Archive for the ‘Cultura’ Category

A batalha dos arautos

Foto: Raimundo Valentim

Acompanhei o desenrolar das duas convenções e o que vi foi uma cena de pré-guerra medieval. De cada lado das colinas, dois exércitos se amontoam com suas espadas, armaduras, lanças e arcos de guerra. À frente de cada exército, os generais consultam seus auxiliares, que se dedicam a olhar no horizonte e saber, de antemão, o tamanho do exército inimigo.

A tática, então, é a de amplificar o próprio poder. Para isso não faltam, de lado a lado, arautos, mensageiros e trombeteiros, além do maior número possível de soldados, de preferência aqueles que não sabem quem é seu líder, muito menos o inimigo — a maior parte quer apenas andar de ônibus de graça.

Nas guerras medievais, eram os arautos os encarregados de oferecer trégua, listar exigências e condições e dar a chance, ao inimigo em desvantagem, de se render. Hoje o que não falta é marqueteiro, mensageiro e trombeteiro. Na guerra moderna, um trombeteiro talentoso vale mais do que cem soldados. É dele a tarefa de espalhar o terror nas hostes inimigas, falando da morte sangrenta que terão, das poucas chances que têm, do tamanho da lança do patrão etc. O arauto era o famoso ficeleiro real, o animador de auditório da corte.

Em Henrique V, de Shakespeare, Montjoy, o arauto de Carlos VI, é enviado para dar aos ingleses a chance de rendição na guerra dos 100 anos. Para isso, os comunica que os franceses são 50 mil, contra os 10 mil ingleses. No dia seguinte, após a famosa batalha de Azincourt, 10 mil franceses estavam mortos, entre eles 126 príncipes. Os ingleses mortos eram vinte e cinco.

Foto: Raimundo Valentim

Durante a convenção de Alfredo, a estimativa dos organizadores era de até 5 mil pessoas presentes, segundo os arautos de Alfredo. Na convenção de Braga (e Omar, claro), hoje, eram esperadas 3 mil, segundo os arautos de Braga (e Omar, não podemos esquecer do Omar).

Nesse ponto da campanha, é a única coisa que conta: mostrar poder ao adversário como nas guerras medievais, enviando arautos (com suas vuvuzelas douradas) para oferecer rendição ao inimigo em número inferior. Se for possível exibir aos soldados o último casal da espécie em extinção inimicus communis, devidamente empalhados como troféus de caça, tanto melhor.

Claro, contam também os prefeitos do interior, com a coleira dos convênios estaduais no pescoço, os professores da rede pública, os deputados e suas ONGs, os vereadores e os cargos de seus parentes, mas essa é a menor parte. Há também os empreendedores pastores evangélicos, provando o sucesso do agrobusiness amazonense: na ovinocultura amazonense, o rebanho da espécie IURD está sendo negociado por R$ 5 milhões neste momento.

Pouco importa o tamanho de cada exército. Com 5 vezes menos soldados, Henrique V venceu os franceses com um discurso belíssimo e patriótico, incentivando seus homens a lutar por suas famílias, sua honra e sua nação.

Os exércitos de hoje são movidos apenas pelo vazio, talvez pela algazarra coletiva. Não carregam mais lanças nem escudos, apenas cartazes e faixas de gente que nunca viram.

É a repetição, e a repetição, e a repetição da mesma morte de sempre, a morte social. Henrique V ofereceu aos seus homens a possibilidade de escreverem seus nomes na história. Os trombeteiros de hoje precisam apenas oferecer uma carona. Se rolar um ovo coberto com refresco de caju geladinho, então, o exército se multiplica.

Hoje pouco importa se a carona é para uma morte certa num campo de batalha distante.

Para os soldados de hoje, o que vale é a carona.

E a merenda de graça, claro.

Ismael Benigno

Ismael_20Benigno-vereadorCopiado do excelente blog Baú Velho, de Carlos Zamith:

Neste dia 4 de maio completa 22 anos que Ismael Benigno nos deixou, o maior benfeitor do São Raimundo Esporte Clube ao qual dedicou grande parte de sua vida. Foi o construtor de todo o patrimônio da agremiação diminuído com o tempo por falta de cuidado e dedicação de seus sucessores.

Ismael Benigno – vereadorIsmael era um apaixonado pelo São Raimundo e pelo bairro. Sempre quis o melhor para ambos. Atendia a população carente em sua residência, em frente à Igreja, mesmo fora da política. Em 1956, levou o seu clube à primeira divisão da então Fada. Fazia questão de comemorar, com jogos interestaduais, qualquer melhoramento no estádio da Colina, hoje com o seu nome. Assim foi na inauguração da arquibancada, dos túneis, dos vestiários, do alambrado e quando promoveu um amistoso com o Nacional para a inauguração dos refletores.

Funcionário estadual aposentado, ao deixar a política, exerceu o cargo de diretor da Rádio Difusora do Amazonas de seu amigo Josué Cláudio de Souza. Ismael morreu no dia 4 de maio de 1978, em Manaus, vítima de um AVC. A notícia de sua morte consternou a toda comunidade sanraimundense. O bairro chorou a perda de seu mais querido filho. Em sua homenagem, em 1979, a Vereador Josefa Vasquez deu o nome de Praça “Ismael” ao logradouro em frente à igreja de São Raimundo Nonato.

