Pode parecer que há muito a ser falado sobre a inauguração do viaduto da Bola do Coroado, ontem, pelo prefeito Amazonino Mendes. Não é verdade. Alfredo, Omar e Braga, além de todos os satélites humanos girando em suas órbitas, novamente fizeram côro. E como pode um côro de 20 anos ainda ser notícia?
Mas há o que ser comentado. Quem inaugura as obras é o dono delas. Pode ser injusto, mas é fato. Para os motoristas, a verdade é que pouco importa quem começou ou quem terminou a obra. O que importa é que ela esteja entregue. Construir discursos em torno do fato depende somente da capacidade dos envolvidos de fazer política.
Amazonino, nesse ponto, fez sua parte. Encontrou na mesa de seu gabinete um pires com um pedaço de queijo e uma faca ao lado. Pegou a faca e cortou o queijo. Quis a cidade que fosse ele o cortador do queijo, e não quem botou a faca e o queijo ali.
O que chamou atenção, a mim que não acompanhei o foguetório da inauguração, foi a descortezia do prefeito com seu antecessor, o responsável pela maior parte da obra. Saltava aos olhos de todos, durante a administração passada, a dificuldade para tocar a obra do Coroado, que vinha embargada pela Justiça. Foram também vários meses até que fosse levantado o dinheiro para a construção da obra, junto à Corporação Andina de Fomento — CAF.
Mas é de extremo mau gosto, especialmente a um político que repete já estar fora da política, não reconhecer o esforço do outro, mesmo que adversário. Amazonino podia, em homenagem a Serafim, falar ao menos a verdade, já que elogiar o antecessor e lhe dar os devidos méritos é impossível. Mas o comportamento do prefeito depõe diretamente contra a ladainha que ele próprio repete há meses, de que não vai mais disputar cargos eletivos.
Amazonino mente, e muito. Em política, é proibido elogiar adversários, é mais sábio apelar para o argumento de que o outro não fez mais do que sua obrigação. Tudo bem. Mas daí a mentir, é outra história.
Mas não poderia ser diferente. Falamos de Amazonino. A inauguração da obra do Coroado era um dos seus poucos dias de glória em mais de um ano de mandato. A Amazonino o que é de Amazonino. Se pela vontade do povo Serafim não pôde inaugurar a obra que projetou e encaminhou, paciência. Talvez deva ter faltado investimento do ex-prefeito nos esforços de sua equipe, a famosa “faca entre os dentes”, a atitude, mais política do que técnica, de perseguir uma meta.
Não deixa de ser sintomático, também, que Amazonino tenha exibido, num telão durante a festa, um vídeo de sua campanha fracassada de 2004, quando perdeu para o próprio Serafim. Aqui sejamos justos: se Serafim não pode reclamar de não ser o prefeito no dia da inauguração, Amazonino também não pode dizer que a obra é sua porque propôs coisa parecida 6 anos atrás. Até porque isso dá margem para que, daqui a seis anos, quando alguém voltar a contruir creches em Manaus ou levar internet à periferia, Amazonino diga que prometeu isso em 2008.
O dado irônico dos dois únicos dias, em mais de um ano, em que Amazonino pôde sair de sua casa no Tarumã para enfrentar o povo sem medo de ser feliz foram fruto de obras e/ou projetos de Serafim: a passagem de nível da Paraíba e o viaduto do Coroado. Unidos ao viaduto Miguel Arraes, as três obras formam o que Serafim idealizou como o Complexo Efigênio Sales.
Daqui, posso apenas dizer que ontem o dia era de deixar Amazonino falar. Em política não se elogia adversário, mas se dá a devida folga para que ele comemore sua segunda vitória em um ano. Amazonino não é meu adversário, é apenas parte de um grupo político mais famoso — inclusive nacionalmente — pelas suspeitas de corrupção do que pelas realizações. E olhe que são quase 30 anos de história. Ir contra o grupo de Amazonino na política não é fazer política, é querer gente mais bem afamada no comando das coisas.
Uma das críticas mais recorrentes do prefeito é chamar Serafim de mentiroso. Esqueça que você não gosta do Serafim ou não gostou de sua administração, se for o caso. Mas falemos a verdade, você precisaria reler jornais ou pesquisar no Google pra chegar à conclusão sobre qual dos dois é famoso por ser mentiroso?
Ontem era o dia de Amazonino fazer jus à sua própria história e brindar, junto ao seu criador e suas criaturas, uma vitória. Para a população, repito, saber quem é mais responsável pelas obras do que o outro faz pouca diferença. Deveria fazer, principalmente num ano eleitoral, mas não faz.
Há mais de um ano Amazonino comete um dos piores mandatos de que se tem notícia da cidade. Pouco se importando com isso, passou exatamente o mesmo tanto de tempo falando mal de seu antecessor, no mais das vezes com mentiras dignas de um aprendiz de malandro, daqueles que são desmentidos no dia seguinte.
Mas ontem Amazonino tinha um salvo-conduto para repetir suas mentiras. A vitória era indiscutivelmente sua, e convenhamos, Amazonino não tem tido muitas.
Então, apenas pra dar uma folga ao homem, deixa o homem mentir.
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