Ensino Médio, no Colégio Dom Bosco, fui surpreendida lendo “Morte: o grande momento da vida” e ouvi um sonoro: “quem é este herege?”, para, em seguida, ser encaminhada para a psicóloga.

Fiquei chocada! Disse para a senhora que me avaliou que não entendia como não podia ler mais uma grande obra de Neil Gaiman, escritor e quadrinista britânico que usava sua literatura de forte apelo poético para tratar de temas clássicos, fazendo uso de mídias tradicionalmente discriminadas e levando-as a alcançar status de best-seler em países do “primeiro mundo”. Deu certo, a ponto do fato não constar em meus registros.

De certa forma, conhecer Neil Gaiman foi determinante em minha vida. A admiração faz com que obra e autor façam parte do meu cotidiano, seja em referências literárias ou em experiências de vida. Acesso o blog journal.neilgaiman.com diariamente, tenho a coleção completa da graphic novel Sandman, obra que o elevou de escritor de história em quadrinhos à posição de autor, e dos livros publicados no Brasil, e minha fantasia favorita é Stardust, que narra a queda e a luta pela sobrevivência de uma estrela para falar de humanidade. Ele me apresentou um novo mundo, no meu próprio tempo. Falando sobre ele, me aproximo de qualquer pessoa no planeta. Para mim, ele abriu portas.

Mais sobre ele? Ao receber homenagem no Scream Movie Awards de 2007, subiu ao palco, de calça e jaqueta de couro e um perceptível óculos de grau, para dizer que aquele “era o triunfo dos nerds”. Em Paraty, na Flip, deixou a sala vip e foi passear com a filha pela cidade. Tirou, inclusive, foto abraçado ao “curupira”. Concretizando as expectativas manifestadas na internet, tanto por fãs quanto pelo próprio Gaiman em seu blog, ele ficou por seis horas consecutivas autografando livros e quadrinhos de leitores emocionados, que superaram mais de um dia de espera na fila, como expuseram membros de comunidades virtuais que freqüento. “Se antes o amava, agora o amo mais ainda” se tornou um novo tópico após o episódio. É o maior recordista de autógrafos da Flip.

A atitude chamou a atenção do escritor Tenório Teles, que esteve na Flip e hoje usou o exemplo “daquele autor” para falar do comprometimento que a categoria deve ter para com seus fãs, em reunião preparatória para o Festival Literário da Floresta (FliFloresta). “Esse rapaz deu um grande exemplo de humildade”, reconheceu Tenório.

A citação me fez retomar uma análise crescente. Não é nova a constatação, mas não custa lembrar. Há escritores muito simpáticos que escrevem mal. E há escritores antipáticos que escrevem bem. Agora, nada como encontrar escritores simpáticos e competentes no que fazem. Podiam ser antipáticos se quisessem. Porém, são simpatias pessoais que garantem a priori simpatias literárias. Vide Tenório, que sequer sabia o nome do cara.

Nesse caso, transfiro o julgamento do mérito literário aos leitores, mas garanto que é sempre mais agradável conversar com um autor simpático, aquele que talvez nem se atribui importância indevida, do que com coroas que se tem em alta conta e enfiaram a modéstia no canto da bolsa de marca.

Cees Nooteboom, um outro grande autor, nem sei se simpático ou antipático, traduz meus sentimentos assim em Paraíso Perdido:”Ele costumava não suportar a maioria dos escritores como pessoas, sobretudo se admirava o trabalho deles. Mais valia jamais encontrá-los. Melhor seria se fossem de papel e estivessem encadernados.”