Ismael Benigno nasceu a 2 de janeiro de 1912. Era filho de Ismael Benigno e Francisca de Aquino Benigno. Tornou-se político por imposição de amigos, concorrendo pela primeira vez, às eleições para a 2ª Legislatura da Câmara Municipal de Manaus, eleito para período de 1952 a 1956, pelo Partido Social Democrático e reeleito para a Legislatura seguinte de 1956 a 1960.

Era presidente da Câmara Municipal quando foi nomeado Prefeito pelo então governador Plínio Ramos Coelho a partir de julho de 1958, permanecendo no cargo, por quase um ano. Voltou a ser Vereador na 5ª Legislatura, pelo Partido Rural Trabalhista mas renunciou ao mandato por ter sido eleito Deputado Estadual nas eleições de 1966, quando foi atingido por ato da Revolução de março, com a cassação de seu mandato. Depois disso não quis saber mais de política, entregando a missão a outro filho do bairro, Raimundo Sena, que durante quinze anos consecutivos ocupou o cargo de Vereador e também, por dois anos, a presidência do legislativo Municipal.

TV Cultura prepara nova relação de demitidos

O diretor-presidente da Fundação Televisão e Rádio Cultura do Amazonas (Funtec) continua dando prosseguimento ao seu plano de terror entre os funcionários que atuam na emissora há mais de 15 anos. Agora, o dirigente, que precisa aprender a gerir o bem público ou a praticar a gestão pública moderna, prepara um listão com os nomes dos próximos funcionários que irão para a rua.

Nesta segunda-feira (17/05), ele mandou embora mais quatro companheiros, que irão enfrentar uma via crucis para receber o FGTS. Este foi o único benefício deixado para os celetistas. Isto porque o acordo, julgado e aprovado na 3ª. Vara do Trabalho, prejudicou os antigos funcionários, pois considerou os contratos nulos e, com isso, nenhum dos trabalhadores tem direito às demais indenizações.

Leia mais no blog SOS TV Cultura.

Sobre o triunfo dos nerds!

michellepor Michelle Portela

Nas escolas católicas, padres acumulam a função de professor de religião e supervisores pedagógicos. Quando fazia o segundo grau, atual Ensino Médio, no Colégio Dom Bosco, fui surpreendida lendo “Morte: o grande momento da vida” e ouvi um sonoro: “quem é este herege?”, para, em seguida, ser encaminhada para a psicóloga.

Fiquei chocada! Disse para a senhora que me avaliou que não entendia como não podia ler mais uma grande obra de Neil Gaiman, escritor e quadrinista britânico que usava sua literatura de forte apelo poético para tratar de temas clássicos, fazendo uso de mídias tradicionalmente discriminadas e levando-as a alcançar status de best-seler em países do “primeiro mundo”. Deu certo, a ponto do fato não constar em meus registros.

De certa forma, conhecer Neil Gaiman foi determinante em minha vida. A admiração faz com que obra e autor façam parte do meu cotidiano, seja em referências literárias ou em experiências de vida. Acesso o blog journal.neilgaiman.com diariamente, tenho a coleção completa da graphic novel Sandman, obra que o elevou de escritor de história em quadrinhos à posição de autor, e dos livros publicados no Brasil, e minha fantasia favorita é Stardust, que narra a queda e a luta pela sobrevivência de uma estrela para falar de humanidade. Ele me apresentou um novo mundo, no meu próprio tempo. Falando sobre ele, me aproximo de qualquer pessoa no planeta. Para mim, ele abriu portas.

Mais sobre ele? Ao receber homenagem no Scream Movie Awards de 2007, subiu ao palco, de calça e jaqueta de couro e um perceptível óculos de grau, para dizer que aquele “era o triunfo dos nerds”. Em Paraty, na Flip, deixou a sala vip e foi passear com a filha pela cidade. Tirou, inclusive, foto abraçado ao “curupira”. Concretizando as expectativas manifestadas na internet, tanto por fãs quanto pelo próprio Gaiman em seu blog, ele ficou por seis horas consecutivas autografando livros e quadrinhos de leitores emocionados, que superaram mais de um dia de espera na fila, como expuseram membros de comunidades virtuais que freqüento. “Se antes o amava, agora o amo mais ainda” se tornou um novo tópico após o episódio. É o maior recordista de autógrafos da Flip.

A atitude chamou a atenção do escritor Tenório Teles, que esteve na Flip e hoje usou o exemplo “daquele autor” para falar do comprometimento que a categoria deve ter para com seus fãs, em reunião preparatória para o Festival Literário da Floresta (FliFloresta). “Esse rapaz deu um grande exemplo de humildade”, reconheceu Tenório.

A citação me fez retomar uma análise crescente. Não é nova a constatação, mas não custa lembrar. Há escritores muito simpáticos que escrevem mal. E há escritores antipáticos que escrevem bem. Agora, nada como encontrar escritores simpáticos e competentes no que fazem. Podiam ser antipáticos se quisessem. Porém, são simpatias pessoais que garantem a priori simpatias literárias. Vide Tenório, que sequer sabia o nome do cara.

