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Outro dia, acompanhando o puxa-e-encolhe político sobre a candidatura de Ciro Gomes (PSB) à Presidência, procurei organizar um histórico recente da versão local de política que é feita no país, aqui com cores muito mais fortes e com personagens muito menos diversificados. Ciro, ex-ministro de Lula e aliado de primeira hora do presidente ao longo dos dois mandatos do PT na Presidência, vem provando o gosto de fazer parte da base lulista em época eleitoral.

Nada de novo no front nem no modo petista de ‘dividir’ o poder. Ciro é hoje o fiel da balança, e sua presença na corrida, apesar de incomodar o Planalto, é também a sobrevivência da candidatura de Dilma. Pesquisa CNT/Sensus mostrou que, com Ciro fora da disputa, Serra pode levar a eleição já no primeiro turno. Os votos de Ciro migrariam mais para Serra do que para Dilma.

Sobre a pressão que Ciro vem sofrendo — e vem fazendo — quanto ao projeto de governo de Lula, há alguns detalhes que precisam ser lembrados. Há quem diga que não se prevê o futuro, mas o passado (e o passado recente) serve como boa bola de cristal para certas coisas. E localmente, o passado recente tem um nome: traição. Senão veja só.

Em 2004, PCdoB e PT, em nível nacional, acertaram uma aliança na qual o PT e a base aliada apoiariam a candidatura de Vanessa Grazziotin. Como primeiro fecharam o acordo e só depois foram conversar com quem devia cumpri-lo, terminou dando tudo errado. Lula despachou para Manaus o ministro Aldo Rebelo, do PCdoB, para conversar com os aliados e tentar convencê-los de que todos deveriam apoiar Vanessa.

Eduardo Braga saiu da cidade para não receber Aldo. Já Serafim o recebeu, e disse que não fazia parte do acordo, mantendo a sua candidatura. Essa desobediência de Braga e Serafim teve troco. Em relação a Braga, consta que Lula teria dito para Dirceu: “Põe o Albatroz pra voar” — e aconteceu a Operação Albatroz, que colocou o governo Braga de joelhos diante do Planalto.

Serafim recebeu o troco ao longo do seu Governo e nas eleições de 2008.

Em 2006, Lula chamou todos e procurou conciliar os diversos interesses. Queria todos juntos. E a primeira mexida foi convencer Alfredo a não ser candidato ao governo, abrindo mão em favor da reeleição de Braga, indo para o Senado. Para ter Gilberto a seu lado Lula ofereceu a embaixada do Brasil em Portugal. Gilberto não aceitou. Foi feito, então, um amplo acordo pelo qual Braga era candidato à reeleição, com Gilberto para o Senado, mas com outra aliança, sem candidato a Governador, apoiando informalmente Braga, tendo candidato ao senado Alfredo Nascimento.

Gilberto foi traído, deixado à margem do caminho pelo próprio companheiro de partido. Alfredo terminou circulando por todo canto, inclusive no palanque de Amazonino, que jogou Pauderney, seu candidato ao Senado, na água. Àquela altura, para viabilizar a sua reeleição, Braga assumiu compromissos de apoiar Serafim em 2008 e Alfredo em 2010. Em 2006, a grande vítima da trairagem foi o Boto, que saiu das eleições cheio de punhais nas costas.

Em 2008, Braga fez tudo para derrubar Serafim. Lançou Omar e foi seguido por Alfredo, com o compromisso que qualquer que fosse o resultado das eleições em 2008, em 2010 teria Alfredo como candidato ao Governo. A aliança que enfiou alguns punhais nas costas de Serafim foi ungida por Lula.

Agora, em 2010, Braga tira da reta e não quer cumprir o acordo com Alfredo que ameaça e pede a intervenção do Presidente que chama Braga. O que está sendo decidido agora é nas costas de quem vão enfiar o punhal. Parece que a costa da vez para receber um belo punhal é o Alfredo Nascimento.

Fiquemos de olho às viagens da comitiva governamental do Amazonas. Se por motivo incerto e não sabido, Braga sumir por uns dias, você já pode imaginar o que ocorreu.

O Malfazejo tem tido poucas atualizações nos últimos dias. A quem não deixou de visitá-lo, peço desculpas, mas é por um bom motivo.