Ao Ribamar Bessa e ao nosso amor em comum

Astridpor Astrid Lima

As ruas de pedra crua, o joelho sempre ferido, o primeiro beijo, o seu Ceguinho, a Carmem Doida, o padre Marcos, o português Fernando que nós tínhamos certeza não se afastava nunca do seu bar, o medo do Conêgo Azevedo antes da reforma onde, corria a voz, havia um esqueleto além dos seus muros escuros (muralhas, para nós crianças), as corridas com os cachorros nos nossos calcanhares, os banhos de chuva embaixo das calhas, cachoeiras de detritos, o último andar do colégio Aparecida, onde se dizia era fechado desde que o elevador despencara matando dois estudantes (poucos ousaram ultrapassar as portas fechadas, desafiando as escadas em ruínas que davam na antiga biblioteca), os papagaios enrolados nos fios, a goiabeira de galhos lisos atrás de casa, a família Pacatuba na frente, os Paixões e as brigas memoráveis, os pequenos empurrões entre amigas, o rio, as corridas até a bóia no meio da água, os arraiais na Igreja, a primeira comunhão e o medo de cometer pecado entre a primeira confissão e a ostia sagrada no dia seguinte, a total, absoluta ausência de roubos, a quadra, as passagens secretas até a Luiz Antony, as velhas casas estreitas, minúsculas, da Bandeira Branca, as enchentes que lambiam as cozinhas com os quintais de rios na Gustavo Sampaio, o seu Aury, que consertava tudo, a dona Pequena fumando cachimbo na cadeira de balanço. As cadeiras de balanço! Todas as cores: amarelas, verdes, azuis, enfeitando as portas; o seu Osmar e a sua ternura africana.

Não sei o que existe naquele lugar que nos rende ligados a ele desse modo indissolúvel, não sei o que é capaz de marcar a memória com esse fogo perene, não tenho um nome para explicar o que, desse bairro — pedaço de terra, quase lama de rio — permanece em silêncio no lugar mais remoto da nossa alma e que retorna toda vez que perdemos a estrada, que erramos o caminho, que nos sentimos solitários e vencidos. Retorna, nos sussurra um nome, nos recorda um aniversário.

Aparecida. Aquele lugar nos forja em continuação. Vamos morrer pela mesma causa e, espero, com um meio sorriso nos lábios lembrando do Rubem nos dando uma piscadinha cúmplice.

A Aparecida não é uma doença, é a nossa loucura.

De “OBSERVADOR” a “OFICIAL”, num book com 3 fotos

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Cena 1: O “OBSERVADOR” é pego hoje com o IP de outro de seus apelidos, “JUSTO VERÍSSIMO”.

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Cena 2: “JUSTO VERÍSSIMO”, com outro IP, em 16 de janeiro.

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Cena 3: O IP do “JUSTO VERÍSSIMO”, emprestado ao consagrado “OFICIAL DE JUSTIÇA”, no mesmo dia 16 de janeiro.

Saiba mais sobre o “OFICIAL DE JUSTIÇA”.

Quem mexeu no meu caos?


Em 2008, época da última eleição para prefeito e vereadores, o PIG local empurrava goela abaixo da cidade a pauta dos debates entre os candidatos, a água. A ideia da marmota era simples: jogar no colo do então prefeito, não sem certa razão, a responsabilidade pela falta de água nas zonas Norte e Leste da cidade. Definido o suposto calcanhar de Aquiles da administração, a ordem era clara: bater. Depois bater, e depois bater.

Isso foi há um ano e meio. E de lá pra cá quanta coisa mudou… À medida que os problemas vinham se revezando como um vírus inteligente, à prova de políticos demagogos, secretários foram caindo pelo caminho, outros chegando, e a nova geração de manauaras foi sendo apresentada à cidade da Copa 2014, cruelmente a mesma que conhecemos desde 1983, quando Amazonino Mendes se instalou na história amazonense e não acabou mais.

Hoje a meninada ouve pela primeira vez os nomes de Raphael Siqueira, Bosco Saraiva, Manoel Ribeiro, João Coelho Braga, Celes Borges… E de cara vai tomando raiva dessa moçada que não toma jeito.

O roteiro é bizonho como só uma lenda amazônica pode soar. O encarregado de ordenar o trânsito é amigo do prefeito e, enquanto tenta intimidar jornalistas para não responder o irrespondível, recebe do amigo milhões por um terreno que pode ser de outra pessoa. O vice-prefeito e seus irmãos têm mais hora de polícia do que de mandato no currículo.

Os vereadores da base de apoio ou estão cassados ou fazendo vergonha ao chefe — e sendo humilhados por ele em público. A vergonha dos atores dessa comédia bufa só não é maior do que a vergonha do crítico de arte (a imprensa), que não pode criticar porque senão não recebe seu dinheirinho público.