Nesse caso, transfiro o julgamento do mérito literário aos leitores, mas garanto que é sempre mais agradável conversar com um autor simpático, aquele que talvez nem se atribui importância indevida, do que com coroas que se tem em alta conta e enfiaram a modéstia no canto da bolsa de marca.

Cees Nooteboom, um outro grande autor, nem sei se simpático ou antipático, traduz meus sentimentos assim em Paraíso Perdido:”Ele costumava não suportar a maioria dos escritores como pessoas, sobretudo se admirava o trabalho deles. Mais valia jamais encontrá-los. Melhor seria se fossem de papel e estivessem encadernados.”

O “Fenômeno do Médico e do Monstro”

Outro dia citei aqui o que batizei de “Fenômeno do Médico e do Monstro”, me referindo a parte da imprensa, local e nacional, e sobre o comportamento editorial de cada um em épocas eleitorais. Fiquei de explicar melhor do que se tratava, e hoje, depois de ler alguns blogs e notícias na internet, me lembrei da promessa.

O fenômeno do Médico e do Monstro — FMM — consiste num quadro psicótico que acomete os grandes veículos de imprensa no Brasil a cada dois anos. Se na lenda do lobisomem, por exemplo, o catalizador da transformação são as noites de lua cheia, no FMM o estopim para a transformação é o período eleitoral. A cada dois anos, com a chegada dessa época, a doença se espalha silenciosamente pelas redações, pela internet, pelas emissoras de tevê, rádio e pelas revistas de variedades, decoração e/ou moda.

A FMM é deflagrada por um vírus agressivo, que permanece incubado dentro do paciente por dois anos e que eclode da noite pro dia, levando a vítima a transtornos de comportamento e traços de psicopatia. Durante as crises, a vítima perde o senso de orientação e ignora a escala oficial do ridículo, transmutando-se numa figura monstruosa. Os sinais exteriores são a atrofia dos músculos inferiores, o crescimento de pelos no rosto, o gigantismo dos dentes caninos e a coloração avermelhada da íris dos olhos.

Assim, o paciente com quadro de FMM costuma andar arqueado, sem conseguir erguer a espinha dorsal, o que afeta seu ritmo respiratório, que fica acelerado. Com a protuberância dos caninos, fatalmente saliva em demasia. Combinando-se a vermelhidão dos olhos, a respiração acelerada e a salivação descontrolada, o aspecto final é o de uma criatura que em nada lembra a vítima antes do surto.

Mas é no comportamento que se notam os piores sintomas, pois a vítima apresenta níveis elevados de falsidade ideológica, completo desprezo pela apuração jornalística, nível zero de isenção e preocupação com o ridículo. Depois dos surtos, a vítima age como se nada tivesse acontecido, volta a falar em jornalismo ético, responsável, volta a falar manso e apresenta quadro grave de amnésia seletiva.

Os surtos de FMM somem tão rápido quanto surgem. Assim que as nuvens negras das eleições se dissipam os pêlos somem, a espinha volta a se esticar, os dentes voltam ao normal e os olhos retornam à sua coloração original. Relatos de leitores, espectadores e familiares desses veículos reforçam a tese de que, durante os surtos, a vítima assume outra personalidade, como se estivesse possuída. Tanto que, recuperada do transtorno, nunca se lembra do que fez durante o surto — lembrando novamente o Lobisomem, que costumava acordar nu e sujo com o sangue de suas vítimas, sem fazer ideia das atrocidades que tinha cometido na noite de lua cheia anterior.

Com a FMM é tudo muito parecido. Apesar de ainda não ter sido estudada pela medicina, já é possível notar uma mudança no comportamento das famílias. Pais e mães recomendam que seus filhos não leiam jornais, assistam noticiários e ou leiam blogs de veículos de imprensa. Entre os meses de janeiro e outubro dos anos pares, é recomendado aos mais jovens que não se aceitem carona de colunistas sociais nem bombons de radialistas, muito menos que andem sozinhos à noite nas proximidades dessas empresas.

O vírus da FMM não escolhe classe social, atinge grandes e pequenos veículos de imprensa, mas é particularmente agressiva com os maiores. Oficialmente, ninguém admite sua existência. Médicos suíços, porém, alegam já ter isolado o vírus e dizem que o quadro fica mais visível a partir do mês de junho, após as convenções partidárias. Extra-oficialmente, os suíços recomendam todo cuidado possível com grandes jornais e programas de tevê e rádio, e arriscam algumas dicas que — segundo eles — ajudam a reconhecer uma potencial vítima da FMM:

