No dia 29 de abril de 2008, às 9h38 da manhã, a jornalista Loredana Kotinski, que na ocasião prestava serviços para a Prefeitura de Coari, ligou para o secretário Haroldo Portela, um dos homens de confiança do prefeito Adail Pinheiro, preocupada. Loredana perguntava se Haroldo tinha lido uma matéria do jornal Diário do Amazonas. Haroldo disse que sim, que estava com o jornal nas mãos. Então Loredana contou um babado: “A Betsy te falou que o Ronaldo Tiradentes descascou em cima disso na rádio?“. Haroldo entendeu pouca coisa, Loredana teve que repetir: “O Ronaldo Tiradentes descascou em cima disso na rádio“, contou, relatando uma série de ataques virulentos feitos pelo radialista contra o prefeito. Haroldo reclamou: “Pô, e ele falou agorinha com o prefeito lá“.

Betsy Bell, colega de Loredana na assessoria prestada a Adail, ouvira Ronaldo “esculhambando” com o prefeito, poucos minutos depois dos dois, Ronaldo e Adail, terem conversado amistosamente.

Era uma terça-feira, o trânsito devia estar carregado nas imediações da Av. André Araújo. Mas Haroldo precisou de menos de duas horas para chegar à rádio CBN e resolver o problema. Às 11h17 da manhã, ligou para Adail. “Saímos agora do Ronaldo, eu e a Bell“. Adail quer saber como foi, e Haroldo conta: “E aí conversamos na boa, legal. Ele disse… não, eu dei a notinha, fiz um comentário leve, sutil, que eu queria que ele viesse falar comigo sobre o negócio lá de Brasília e tal, meu amigo lá… na brincadeira“.

Haroldo conta que Betsy fez uma brincadeira com Ronaldo, perguntando se o Robson [Robson Tiradentes, irmão e parceiro de Ronaldo na rádio CBN] não tava “passando direito as coisas” pra ele, supostamente numa alusão ao famoso “cala-boca” (dinheiro) com que muito político trabalha por aí nas suas relações com a imprensa. Haroldo conta a Adail que Ronaldo ficou “meio assim” com a brincadeira de Betsy, e diz que acha que Robson está enganando o irmão. “No fundo, no fundo ele [Ronaldo] sabe que o Robson tem as coisas dele pelo jornal, pela rádio“, analisa Haroldo. Adail concorda: “Tem.

Haroldo e Adail estão certos, Robson tem “as coisas dele” pela rádio e pelo jornal — um doce pra quem adivinhar qual o jornal. Um exemplo. No dia 7 de março de 2007, mais de um ano antes, às 17h03, Haroldo e Robson se falam. Haroldo conta que os vereadores da oposição de Coari tiveram negada no STJ uma ação contra Adail. Robson nem deixa Haroldo terminar: “Deixa comigo, me passa amanhã“. Haroldo pede que a notícia saia no jornal e na rádio. “Dou um destaque amanhã“, garante Robson. No dia seguinte, nas ondas da aguerrida CBN e nas páginas do jornal Amazonas Em Tempo, ganhava destaque a notícia da vitória de Adail em Brasília.

Mas voltemos à conversa entre Haroldo e Adail, 1 hora e 39 minutos depois da “descascada” de Ronaldo pra cima de Adail no ar (aquela “descascada” captada por Betsy Bell, feita porque Ronaldo queria que Adail fosse lá falar com ele sobre “aquele negócio de Brasília”). Haroldo conta que Ronaldo, minutos antes corajoso e agressivo, agora estava manso. “Ele [Ronaldo] disse… não, pode falar pro Adail que tá tudo tranquilo, o Adail é gente boa, gente nossa, eu falei aquilo mesmo mas nem li a matéria toda do Diário, só li mesmo um pedacinho, um trecho que ele foi citado…

Haroldo então conta que Ronaldo fez o agá, dizendo que ia mandar um repórter a Coari, pra fazer uma “matéria boa do município todo, tal“. Adail gosta da ideia: “Acho que a Bell deveria fazer uma agenda positiva, rapidinho aí, e levasse lá pro Fred Lobão fazer um comentário sobre a ida do Lula, que já foi três vezes no município do interior, parabenizar a administração e tal.” Fred Lobão é outro aguerrido defensor do jornalismo imparcial da capital amazonense, apresentador da TV A Crítica e aspirante a político. Fred tem a confiança total de Adail: “E o Fred faz“, garante o prefeito.