O resultado de tudo conjugado é a baderna generalizada. Hoje o presidente do sindicato dos rodoviários, Josildo Oliveira, irmão de Jaildo, vereador da base aliada de Amazonino na Câmara, prometeu que vai furar os pneus de quem tentar furar a greve da categoria, amanhã (6), quando 100% da frota deve ficar nas garagens. Josildo — e com toda a justiça — vem sendo pintado como o baderneiro-mor, o pivô de toda a bagunça que Manaus vive há cinco dias.

Não. Josildo é só o líder de uma massa de manobra com 10.000 soldados, os motoristas e cobradores do sistema. E é temerário demonizar a categoria, pois o que eles cobram é um direito deles, o porcentual de reajuste acordado no dissídio da classe. Nesse rame-rame que se estende desde que Amazonino assumiu, só quem segurou as pontas da insatisfação da população foi o prefeito e os motoristas que, por motivos mais ou menos nobres, decidiu fazer uma queda de braço com o “prefeito do povo”.

Mas há dois personagens faltando nessa equação: os empresários e a Justiça. Pra quem já esqueceu, logo depois de assumir Amazonino aumentou o valor da passagem de R$2 para R$2,25. Numa tramóia política sobre a qual comentei aqui, o combinado era que os empresários cobrassem o reajuste da tarifa na justiça. Se o desembargador de plantão entendesse justa a exigência, obrigava Amazonino a conceder o aumento. Injustas ou não as suposições maldosas de que o desembargador era simpático à figura de Amazonino, o fato é que o desembargador tinha uma filha no posto de secretária de Amazonino. O fato é que, injustas ou não as suspeitas, este mesmo desembargador, Ari Moutinho, foi recentemente afastado de seu posto de prsidente do TRE-AM pelo CNJ, por supostamente favorecer o prefeito nas ações eleitorais que ele responde.

Mas nada disso vem ao caso. O fato é que, obrigado pela Justiça a conceder o aumento, Amazonino tirou das costas o peso político de dar o aumento sozinho. E quais eram as justificativas dos empresários para pedir o aumento? A renovação da frota, a manutenção dos ônibus e… ele, o dissídio coletivo dos motoristas. Em julho de 2009 o baderneiro-mor, Jaildo dos Rodoviários, confirmou a encenação do reajuste para R$2,25. Disse que numa reunião com motoristas e empresários, a Prefeitura, representada pela então diretora do IMTT e por uma vereadora da base de apoio de Amazonino, concordou com o aumento. De fato, chegou a ajudar os empresários nisso, fornecendo o documento, assinado pelo Conselho Municipal de Transportes (subordinado à Prefeitura), para que os empresários entrassem com o pedido na Justiça.

O transporte coletivo no Brasil inteiro é o ponto de maior dificuldade para os prefeitos. Várias são as razões, mas a primeira delas é que o setor é cartelizado, ou seja, são as próprias empresas, em nível nacional, que definem quem vai entrar em qual área. Os grandes empresarios do setor — Nene Constantino, Julio Simões, Jacob Barata — controlam as empresas médias e menores, e decidem quem vai atuar em que área.

Como o setor não tem fontes de financiamento, as frotas vão ficando nas mãos desses empresários. Você pode ir a qualquer banco amanhã que ele te financia um carro, mas nenhum financia um onibus. Outros empresários, de outros setores, não se sentem atraídos para investir no transporte coletivo — e é bom repetir, esse é um fenômeno nacional. Resultado: o poder público fica refém desse cartel; pode fazer a licitação que quiser que só virão as empresas que esses “gigantes” decidirem. No caso de Manaus, em 2007, outros empresários compraram os editais da licitação mas não compareceram.

Em ano político, reza a lenda que só quem pode falar de política é político. Experimente criticar qualquer um dos atores da comédia do ano, e sempre virá um soldado raso do exército atingido no seu encalço. A discussão toda fica frívola, a crítica é desqualificada, e a preocupação passa a ser desmontar o questionador, e não a questão. Ali, no escanteio, além dos milhares de manauaras amontoando-se nos pontos de ônibus, fica o fato: não há prefeito ainda capaz de, sob o Estado Domocrático e de Direito, desmontar a caixa preta do setor de transporte público no país. Foi assim com Eduardo Braga, foi assim com Amazonino Mendes, foi assim com Serafim Corrêa, e assim está sendo com Amazonino novamente.