  • Veículos que aumentam o tamanho da fonte de suas manchetes — Quando seu jornal preferido começar a estampar denúncias frequentes contra alguma personalidade política, em fundo preto e letras gigantes, não se engane, ele já está infectado pelo vírus da FMM.
  • Veículos que alegam serem perseguidos por forças ocultas — Assim que começam a atacar suas vítimas, os veículos infectados tendem a trocar de posição com elas, alegando serem eles as vítimas de censura, perseguição ou lorota equivalente.
  • Veículos que prometem Caixas Pretas, dossiês detalhados, reportagens históricas — Estes são traços decorrentes do isolamento do gene responsável pela noção de ridículo. Isolado este gene, o veículo engana seus consumidores vendendo denúncias falsas e praticando chantagem aberta.
  • Veículos que recebem visitas constantes de membros de governos e se reunem a portas fechadas com dirigentes partidários — Gabinetes de diretoria que passam a ficar movimentados e mal frequentados em época de eleição estão irremediavelmente infectados. Mantenha distância.
  • Veículos que incham em anos eleitorais, exibindo traços visíveis de enriquecimento ilícito — Quando vir aquele jornal, aquela rádio ou aquela emissora virando um império de comunicação sem explicação razoável, atravesse a rua imediatamente.
  • Veículos que criam blogs apócrifos e sites anônimos — Frequentemente, tais veículos lideram cruzadas contra esse tipo de crime na internet. No fundo, são os grandes utilizadores deste tipo de expediente.
  • Veículos que exibem a genitália de mulheres grávidas na primeira página — Deixe de assinar ou comprar veículos que atentem contra as regras mais elementares de tato social ou bom gosto com a notícia.
  • Veículos que começam a atacar — ou deixam de atacar — alguém subitamente, da noite pro dia — É um dos sintomas mais comuns e fáceis de detectar. Mas em alguns casos a patologia é tão grave que, depois de atacar a vítima publicamente, o veículo infectado liga para a vítima como se nada tivesse feito.
  • Veículos que passam a narrar os fatos políticos como personagens, e não como veículos de imprensa — Fuja de jornalistas que dizem “falei no fim de semana com o prefeito” ou “todos sabem que sou amigo do governador”. Jornalista não almoça com a notícia, apenas a assiste e a conta.

A época do FMM é como a época das viroses respiratórias do inverno. Convém apenas aos leitores, ouvintes e espectadores lavar as mãos sempre que manipularem ou tiverem contato com os prováveis infectados. No caso de contato, recomenda-se muito líquido, repouso, canja de galinha e senso de humor.

Quem mexeu no meu caos?


Em 2008, época da última eleição para prefeito e vereadores, o PIG local empurrava goela abaixo da cidade a pauta dos debates entre os candidatos, a água. A ideia da marmota era simples: jogar no colo do então prefeito, não sem certa razão, a responsabilidade pela falta de água nas zonas Norte e Leste da cidade. Definido o suposto calcanhar de Aquiles da administração, a ordem era clara: bater. Depois bater, e depois bater.

Isso foi há um ano e meio. E de lá pra cá quanta coisa mudou… À medida que os problemas vinham se revezando como um vírus inteligente, à prova de políticos demagogos, secretários foram caindo pelo caminho, outros chegando, e a nova geração de manauaras foi sendo apresentada à cidade da Copa 2014, cruelmente a mesma que conhecemos desde 1983, quando Amazonino Mendes se instalou na história amazonense e não acabou mais.

Hoje a meninada ouve pela primeira vez os nomes de Raphael Siqueira, Bosco Saraiva, Manoel Ribeiro, João Coelho Braga, Celes Borges… E de cara vai tomando raiva dessa moçada que não toma jeito.

O roteiro é bizonho como só uma lenda amazônica pode soar. O encarregado de ordenar o trânsito é amigo do prefeito e, enquanto tenta intimidar jornalistas para não responder o irrespondível, recebe do amigo milhões por um terreno que pode ser de outra pessoa. O vice-prefeito e seus irmãos têm mais hora de polícia do que de mandato no currículo.

Os vereadores da base de apoio ou estão cassados ou fazendo vergonha ao chefe — e sendo humilhados por ele em público. A vergonha dos atores dessa comédia bufa só não é maior do que a vergonha do crítico de arte (a imprensa), que não pode criticar porque senão não recebe seu dinheirinho público.

O resultado de tudo conjugado é a baderna generalizada. Hoje o presidente do sindicato dos rodoviários, Josildo Oliveira, irmão de Jaildo, vereador da base aliada de Amazonino na Câmara, prometeu que vai furar os pneus de quem tentar furar a greve da categoria, amanhã (6), quando 100% da frota deve ficar nas garagens. Josildo — e com toda a justiça — vem sendo pintado como o baderneiro-mor, o pivô de toda a bagunça que Manaus vive há cinco dias.

Não. Josildo é só o líder de uma massa de manobra com 10.000 soldados, os motoristas e cobradores do sistema. E é temerário demonizar a categoria, pois o que eles cobram é um direito deles, o porcentual de reajuste acordado no dissídio da classe. Nesse rame-rame que se estende desde que Amazonino assumiu, só quem segurou as pontas da insatisfação da população foi o prefeito e os motoristas que, por motivos mais ou menos nobres, decidiu fazer uma queda de braço com o “prefeito do povo”.

Mas há dois personagens faltando nessa equação: os empresários e a Justiça. Pra quem já esqueceu, logo depois de assumir Amazonino aumentou o valor da passagem de R$2 para R$2,25. Numa tramóia política sobre a qual comentei aqui, o combinado era que os empresários cobrassem o reajuste da tarifa na justiça. Se o desembargador de plantão entendesse justa a exigência, obrigava Amazonino a conceder o aumento. Injustas ou não as suposições maldosas de que o desembargador era simpático à figura de Amazonino, o fato é que o desembargador tinha uma filha no posto de secretária de Amazonino. O fato é que, injustas ou não as suspeitas, este mesmo desembargador, Ari Moutinho, foi recentemente afastado de seu posto de prsidente do TRE-AM pelo CNJ, por supostamente favorecer o prefeito nas ações eleitorais que ele responde.

