BR-319, por onde vai sangrar a Amazônia

Por Daniela Chiaretti

Nos últimos dias de março um avião sobrevoou o sul do Amazonas acompanhando, lá embaixo, um risco de terra rodeado de floresta por todos os lados. Supõe-se que o governador Eduardo Braga (PMDB-AM) e o ministro dos Transportes Alfredo Nascimento (PR-AM) tenham espiado pela janelinha como a natureza comeu a BR-319, construída pelo governo militar na década de 70 e por onde o último ônibus de linha passou há mais de vinte anos. A pavimentação da rodovia, uma obra que está no PAC, foi orçada em R$ 600 milhões e é considerada uma temeridade por ambientalistas e cientistas, tem potencial para ser a nova dor de cabeça ambiental do governo Lula. A estrada, no caso, parece ser menos uma via de transporte que um forte instrumento político.

Que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes quer o asfalto no meio da floresta, ninguém duvida. O processo, brecado em setembro pelo ministro do Meio Ambiente Carlos Minc (que exigia a criação de um cinturão verde para minimizar o estrago), está a todo vapor. Um EIA-Rima de umas três mil páginas produzido por uma equipe mutidisciplinar da Universidade Federal do Amazonas deu entrada no Ibama em 12 de fevereiro. Pouca gente viu (e leu) o tijolão difícil de baixar na internet, mas o Diário Oficial da União acaba de publicar a data das audiências públicas previstas para discutir a obra em Porto Velho, em Rondônia (23/04), e Humaitá (22/04), Careiro da Várzea (27/04) e Manaus (28/04), no Amazonas. Parece uma corrida contra o tempo para liberar o rolo-compressor.

O ministro Nascimento não faz segredo que viabilizar a Porto Velho-Manaus é a “obra de sua vida”. Ele começou a carreira política em Manaus, foi eleito prefeito duas vezes, ocupou várias pastas estaduais e elegeu-se senador pelo Amazonas. Sabe perfeitamente que a população da cidade sofre de isolamento crônico e quer a estrada para se sentir ligada ao Brasil. Obstruí-la pode ser suicídio político. O desejo manauara é absolutamente legítimo, o problema é o reverso da história: o impacto de o Brasil ligar-se a Manaus.

Antes da crise financeira, Manaus vinha crescendo a ritmo chinês, o PIB é alto, a qualidade de vida, interessante, a criminalidade, baixa. Roubo de automóveis praticamente não tem até porque não dá pra escoar o furto. Tornar a cidade acessível no pós-boom das usinas do Madeira sugere inevitável inchaço e consequente pressão por saúde, educação, habitação e emprego que não se sabe se o poder público terá condições de suprir. Isto sem citar o efeito da ocupação às margens da estrada. O cientista Philip Fearnside, celebridade do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, não cansa de alertar para o alto risco de pavimentar a estrada e a baixa garantia que os danos serão evitados.

Os opositores à estrada dizem que, de garantia, só a pavimentação da candidatura Nascimento ao governo do Estado. Braga, o governador que gosta de ser reconhecido como o “Schwarzenegger da Amazônia” por ter feito uma gestão bastante “verde” no Estado mais preservado da região, já oscilou bem neste episódio. No início chegou a discutir com o BNDES a viabilidade de uma ferrovia, com impacto ambiental indiscutivelmente menor. Mas na eleição à prefeitura de Manaus, em 2008, aliou-se a Nascimento. A estrada veio de brinde e o projeto da ferrovia foi esquecido. Braga, que almeja um lugar no Senado, fez o bolsa-floresta e criou muitas unidades de conservação, mas vive o contrasenso de apoiar um projeto com potencial destruidor de floresta e muita emissão de gases-estufa em tempos de crise climática.