A diferença, entre todos estes prefeitos, é que nenhum tentou, de forma tão patética, transformar o assunto numa coisa menor como Amazonino. Para este ás da política local, a solução do problema é o embuste. Quanto mais bagunçado, melhor pra ele, pois a desordem pede alguém com a retórica do caos, e isso, saiam da frente, é coisa de Amazonino. Políticos como Amazonino só sobrevivem no caos, seja ele real ou criado em computador. Se Amazonino fosse eleito pra governar Copenhague ou Londres, seria apeado do cargo, não pelo favorecimento dos amigos de poder com o dinheiro público, mas por simples inoperância.

Há políticos eleitos para governar, e há políticos eleitos para administrar o caos. Se o caos não estiver instalado, que se crie o caos. Para isso existem (aliás, existiam) o Sabino, o Henrique, os Souzas, os Ronaldos, os Waldires, os Ramans. Esprema-se essa cambada toda e não sai uma gota de credibilidade ou compromisso com a notícia. Foi assim com as contas da Prefeitura, com os ovos estragados da Semed, com o sumiço de computadores, com a estação de tratamento do Parque Lagoa do Japiim, com as escolas abandonadas, com o turno da fome, com os ônibus.

Amazonino já mentiu demais. Já disse ter quebrado o monopólio das empresas, já disse ter acabado com as fraudes da meia-passagem, o que possibilitaria a queda do preço da passagem. Já disse que instalaria um sistema de geoprocessamento para modernizar o sistema e acabar com os atrasos. Nem falemos de creche ou de caminhão com internet (eliminemos o mais e o menos grotesco de suas promessas, fiquemos com a média). Amazonino prometeu acabar com os buracos da cidade, buracos, sim, que foram grande defeito da administração anterior. E o que Amazonino cumpriu disso tudo?

Os motoristas têm seu dissídio coletivo marcado para todo mês de maio, todos os anos. Cobram porque têm o direito de cobrar. Se violam a lei das greves, retiram das ruas mais ônibus do que o permitido, que sejam punidos. Dos empresários é necessário que se cobre o cumprimento do contrato assinado com a Prefeitura, pois ele foi assinado com a Prefeitura, e não com o prefeito A ou o prefeito B. A frota vinha sendo renovada até 2008 — vamos driblar aqui a crítica dos soldados rasos e manter o nome do então prefeito sob sigilo –, Manaus já tinha sistemas como a integração temporal, o passe eletrônico etc.

Hoje o que ficou disso tudo? Amazonino, o profeta do caos, já aumentou, já desaumentou, já quebrou contrato, já cooptou estudantes, já deu milhões ao amigo que deveria estar comandando a solução, já ironizou pergunta de jornalista… E Manaus segue sem ônibus.

Só custo a sentir dó desse povo porque, como um povo só, não importa quem votou ou não na volta do amante do caos. O que importa é que nós, o povo, o elegemos. Reclamar agora é procurar o vendedor de contrabando da Eduardo Ribeiro para cobrar assistência técnica do produto pirata comprado um ano atrás. O povo amazonense não tem o direito de se dizer traído por Amazonino. Traído só se é uma vez.

Governar, essa coisa que tanto dizem que Amazonino sabe fazer, não é para Amazonino. Amazonino é bom pra fazer política, não pra governar. Se é pra fazer Ação Conjunta com fins eleitorais, dá coletivas e faz algazarra. Se é pra se unir ao governo pra resolver o problema, as coletivas e o foguetório somem.

Quem sabe se acotovelando debaixo do sol nos pontos, por uma, duas horas à espera de um ônibus, a população use o tempo ocioso pra pensar no que realmente quer: um profeta do caos ou um governante minimamente responsável.

Sol, chuva, espera, aperto não matam ninguém. Às vezes é bom para “fortalecer o caráter”, como diz uma conhecida minha.

Fica a dica.