Mas nada disso vem ao caso. O fato é que, obrigado pela Justiça a conceder o aumento, Amazonino tirou das costas o peso político de dar o aumento sozinho. E quais eram as justificativas dos empresários para pedir o aumento? A renovação da frota, a manutenção dos ônibus e… ele, o dissídio coletivo dos motoristas. Em julho de 2009 o baderneiro-mor, Jaildo dos Rodoviários, confirmou a encenação do reajuste para R$2,25. Disse que numa reunião com motoristas e empresários, a Prefeitura, representada pela então diretora do IMTT e por uma vereadora da base de apoio de Amazonino, concordou com o aumento. De fato, chegou a ajudar os empresários nisso, fornecendo o documento, assinado pelo Conselho Municipal de Transportes (subordinado à Prefeitura), para que os empresários entrassem com o pedido na Justiça.

O transporte coletivo no Brasil inteiro é o ponto de maior dificuldade para os prefeitos. Várias são as razões, mas a primeira delas é que o setor é cartelizado, ou seja, são as próprias empresas, em nível nacional, que definem quem vai entrar em qual área. Os grandes empresarios do setor — Nene Constantino, Julio Simões, Jacob Barata — controlam as empresas médias e menores, e decidem quem vai atuar em que área.

Como o setor não tem fontes de financiamento, as frotas vão ficando nas mãos desses empresários. Você pode ir a qualquer banco amanhã que ele te financia um carro, mas nenhum financia um onibus. Outros empresários, de outros setores, não se sentem atraídos para investir no transporte coletivo — e é bom repetir, esse é um fenômeno nacional. Resultado: o poder público fica refém desse cartel; pode fazer a licitação que quiser que só virão as empresas que esses “gigantes” decidirem. No caso de Manaus, em 2007, outros empresários compraram os editais da licitação mas não compareceram.

Em ano político, reza a lenda que só quem pode falar de política é político. Experimente criticar qualquer um dos atores da comédia do ano, e sempre virá um soldado raso do exército atingido no seu encalço. A discussão toda fica frívola, a crítica é desqualificada, e a preocupação passa a ser desmontar o questionador, e não a questão. Ali, no escanteio, além dos milhares de manauaras amontoando-se nos pontos de ônibus, fica o fato: não há prefeito ainda capaz de, sob o Estado Domocrático e de Direito, desmontar a caixa preta do setor de transporte público no país. Foi assim com Eduardo Braga, foi assim com Amazonino Mendes, foi assim com Serafim Corrêa, e assim está sendo com Amazonino novamente.

A diferença, entre todos estes prefeitos, é que nenhum tentou, de forma tão patética, transformar o assunto numa coisa menor como Amazonino. Para este ás da política local, a solução do problema é o embuste. Quanto mais bagunçado, melhor pra ele, pois a desordem pede alguém com a retórica do caos, e isso, saiam da frente, é coisa de Amazonino. Políticos como Amazonino só sobrevivem no caos, seja ele real ou criado em computador. Se Amazonino fosse eleito pra governar Copenhague ou Londres, seria apeado do cargo, não pelo favorecimento dos amigos de poder com o dinheiro público, mas por simples inoperância.

Há políticos eleitos para governar, e há políticos eleitos para administrar o caos. Se o caos não estiver instalado, que se crie o caos. Para isso existem (aliás, existiam) o Sabino, o Henrique, os Souzas, os Ronaldos, os Waldires, os Ramans. Esprema-se essa cambada toda e não sai uma gota de credibilidade ou compromisso com a notícia. Foi assim com as contas da Prefeitura, com os ovos estragados da Semed, com o sumiço de computadores, com a estação de tratamento do Parque Lagoa do Japiim, com as escolas abandonadas, com o turno da fome, com os ônibus.

Amazonino já mentiu demais. Já disse ter quebrado o monopólio das empresas, já disse ter acabado com as fraudes da meia-passagem, o que possibilitaria a queda do preço da passagem. Já disse que instalaria um sistema de geoprocessamento para modernizar o sistema e acabar com os atrasos. Nem falemos de creche ou de caminhão com internet (eliminemos o mais e o menos grotesco de suas promessas, fiquemos com a média). Amazonino prometeu acabar com os buracos da cidade, buracos, sim, que foram grande defeito da administração anterior. E o que Amazonino cumpriu disso tudo?

Os motoristas têm seu dissídio coletivo marcado para todo mês de maio, todos os anos. Cobram porque têm o direito de cobrar. Se violam a lei das greves, retiram das ruas mais ônibus do que o permitido, que sejam punidos. Dos empresários é necessário que se cobre o cumprimento do contrato assinado com a Prefeitura, pois ele foi assinado com a Prefeitura, e não com o prefeito A ou o prefeito B. A frota vinha sendo renovada até 2008 — vamos driblar aqui a crítica dos soldados rasos e manter o nome do então prefeito sob sigilo –, Manaus já tinha sistemas como a integração temporal, o passe eletrônico etc.

