Outro dia, acompanhando o puxa-e-encolhe político sobre a candidatura de Ciro Gomes (PSB) à Presidência, procurei organizar um histórico recente da versão local de política que é feita no país, aqui com cores muito mais fortes e com personagens muito menos diversificados. Ciro, ex-ministro de Lula e aliado de primeira hora do presidente ao longo dos dois mandatos do PT na Presidência, vem provando o gosto de fazer parte da base lulista em época eleitoral.
Nada de novo no front nem no modo petista de ‘dividir’ o poder. Ciro é hoje o fiel da balança, e sua presença na corrida, apesar de incomodar o Planalto, é também a sobrevivência da candidatura de Dilma. Pesquisa CNT/Sensus mostrou que, com Ciro fora da disputa, Serra pode levar a eleição já no primeiro turno. Os votos de Ciro migrariam mais para Serra do que para Dilma.
Sobre a pressão que Ciro vem sofrendo — e vem fazendo — quanto ao projeto de governo de Lula, há alguns detalhes que precisam ser lembrados. Há quem diga que não se prevê o futuro, mas o passado (e o passado recente) serve como boa bola de cristal para certas coisas. E localmente, o passado recente tem um nome: traição. Senão veja só.
Em 2004, PCdoB e PT, em nível nacional, acertaram uma aliança na qual o PT e a base aliada apoiariam a candidatura de Vanessa Grazziotin. Como primeiro fecharam o acordo e só depois foram conversar com quem devia cumpri-lo, terminou dando tudo errado. Lula despachou para Manaus o ministro Aldo Rebelo, do PCdoB, para conversar com os aliados e tentar convencê-los de que todos deveriam apoiar Vanessa.
Eduardo Braga saiu da cidade para não receber Aldo. Já Serafim o recebeu, e disse que não fazia parte do acordo, mantendo a sua candidatura. Essa desobediência de Braga e Serafim teve troco. Em relação a Braga, consta que Lula teria dito para Dirceu: “Põe o Albatroz pra voar” — e aconteceu a Operação Albatroz, que colocou o governo Braga de joelhos diante do Planalto.
Serafim recebeu o troco ao longo do seu Governo e nas eleições de 2008.
Em 2006, Lula chamou todos e procurou conciliar os diversos interesses. Queria todos juntos. E a primeira mexida foi convencer Alfredo a não ser candidato ao governo, abrindo mão em favor da reeleição de Braga, indo para o Senado. Para ter Gilberto a seu lado Lula ofereceu a embaixada do Brasil em Portugal. Gilberto não aceitou. Foi feito, então, um amplo acordo pelo qual Braga era candidato à reeleição, com Gilberto para o Senado, mas com outra aliança, sem candidato a Governador, apoiando informalmente Braga, tendo candidato ao senado Alfredo Nascimento.
Gilberto foi traído, deixado à margem do caminho pelo próprio companheiro de partido. Alfredo terminou circulando por todo canto, inclusive no palanque de Amazonino, que jogou Pauderney, seu candidato ao Senado, na água. Àquela altura, para viabilizar a sua reeleição, Braga assumiu compromissos de apoiar Serafim em 2008 e Alfredo em 2010. Em 2006, a grande vítima da trairagem foi o Boto, que saiu das eleições cheio de punhais nas costas.
Em 2008, Braga fez tudo para derrubar Serafim. Lançou Omar e foi seguido por Alfredo, com o compromisso que qualquer que fosse o resultado das eleições em 2008, em 2010 teria Alfredo como candidato ao Governo. A aliança que enfiou alguns punhais nas costas de Serafim foi ungida por Lula.
Agora, em 2010, Braga tira da reta e não quer cumprir o acordo com Alfredo que ameaça e pede a intervenção do Presidente que chama Braga. O que está sendo decidido agora é nas costas de quem vão enfiar o punhal. Parece que a costa da vez para receber um belo punhal é o Alfredo Nascimento.
Fiquemos de olho às viagens da comitiva governamental do Amazonas. Se por motivo incerto e não sabido, Braga sumir por uns dias, você já pode imaginar o que ocorreu.