“O tribunal é um clubinho”, dizia o JB em 27 de março

Ao proferir seu voto como relator do processo contra Ari Moutinho, ontem (6), no plenário do CNJ, o corregedor Gilson Dipp anunciou que cobraria esclarecimentos do presidente do TJAM, desembargador Domingos Jorge Chalub, sobre nota publicada no Jornal do Brasil no dia 27 de março passado. Na nota, o jornal conta que Chalub — diante de iminência do afastamento de Moutinho do cargo de presidente do TRE-AM –, já teria assegurado ao colega o cargo de corregedor do tribunal. Abaixo, a nota do JB:

O tribunal é um clubinho

O TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL está prestes a afastar o presidente do TRE do Amazonas, desembargador Ari Moutinho, enrolado em denúncias por usar o cargo para obter vantagens e favores pessoais.

Ari foi denunciado ao Conselho Nacional de Justiça por pedir a políticos e detentores de altos cargos públicos empregos para a mulher e dois filhos.

Conseguiu. A história seria mais uma – e gritante – de improbidade se o desfecho do script não delineasse um escárnio contra o TSE. O presidente do Tribunal de Justiça do estado, doutor Domingos Chalub, já garantiu a vaga de corregedor do TJ ao doutor Moutinho. O cargo, manda o bom-senso, visa investigar atos irregulares de seus pares. Como se vê, Moutinho, óbvio, tem isonomia para isso.

O homem dos cogumelos

De João Pereira Coutinho, na Folha de S. Paulo:

Contou-me uma amiga, professora de liceu, que decidira questionar a turma sobre as profissões a perseguir no futuro. A turma, composta por adolescentes de 12 e 13 anos, ofereceu resultados divertidos/ dramáticos/ alarmantes (ainda não consegui decidir).

Resumo da experiência: antigamente, as profissões desejadas oscilavam entre a medicina e a engenharia, com dois ou três astronautas e veterinários lá pelo meio. Hoje, a profissão do momento é outra. “Ser famoso”. Não interessa em quê. Interessa é chegar “lá”.

E as hordas de alucinados, verdade seja dita, tentam chegar “lá”. Todos os dias, quando espreito a tv, a espectáculo é repetitivo e deprimente: incontáveis nulidades, sem nada que as recomende, tentam em desespero chegar “lá”. A fama, que já durou 15 minutos, hoje dura 15 segundos; e os famosos, que em teoria seriam famosos por uma qualidade distintiva qualquer, são famosos por serem famosos, um círculo perfeito e perfeitamente imbecil.

É por isso refrescante ler a história de Grigory Perelman. Na passada semana, quando o Brasil assistia aos Big Brothers habituais, Grigory Perelman recusava um prémio de US$ 1 milhão por ter resolvido a conjectura de Poincaré.

Grigory Perelman, 44, é um matemático russo que, após breve carreira académica, abandonou a universidade para enfrentar a referida conjectura, um problema matemático que há mais de um século intrigava cientistas do planeta inteiro.

Em 2002 e 2003, publicou as suas propostas de resolução (na internet). Nos anos seguintes, matemáticos diversos procuraram confirmar a resolução proposta por Perelman. E confirmaram. Devido ao feito, a Fields Medal foi-lhe atribuída em 2006, uma espécie de prémio Nobel da Matemática. Perelman fez o que agora repetiu: recusou-a.

Foi o princípio da sua anti-fama que se converteu numa forma perversa de celebridade. Os jornalistas instalaram-se em frente ao apartamento onde ele vive (com a mãe). Os vizinhos fornecem alguns detalhes sobre a estranha criatura: os seus hábitos higiénicos (não corta unhas, cabelo ou barba) comportamentais (caminha sem levantar o olhar) e até alimentares (uma predileção desmesurada por laranjas). Uns dizem que o apartamento está infestado de baratas. Outros garantem que Perelman gosta de jogar pingue-pongue contra a parede.

E o próprio Perelman contribui para o mito, ao responder às solicitações telefónicas dos jornalistas com frases do tipo: “O senhor está a perturbar-me. Estou a apanhar cogumelos.”

A frase é boa. Tão boa que só em filme. Não admira, por isso, que a revista “Spectator” tenha dedicado um editorial notável ao caso, garantindo que Hollywood já está a preparar um “biopic” sobre o génio. Se a ideia era viver em paz, um mundo viciado na guerra da fama não permite semelhante luxo.