Hoje o que ficou disso tudo? Amazonino, o profeta do caos, já aumentou, já desaumentou, já quebrou contrato, já cooptou estudantes, já deu milhões ao amigo que deveria estar comandando a solução, já ironizou pergunta de jornalista… E Manaus segue sem ônibus.

Só custo a sentir dó desse povo porque, como um povo só, não importa quem votou ou não na volta do amante do caos. O que importa é que nós, o povo, o elegemos. Reclamar agora é procurar o vendedor de contrabando da Eduardo Ribeiro para cobrar assistência técnica do produto pirata comprado um ano atrás. O povo amazonense não tem o direito de se dizer traído por Amazonino. Traído só se é uma vez.

Governar, essa coisa que tanto dizem que Amazonino sabe fazer, não é para Amazonino. Amazonino é bom pra fazer política, não pra governar. Se é pra fazer Ação Conjunta com fins eleitorais, dá coletivas e faz algazarra. Se é pra se unir ao governo pra resolver o problema, as coletivas e o foguetório somem.

Quem sabe se acotovelando debaixo do sol nos pontos, por uma, duas horas à espera de um ônibus, a população use o tempo ocioso pra pensar no que realmente quer: um profeta do caos ou um governante minimamente responsável.

Sol, chuva, espera, aperto não matam ninguém. Às vezes é bom para “fortalecer o caráter”, como diz uma conhecida minha.

Fica a dica.

Salvem a ZFM, a Zona Franca das Multas!

Coluna publicada no extinto O Estado do Amazonas em 20 de março de 2007:

Durango Duarte previu, indignado, nesta segunda na rádio CBN, que já deve ter tomado umas dez multas, desde a instalação dos radares da Prefeitura. Durango é bom em previsão. Sabe, inclusive, que “o povo tá de birra com o Prefeito”. Pela margem de erro de suas pesquisas, Durango pode ter tomado de nove a onze multas. Sem problemas, porque o vereador Fabrício Lima já anunciou que vai pedir a anulação das multas aplicadas aos motoristas manauenses na última semana.

Manaus tem o corpo fechado contra radares, prefeito.

É natural que toda a população motorizada da cidade esteja “de ovo virado” com Serafim, como também se diz aqui. Como pode alguém mudar tudo assim, depois da população já estar acostumada a reduzir de 100 para 50km/h ali na Estrada da Ponta Negra, depois do clube Simbola, pra logo adiante voltar aos 100km/h?! Como pode um prefeitinho desses imitar o mau exemplo americano, de medir a velocidade dos motoristas onde bem entende e, covardemente, não avisar onde o motorista deve fingir que está seguindo a lei?

Se há, de fato, uma “indústria da multa” em Manaus, basta boicotá-la, ué! Como funcionaria? Simples: todo mundo respeitando as regras, parando no sinal fechado, respeitando o limite de velocidade. A maligna idéia de Serafim de encher os cofres da Prefeitura à custa da deseducação popular cairia por terra, no ato! Não há indústria que resista à falta de matéria-prima.

Neste país de faz-de-conta, professor que reprova é demitido. Serafim reformulou uma prova cujas questões já estavam decoradas pela classe inteira.

Prefeito, aceite um conselho: dê umas batidas contra a pirataria, o comércio ilegal de contrabando chinês e os malandros que cobram um real pra não arranhar o carro dos outros. Nem que pra isso sejam necessárias placas “educativas” do tipo “Proibido extorquir a 100m” ou “DVDs piratas apreendidos a 300m”. Blitze contra armas e drogas seria “Atenção! Esconda a maconha e as armas, polícia a 500m!”.

Esqueça os Durangos, Prefeito.

Reprove a turma inteira.

O homem dos cogumelos

De João Pereira Coutinho, na Folha de S. Paulo:

Contou-me uma amiga, professora de liceu, que decidira questionar a turma sobre as profissões a perseguir no futuro. A turma, composta por adolescentes de 12 e 13 anos, ofereceu resultados divertidos/ dramáticos/ alarmantes (ainda não consegui decidir).

Resumo da experiência: antigamente, as profissões desejadas oscilavam entre a medicina e a engenharia, com dois ou três astronautas e veterinários lá pelo meio. Hoje, a profissão do momento é outra. “Ser famoso”. Não interessa em quê. Interessa é chegar “lá”.

E as hordas de alucinados, verdade seja dita, tentam chegar “lá”. Todos os dias, quando espreito a tv, a espectáculo é repetitivo e deprimente: incontáveis nulidades, sem nada que as recomende, tentam em desespero chegar “lá”. A fama, que já durou 15 minutos, hoje dura 15 segundos; e os famosos, que em teoria seriam famosos por uma qualidade distintiva qualquer, são famosos por serem famosos, um círculo perfeito e perfeitamente imbecil.

É por isso refrescante ler a história de Grigory Perelman. Na passada semana, quando o Brasil assistia aos Big Brothers habituais, Grigory Perelman recusava um prémio de US$ 1 milhão por ter resolvido a conjectura de Poincaré.

Grigory Perelman, 44, é um matemático russo que, após breve carreira académica, abandonou a universidade para enfrentar a referida conjectura, um problema matemático que há mais de um século intrigava cientistas do planeta inteiro.