A pavimentação da 319 é polêmica de nascimento. Já quiseram jogar asfalto sem precisar de licenciamento alegando que a estrada já existia, então, pra quê EIA-Rima? O simples anúncio da pavimentação de uma estrada na Amazônia é senha para especulação e desmate – vide o exemplo da BR-163, a Cuiabá-Santarém. Rodovias na região deflagram o clássico “desmatamento-espinha-de-peixe” com a abertura nervosa de rotas vicinais. No mapeamento de estradas não-oficiais da Amazônia feito em 2003 pelo Imazon e atualizado em 2007, há 330 mil quilômetros de estradas de todo tipo na região. São caminhos abertos por madeireiros, garimpeiros e pecuaristas, às vezes (mas só às vezes) em arranjo com prefeituras. A conta é assim: para cada quilômetro de estrada oficial na Amazônia existem outros trinta quilômetros feitos por agentes privados. Há uma malha rodoviária extensa e paralela em regiões de adensamento como o leste do Pará ou o norte do Mato Grosso. Neste contexto, a região da BR-319 não é das mais efervescentes da floresta. Bem ao contrário.

Há décadas a 319 está deteriorada – a exceção são as pontas de seus 880 quilômetros, nas cercanias de Manaus e Porto Velho. As pontes caíram. Na seca leva-se três dias, com sorte, para sair de um lado e alcançar o outro. Por ali só circulam aventureiros ou o pessoal da Embratel que vai fazer manutenção nas antenas. Nos 400 quilômetros do meio, o foco do Rima, existem apenas 18 fazendas. Atividade econômica só perto de Humaitá, no entroncamento com a Transamazônica, ou mais para o Norte, perto de Careiro. Há 150 famílias vivendo ali, umas 500 pessoas. E só.

Uma das justificativas para a obra é facilitar o transporte de cargas da Zona Franca para o Sul-Sudeste. Estudos demonstram que a cabotagem pela costa é o sistema mais barato seguido pela hidrovia do Madeira e que a 319 será a mais cara entre as opções. O EIA-Rima aposta que o governo conseguirá fazer na 319 o que não conseguiu até agora na Amazônia: conter o desmatamento e estar presente. Há poucos dias, Braga reuniu representantes das principais ONGs e os convidou a ajudarem na implementação do mosaico de unidades de conservação. Alguns ambientalistas estão seduzidos pela proposta, outros ponderam que Braga não fez herdeiros verdes no Estado e que se a pavimentação é inevitável, melhor ajudar a fazer direito. A voz discordante vem do Greenpeace. “Ninguém é contra uma estrada perfeita. A estrada que transporta madeira ilegal também leva médico e professorinha”, diz o coordenador da campanha amazônia da ONG, Paulo Adário. O problema, aponta, é que aqui só há ameaças. “A pavimentação da BR-319 tende a ser uma veia aberta por onde a Amazônia vai sangrar”.

* Daniela Chiaretti é repórter especial em São Paulo

Fonte: Valor Econômico

  • Luiz Jr

    December 13th, 2009

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    É muito chato, em Manaus, ter uma opinião contra a BR-319. As pessoas estão o tempo todo pensando apenas em poder viajar de carro, aproximar-se de onde lhe flui a cultura (RJ, SP, etc), dizer-se integrado ao Brasil e almejando que todos os preços se tornem cêntimos dos atuais …
    A ZFM já evoluiu sua logística inteira e é hoje totalmente adaptada e eficiente com transportes aéreos e balsas, e isso sem precisar sacrificar a natureza.
    Quem mantem-se no egoísmo de achar que é besteira pensar na preservação quando se tem a chance de estar perto do Sul, deveria logo mudar-se pra lá, pois não faria falta nenhuma deixar de morar por aqui.