O que implica saber: na história de Grigory Perelman, a quem pertence a maior dose de loucura? A ele? Ou a nós?

Não é preciso ser um génio para responder a essa.

Comprando a lebre da Verdade, levando o gato da Política

Não é de hoje que falo da iniciativa democrática e honesta, por parte de grandes jornais e veículos de imprensa, que decidem assumir suas posições ideológicas ou escolher candidatura durante períodos eleitorais. Não vamos negar o fosso de qualidade entre o público leitor de jornais no Brasil e o de países mais desenvolvidos, mas também é difícil ignorar que, no Brasil, ser leitor de jornal já é um grande avanço. O brasileiro pode ainda ter chances de vir a ler jornais antes que os jornais acabem.

Para o leitor mediano, porém, acaba ficando sutil demais a guinada que certos veículos dão assim que o calendário eleitoral vai passando. Em mercados editoriais como o de Manaus, não adianta saber que jornal A, tevê B ou rádio C estão sem credibilidade. Em mercados editoriais como o de Manaus, não é a credibilidade o que leva o leite das crianças pra casa. Veículos como o Amazonas Em Tempo, por exemplo, sequer defendem o jornalismo que praticam, porque sabem que o que a má fama é justa.

É injusta, por exemplo, a má fama do extinto Correio Amazonense como um jornal criado como máquina de imprensa a favor de Amazonino Mendes. Amazonino não inventou a fórmula, tampouco ela morreu com os portões do Correio sendo fechados na cara de seus funcionários, logo após sua derrota nas urnas. A Crítica é o PMDB da imprensa local, com inegável tradição, capacidade comprovada e considerável poder de formação de opinião. Mas carrega também os defeitos do PMDB, cujo tamanho é usado como moeda de troca na hora em que políticos com poder econômico (quase sempre dinheiro público) precisam das letrinhas pretas impressas em papel jornal, que tão melhor impressão passam ao eleitor e leitor do que os tradicionais santinhos — se houver um nome tradicional por trás dessas letrinhas, tanto melhor.

Os veículos menores ou menos longevos também não diferem dos partidecos de aluguel que pululam pelo país, a serviço de candidaturas majoritárias ou de políticos sem expressão, que no mais das vezes trocam grandes siglas pelos PPs, PMNs e PSCs da vida. Assim são os jornais de ocasião, como foram O Estado do Amazonas, o Jornal do Norte, o Correio Amazonense ou hoje o Em Tempo. Hoje A Crítica, tal qual uma sigla política, decide quem vai apoiar. Na redação do Em Tempo, funcionários já foram informados, pela direção, que devem também “marchar” ao lado do candidato Omar. Nada de mau em que um jornal decida declarar a candidatura que deverá apoiar.

Daí a tentar transformar esse apoio em notícia é má fé. Levar acordos comerciais para a manchete é enganar o cliente — que é bom lembrar, não é o governador, é o leitor. Jornalecos de fachada não se constrangem em fazer isso, mas jornalões com alguma história deveriam zelar mais pelo respeito que devem ao cliente. Notícia é notícia, opinião é opinião. Misturar as duas e vender isso como jornalismo é atentar contra a inteligência alheia.

Uma mentira impressa em papel jornal vira quase automaticamente verdade. Uma mentira voando pelas ondas de uma rádio como a Difusora, por exemplo, é uma verdade. Sabemos das quedinhas que nossa “grande imprensa” tem não por candidato A ou B, mas pelas verbas publicitárias mantidas com dinheiro público. Não sendo ilegal a subserviência da mídia aos donos desses cofres, é no mínimo questionável o aspecto moral dessa relação.

Fato é que, como em tantos outros mercados, no mercado da imprensa é preciso saber quem é o real cliente no Amazonas, sob pena de, sem saber quem ele é, os jornais acabarem institucionalizados como braços propagandistas do poder público, como empresas estatais que não dependem do lucro pra sobreviver. Jornais mantidos com dinheiro público não dependem de leitores, precisam apenas apoiar o político certo. Ainda que não venda um exemplar sequer, um jornal como o Em Tempo vai continuar exsitindo, porque sua vida não é decidida pelas escolhas que o amazonense faz na banca de revistas, mas pelas que faz na urna.