Em 2002 e 2003, publicou as suas propostas de resolução (na internet). Nos anos seguintes, matemáticos diversos procuraram confirmar a resolução proposta por Perelman. E confirmaram. Devido ao feito, a Fields Medal foi-lhe atribuída em 2006, uma espécie de prémio Nobel da Matemática. Perelman fez o que agora repetiu: recusou-a.

Foi o princípio da sua anti-fama que se converteu numa forma perversa de celebridade. Os jornalistas instalaram-se em frente ao apartamento onde ele vive (com a mãe). Os vizinhos fornecem alguns detalhes sobre a estranha criatura: os seus hábitos higiénicos (não corta unhas, cabelo ou barba) comportamentais (caminha sem levantar o olhar) e até alimentares (uma predileção desmesurada por laranjas). Uns dizem que o apartamento está infestado de baratas. Outros garantem que Perelman gosta de jogar pingue-pongue contra a parede.

E o próprio Perelman contribui para o mito, ao responder às solicitações telefónicas dos jornalistas com frases do tipo: “O senhor está a perturbar-me. Estou a apanhar cogumelos.”

A frase é boa. Tão boa que só em filme. Não admira, por isso, que a revista “Spectator” tenha dedicado um editorial notável ao caso, garantindo que Hollywood já está a preparar um “biopic” sobre o génio. Se a ideia era viver em paz, um mundo viciado na guerra da fama não permite semelhante luxo.

O que implica saber: na história de Grigory Perelman, a quem pertence a maior dose de loucura? A ele? Ou a nós?

Não é preciso ser um génio para responder a essa.

Menina é “esquecida” no Pinel por 4 anos

Texto recomendado no Twitter pela jornalista Elaize Farias.

LAURA CAPRIGLIONE / da Folha de S.Paulo – MARLENE BERGAMO /repórter fotográfica da Folha

A menina 23225 — é assim que ela está registrada nos prontuários médicos– foi internada aos 11 anos no Hospital Psiquiátrico Pinel. “Inteligente, agressiva, indisciplinada, sem respeito, fria e calculista”, escreveram dela os que a levaram à instituição-símbolo da doença mental de São Paulo.

Psiquiatras, enfermeiros e psicólogos do Pinel logo viram que o caso de 23225 dispensava internação. Deram-lhe alta. Mas, como a garotinha não tem quem a queira por perto, já são mais de 1.500 dias, ou 4 anos e três meses esquecida dentro da instituição de tipo manicomial.

A menina não é psicótica ou esquizóide; não é do tipo que ouve vozes ou vê o que não existe. Uma médica do hospital resumiu assim o problema: “O mal dela é abandono”.

Em termos técnicos, 23225 foi catalogada no Código Internacional de Doenças como sendo F91, que designa transtorno de conduta –desde agressividade até atitudes desafiantes e de oposição.

Miudinha, cabelos cacheados, 23225 tinha apenas quatro anos quando a avó colocou-a em um abrigo para crianças de famílias desestruturadas. O ciúme, diz a mulher, vai acabar com ela. Era só 23225 ver outra criança recebendo carinho e armava uma cena. Jogava-se no chão, chorava. Virou “difícil”.

BUQUÊ NO CHÃO

Até os sete anos, a menina não conhecia a mãe, que cumpria pena por roubo e tráfico de drogas. A mulher é usuária de crack. Reincidente, enfrenta agora outra temporada de sete anos atrás das grades.

O primeiro encontro das duas foi um desastre. Uma saía da Penitenciária Feminina, a outra a esperava, vestidinho branco, e um buquê de flores para entregar. A mulher xingou a filha e o buquê ficou no chão.

No dia 8 de novembro de 2005, o abrigo conseguiu que um juiz internasse 23225 na Clínica de Infância e Adolescência do Pinel, voltada para quadros psiquiátricos agudos. Os atendimentos duram no máximo 18 dias e o paciente é logo reenviado para seu convívio normal. Se cada 18 dias contassem como uma internação, a menina 23225 já teria sido internada 86 vezes.

DEITADA NA RUA

“Essa internação contraria toda e qualquer política atual de saúde mental, além de provocar danos irreversíveis, já que [a menina] vivencia cotidianamente a realidade de uma enfermaria psiquiátrica para casos agudos e é privada de viver em sociedade e de frequentar a escola”, relatou o diretor do Pinel, psiquiatra Eduardo Augusto Guidolin, em 8 de março de 2007.

À Folha, a avó da menina, evangélica da igreja Deus é Amor, disse que acaba de conseguir um emprego com carteira assinada –serviços gerais, R$ 480 por mês. “Não vou pôr a perder por causa dela”.

Certa vez, em fuga do Pinel, 23225 deitou-se no meio da rua em que mora a avó –queria morrer atropelada: “Eu tinha acabado de dizer que aqui ela não podia ficar”.