  • Augusto

    December 13th, 2009

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    Realmente, é egoísmo enorme pensar apenas em si próprio quando se discuti a preservação ambiental. Acredito que seja muito fácil para pessoas como agente, que vivemos em uma bolha, protegidos pela modernidade: energia, comodidade, internet, televisão, fácil acesso a meios de transportes modernos (avião, ônibus e balsas), ou seja, todos os benefícios que e o desenvolvimento sócio-economico nos proporciona, falar sobre preservação ambiental.
    Mas acredito que se nos colocássemos no lugar das pessoas que moram ao longo dessa rodovia, lá no extremo isolamento, (400 km de Manaus e 400 km de Porto Velho), acredito que teríamos outras opiniões. Afinal, se imaginarmos que para ter acesso a educação são necessários mais de 8 horas de viagem, para ter acesso a saúde básica 24 horas, ou uma emergência que precise ir para Manaus 48 horas, teríamos outra opinião. Imagine-se diante da seguinte situação: seu filho (seu maior tesouro) precisa ter acesso a saúde urgente, mas para que você consiga dar isso à ele, você tem que passar por carona (rodoviária), pegar um barco, depois chegar numa cidade como Manaus (sem local para se hospedar) e mendigar atendimento, será que a vida dele pode esperar.
    Acredito, que os egoístas que querem a facilidade e os benefícios do desenvolvimento, estes sim, devam se mudar lá para meio da floresta amazônica e lutar pela preservação ambiental de perto, abdicando de sua comodidade, em prol da sustentabilidade ambiental.
    Contudo, não acredito que a sociedade hipócrita em que vivemos tenha coragem para tomar atitudes assim, afinal, muitas pessoas que se dizem preocupadas com o meio ambiente são as primeiras a sacrifica-lo em suas próprias residências deixando a luz acesa quando não é mais necessária a utilização, deixando seu computadores ligados para fazer download de música ou com simples finalidade de marcar presença no bate-papo, e até deixando a torneira ligada enquanto se escova os dentes. E observe, que eu não estou falando nem de reciclagem, coleta de lixo seletiva, evitar o desperdício de papel, estou falando apenas de detalhes de milhões de pessoas que vivem na cidade poderiam se preocupar o nosso planeta.
    PARA PENSAR EM PRESERVAÇÃO, COMECE MUDANDO SUAS ATITUDES, SEUS CONCEITOS, POIS ESSAS MEDIDAS NÃO DEPENDEM DE POLITICA NEM DE AUDIENCIA PÚBLICA, DEPENDE APENAS DE VOCÊ.

  • Djalma

    December 15th, 2009

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    Concordo com o Augusto, gostaria de ver um desses “ecos” se morassem mais ou menos onde moram hoje os Catarinas!!!! em uma urgencia, eles se locomoverem até Humaitá ou até Manaus???? Tem mais é que asfaltar mesmo…. e convidar esses ecos pra ajudarem à fiscalizar!!!!E pra encerrar, eu acho que os 26 Estados e o Distrito Federal tem que ser interligados e parar com esse negócio de Indio fechar a Br 174 e outras tribos cobrarem pedágio para o cidadão poder passar. Onde está o direito de ir e vir??? Afinal estamos nos Estados Unidos do Brasil ou não estamos???? Porque o Amazonas tem que ficar isolado do resto do Brasil???

    das

  • Marcos

    December 27th, 2009

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    Defendo a Floresta em Pé.
    Acho que todos nos “brasileiros” não devemos mais acreditar em promessas de Ministros ou de qualquer outro político que afirmam manter a preservação da floresta.
    Um exemplo é o estado de Roraima, onde dizimaram a floresta em nome de um “caro” “desenvolvimento”.

    Esses políticos apenas visam seus interesses pessoais. Não estão se lixando para a Floresta. Estão, de fato fazendo o jogo dos poderosos e(madeireiros) da região para ganhar com isso. A população é a grande prejudicada no final das contas.
    O que sobrar no final será uma terra imprestável e seca.

    Por mim, seria melhor entregar a Amazônia do que acabar com ela. Porque no fim, todos nós sairemos perdendo em favor de um falso ideal desenvolvimentista.
    Criar algo do tipo “Patrimônio Mundial Ambiental”.

    Aviso aos povos Amazônicos:
    “A população da Amazônia é quem deveria se acostumar com o fato de estarem em comunhão com a floresta, criando uma forte identidade com ela. Assim vocês seriam dignos de pertencer a esta terra.”

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