Mas o fato é que eles estão aí, sendo vendidos nas ruas, como se já não tivessem sido pagos pela população. Acabam as eleições, conhecem-se os vencedores, refazem-se as simpatias e antipatias “eternas”, e fica tudo por isso mesmo. É muito difícil levar a sério uma imprensa que tem no Google e na história recente um inimigo, e não um aliado. A verdade parece não gozar de muito prestígio político.

No mercado de notícias amazonense, a verdade é como aquele político honesto que todos adoram elogiar, mas que morreu solitário.

Um papo surrealisticamente utópico com Sebastião Reis

por Benayas Inácio Pereira

benayas“E aí Reis, tudo bem? Poxa, estou morrendo de saudades e parece que foi ontem que você viajou. Pensando bem, como o tempo passa rápido, não?

Se quiser que eu conte as novidades por aqui, eu posso relatar, mas elas não são tão alvissareiras como você gostaria de ouvir.

No jornalismo local, a coisa está para lá de marrom. Os jornais, como que obedecendo a ordens superiores, exaltam os políticos que de uma forma ou outra ‘sustentam’ financeiramente a permanência deles, ocorrendo por isso, um paradoxo nos noticiários. Em outras palavras, cada jornal publica o que os ‘verdadeiros donos’ determinam.

Meu olhar adentra para as redações e não consigo enxergar um novo Reis, o que comprova que o seu trono ainda se encontra desocupado. Por falar nisso eu ainda continuo fora daqueles projetos que estávamos elaborando.

Na música nada de novo. No palco iluminado as luzes não foram trocadas e o brega que tanto condenávamos continua dando as cartas. Tenho ouvido bastante as canções do nosso tempo, principalmente MPB, aquelas que vivíamos entoando.

Nossos amigos são ainda os mesmos. Tenho visto pouco o Marcelo que nos acompanhou no último almoço quando rimos descontraidamente e tivemos muito tempo para falar de Reiquixás, cacófatos e palíndromos. Não tenho visto o Júnior Lima, tendo apenas conversado com ele ao telefone. Sei que ele continua batalhando na música e jamais abandona seu violão. Encontro-me algumas vezes com o Cláudio Barboza e, sempre sobra um tempinho para falarmos de você e de sua viajem inesperada. Com a Betsi Bell, não tenho conversado apesar da perene amizade que nutrimos por ela. Dias atrás eu dei uma boa olhada em umas fotos que o Pedro pôs no meu computador. São fotografias tiradas lá no jornal, “O Estado do Amazonas”. Você aparece em muitas delas e, em algumas, sua cara está engraçada que só. Eu ainda lembro-me bem de quando você dizia que uma redação igual àquela, nunca mais, pois lá, era uma verdadeira família. O Sebastião Assante está meio sumido, mas sei que ele continua com o mesmo apreço que sempre teve por você. Sobre a Rebecca, tenho tido contatos com ela apesar de sua vida atribulada, todavia sempre tocamos no seu nome e nos comovemos.

Tenho visto e falado com o Joaquim Marinho e, menos um pouco com o Limongi.

Na política, nada de novo e os nomes são os mesmos. Muda-se a sopa, mas permanecem as moscas. Na literatura, caro Reis, perdemos algumas personalidades importantes, entre elas o nosso amigo Anibal Beça. Quase me esqueço, o Lombardi do qual fazíamos imitações também viajou. É a vida escrevendo seu ciclo.

Acredite que a ficha sobre a sua viagem ainda não caiu por inteiro. Continuo tentando absorver, mas permaneço incrédulo. Ah, assim que você viajou, enviei um e-mail ao seu amigo Antero Greco que está na ESPN, falando da sua ida. Como você pode notar pouca coisa aconteceu por aqui.

Voltando ao nosso último almoço, recordo-me que havíamos marcado encontro para uns dias depois, porém, não foi possível em razão das circunstâncias e armadilhas que a vida nos prepara, mas o que se vai fazer?

Bem, penso que você deve estar ocupado e não pretendo aborrecê-lo mais. Vou me despedir mandando um abraço de ‘até breve’. Se encontrar com o Aguinelo, mande minhas recomendações. Tchau”.

Benayas Inácio Pereira é cronista, poeta e amigo do Reis.