O diretor do Pinel pediu a todos os santos dos abrigos: à Associação Aliança de Misericórdia, Parque Taipas, à Associação Lar São Francisco na Providência de Deus, ao Instituto de Amparo à Criança Asas Brancas, de Taboão da Serra, ao Abrigo Irmãos Genésio Dalmônico, ao Abrigo Bete Saider, em Pirituba, à Associação Santa Terezinha, ao Abrigo Amen-4, entre outros, que arrumassem uma vaga para 23225 viver. A menina moraria no abrigo, poderia frequentar uma escola, e receberia atendimento psiquiátrico ambulatorial em um Centro de Atendimento Psicossocial mantido pela Secretaria Municipal de Saúde.

Não deu certo. Ou os abrigos alegavam não ter vagas, ou diziam não ter vagas para alguém com o “histórico Pinel”. Em duas oportunidades, dois abrigos concordaram em acolher a menina. Ela quis voltar para o hospital. Outras tentativas precisariam ser feitas.

PROTESTOS

O médico Guilherme Spadini dos Santos, então coordenador do Napa (Núcleo de Atenção Psiquiátrica ao Adolescente), do Pinel, escreveu ainda em 2005, em um relatório: “O isolamento social é extremamente prejudicial aos quadros de transtorno de conduta. O hospital psiquiátrico não é local para tratamento de longa duração. A paciente precisa ser encaminhada para serviço ambulatorial especializado para continuar seu tratamento e para que se promova sua reinserção na sociedade”.

Em 18 de dezembro de 2006, o diretor do Pinel informava que a menina já se encontrava em alta médica havia vários meses, permanecendo na instituição por ordem judicial. “Essa situação permanece porque a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social não consegue nos indicar um abrigo para onde se possa encaminhá-la. [A menina] está sendo privada de uma vida social e educacional a que tem direito, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente.”

Em 10 de novembro de 2009, Guidolin endereçou ao procurador regional dos direitos do cidadão do Ministério Público Federal, um ofício em que manifesta “indignação desta equipe técnica que por diversas vezes acionou o Judiciário solicitando a desinternação desses adolescentes que na ocasião precisavam apenas de um abrigo para moradia e dar continuidade a seu atendimento médico ambulatorial. Cabe à Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social definir o local de abrigamento.”

OUTRAS CRIANÇAS

No mesmo texto, o diretor dizia haver outras crianças “nessa mesma situação”.

Em 6 de agosto de 2008, o Pinel enviou ao Judiciário pedido de desinternação de 23225, e de dois outros adolescentes: L. (internado por ordem judicial em 3/2/2005, alta no mesmo ano) e A.C. (internada em 17/ 8/2007, em alta desde 12/11/ 2007).

Segundo funcionários do Pinel, até a última sexta-feira, apenas a adolescente 23255 seguia internada. Agora, a secretaria diz ter encontrado uma vaga para a menina.

Os nomes de 23255 e seus parentes foram suprimidos dessa reportagem, assim como quaisquer referências que permitam identificá-la, em atenção ao que estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Outro lado

“Faltam equipamentos do Estado para acolher e fazer o tratamento de pessoas com comprometimento psíquico”, disse o Reinaldo Cintra Torres de Carvalho, juiz da Vara da Infância e da Juventude do Foro da Lapa, que cuida do caso da menina 23225. De acordo com o juiz, ela não tem condições de permanecer em abrigo com outras crianças, sem acompanhamento especial de um cuidador constante. “Quando está em crise violenta, não há como contê-la”, disse.

“Já tentamos dois abrigos e o resultado foi muito ruim. Ela quebrou coisas, machucou a si e a outras pessoas. Por isso, foi mandada de volta para o Pinel, onde recebe tratamento segundo as possibilidades do Estado. Nas atuais circunstâncias, o Pinel é o melhor lugar para ela.”

Sobre a negativa dos abrigos em receber a menina, o juiz afirmou: “Ninguém a aceita pelo histórico dela”.

Ele concorda que toda a situação configura um desrespeito em relação ao Estatuto da Criança e Adolescente, “mas enquanto não houver os equipamentos ou outro lugar, ela tem de permanecer lá. Eu sou inerte. Não posso tomar a frente, tenho que esperar que algum órgão tome a iniciativa”.

Secretaria da Saúde

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde, à qual o Pinel está subordinado, disse que “obedece decisão do Poder Judiciário para manter a paciente em sua enfermaria de agudos”.

A secretaria e o hospital afirmam que o local indicado pela Justiça não é adequado, uma vez que o transtorno de conduta da paciente não justifica, sob o ponto de vista clínico, uma internação psiquiátrica.

“Tanto que o hospital vem trabalhando no sentido de procurar alternativas de moradia e tratamento da paciente em outros locais, como abrigos e Caps [Centros de Atenção Psicossocial].”

Prefeitura

A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social disse por intermédio de sua assessoria de imprensa que a menina 23225, até 2005, estava acolhida em um abrigo. Manifestava “comportamento por vezes agressivo”. “Seu atendimento passou a ser isolado, em uma edícula, acompanhada de uma mãe social.”

Segundo a assessoria, a secretaria vem buscando desde 2009 atuar “com o Hospital Pinel, a Vara da Infância da Lapa e o Centro de Atenção Psicossocial Infantil”, em busca de “um atendimento integral à adolescente”. “A secretaria e o abrigo R. conseguiram abrir uma vaga para a menina e já se iniciou o processo de transferência do Hospital Pinel para um abrigo.”

A vinheta do ETC Manaus