Haroldo retoma o foco da conversa: “Lá tá tudo ok, tá tudo certo, na CBN não tem mais“. O chefe elogia o secretário: “É isso aí, é assim que se faz.” Mas no mundo do jornalismo imparcial da CBN local (elogiada por Fausto Souza e Sinésio Campos) e do Amazonas Em Tempo (elogiado por todos os deputados amazonenses) tudo tem um preço, e Haroldo se desdobra pra engatar o assunto e falar da “dolorosa” apresentada pela CBN. Haroldo precisa contar que Ronaldo prometeu falar das contratações de médicos em Coari na matéria do Amazonas Em Tempo, pra que Adail se anime e ele possa passar a fatura: “Inclusive a filha dele é dentista formada, e ele disse… pô cara, a minha filha todo dia me pede emprego, pede pros meus amigos que são…” Adail entende o recado e interrompe Haroldo: “Pronto, taí, tá fechado!“. Mas Haroldo é honesto, por assim dizer, e avisa a Adail que Coari não está precisando de dentistas, não há vagas abertas. Adail resolve na hora: “Mas tudo bem meu amigo, eu abro uma vaga pra ela!

Às 12h40, pouco mais de uma hora depois, Samia Tiradentes, filha de Ronaldo, está com emprego garantido na Prefeitura de Coari. Haroldo liga e dá a notícia ao intrépido defensor do jornalismo independente. “Eu falei pra ele [Adail] da questão da dentista… Ele consultou a secretária de saúde… e realmente tá precisando, pra contratar de imediato“, conta Haroldo a Ronaldo. A Prefeitura de Coari tem um dos sistemas de recursos humanos mais modernos e personalizados do país: Haroldo pede apenas que Samia monte o currículo e deixe na rádio, que ele próprio, secretário municipal de Coari, vai apanhar pessoalmente e encaminhar para a Prefeitura, que agora, por pura mágica, está precisando de dentista — pra ser mais exato, de uma dentista.

Ronaldo se anima todo: “Eu vou pedir pra ela montar agora, já“. Mas comete uma pequena indelicadeza e pergunta pelo salário que a filha vai ganhar: “Você viu quanto é a baba lá, não?“. Haroldo não viu, mas promete perguntar e avisar ao radialista. Os dois ficam de se falar mais tarde e se despedem.

Como Ronaldo Tiradentes não responde meus emails, censura comentários verdadeiros, publica comentários falsos em seu recém-criado blog e não respeita pedidos de Direito de Resposta, protocolados na recepção da rádio, ficam aqui algumas perguntas a Ronaldo sobre as conversas do dia 29 de abril de 2008, com Haroldo Portela e Betsy Bell.

  1. A senhora Samia Tiradentes trabalhou para a Prefeitura de Coari como dentista?
  2. Se sim, quando ocorreu a nomeação? Ela ainda está atendendo o povo coariense nos consultórios públicos do município?
  3. Aquele negócio de Brasília, sobre o qual você queria a ajuda de Adail naquela manhã, foi resolvido?
  4. Seria correto afirmar que naquela manhã você chantageou o prefeito de Coari?
  5. Afinal, quanto era a “baba” da sua filha lá?

Se Ronaldo Tiradentes quiser, posso também reenviar as perguntas sobre o negoção que seu irmão fez com a Prefeitura de Coari agora, em 2009. Aquele pelo qual a Prefeitura pagaria R$ 4,3 milhões pelo aluguel de um trio elétrico da AMZ Produções, até dezembro.

Tem muita gente me perguntando por que tenho falado tanto de Ronaldo Tiradentes, e a partir de quando eu teria decidido exibir o que todo mundo da imprensa sabe, mas ninguém quer divulgar por falta de paciência pra arrumar um inimigo sociopata à toa.

É simples: Foi no exato momento em que fui chamado no ar, durante a programação local da rádio CBN, uma das marcas mais respeitadas do jornalismo nacional, de “marajá”, “pena de aluguel”, “redator de araque” e acusado de receber salários de órgão público sem trabalhar. Isso ocorreu comigo, numa conversa em que Ronaldo Tiradentes e Durango Duarte — repito, no ar — disseram que eu estava “recebendo um trocado” do prefeito de Manaus para manter este blog. Sobre Durango Duarte, vou publicar também, nas próximas horas, uma conversa quase idêntica à relatada acima, dele com o mesmo Haroldo Portela, sobre o mesmo assunto: a inclusão de parentes e amigos do publicitário e assessor de Amazonino na folha de pagamento de Coari.

Agora, por exemplo, vale a mesma explicação para a publicação, hoje, dessa conversa de 2008. Eu a vi, como toda imprensa viu, há muito tempo. Não tenho a menor obrigação de publicá-la, pois não sou jornalista, e todos os jornalistas de Manaus sabem dos negócios de Ronaldo com a turma de Adail Pinheiro — estes sim, tinham a obrigação de publicar, por dever do ofício. Por que eu publiquei, então? Simples: Ronaldo está publicando comentários no seu blog, falsamente meus, e reincidindo no mesmo erro que cometeu na rádio, me acusando (ou deixando que me acusem) de ter recebido salários da Prefeitura sem trabalhar. O erro é o mesmo, a resposta é a mesma. Mas eu vou variando, ao contrário dele, porque ainda tenho muita coisa pra contar. É só ficar assistindo.

O malandro, qualquer outro malandro, que vier me acusar em público de ser malandro, vai ter de me aturar também.