Bons motivos, aliás. Na noite desta segunda, participei, eu e outros integrantes do movimento Manaus de Olho, de uma reunião sobre a taxa do lixo. Sindicalistas, representantes de associações de donas de casa, sociólogos, representantes de associações de moradores, advogados, assessores parlamentares etc.

As ações do grupo Manaus de Olho, uma iniciativa voluntária que ganhou a adesão de 630 manauaras, vão continuar. Com a volta dos vereadores ao batente, recomeça nossa cobrança e é finalizada a iniciativa que vai dar aos atos da Câmara a transparência que ela deve à sociedade, mas que se nega a cumprir.

Como muitos sabem, ainda na noite da votação da taxa do lixo, um usuário do Twitter propôs uma cota para a veiculação de um outdoor, mostrando o que a Câmara acabara de aprovar. Nas idas e vindas da vida da cidade, onde há tantos cidadãos de bem aversos a política, foi a política quem nos impediu de publicar dois outdoors, um no Aleixo e outro no São José, mostrando os nomes dos parlamentares que aprovaram a lei da Prefeitura.

Pois bem, transformamos dois outdoors em cerca de 140 mil jornais. O Diário do Amazonas e o Dez Minutos veicularam nosso protesto, espalhando-o por toda a cidade.

Adesivos serão produzidos, panfletos, banners e folhetos explicativos. As ações do Manaus de Olho não param na taxa do lixo. Partem dela. E para os que acham que o assunto cairia no esquecimento, como tanto gostariam o prefeito e os vereadores da base aliada, uma notícia: a taxa do lixo do Amazonino ainda vai render muito.

Muita gente vai sentir saudades do tempo em que a ameaça eram dois outdoors.

cartilha_amarribo

Um trecho da cartilha “O combate à corrupção nas Prefeituras do Brasil”, da ONG Amarribo.

Clique aqui para baixar a cartilha completa.

Mais sangue novo — Amazonino Inovando Mendes está ’sondando’ Jorge Smorigo para fazer parte do seu secretariado. Este blog procurou nos arquivos da UEA o registro da formatura de Smorigo, mas não encontrou a jovem cabeça pensante, o novo talento amazonense. Sobre Smorigo, a informação relevante é o fato de ser homem da mais absoluta confiança do publicitário Egberto Baptista. E, portanto, de Gilberto Miranda. Alfredo Paes, indiciado pela operação Albatroz em 2004, foi nomeado subsecretário de Tesouro, no lugar de Felipe Marrom, ‘importado’ por Maria Helena. Egressos da UEA, tirem o cavalo da chuva, Amazonino não está analisando currículos. O termo é outro.

Sem carreta — Rio Branco será a primeira capital brasileira com cobertura total de internet grátis no país. O governador Binho Marques lançou na manhã desta quinta-feira, 4, o programa Floresta Digital, que possibilitará o acesso da população urbana dos 22 municípios à internet com banda larga até o final do ano. O governo também anunciou que vai começar neste ano a distribuição de 9 mil netbooks aos estudantes do terceiro ano do ensino médio. Informações de Altino Machado, no Blog da Amazônia.

No dos outros — Na última sexta, passando em revista a tropa dos programas de rádio e tevê, dom Eduardo II, ‘O Imenso’, fez uma denúncia grave: a falta d’água nos conjuntos Cidadão do Prosamim é causada pela Águas do Amazonas, que ‘desvia’ o abastecimento da região do Prosamim para privilegiar outras áreas da cidade. ‘O Imenso’ fez a revelação bombástica no programa Câmera 13, da deputada Conceição Sampaio, uma semana depois da Agência Nacional de Energia Elétrica ter relatado que a então Manaus Energia, presidida por Willamy Frota, sobrecarregou regiões de Manaus para proteger a casa dele, ‘O Imenso’, dos apagões de 2007 e 2008. Willamy é vizinho de condomínio dO Imenso.

Prós e Contras — Do usuário @Roxmo, no Twitter: “Se um boquete custou 78% de rejeição, quanto custaria um governo que põe no nosso rabo todo dia?”. Do usuário @stevenconte, em resposta: “78% de aprovação.”

Uma lata cheia — A próxima semana, quando recomeçam os trabalhos legislativos em Manaus, promete. Ao menos três protestos devem ir às ruas relembrar a população de que o manauara vai pagar até R$ 90 mensais pra ver seu lixo continuar sendo recolhido. Apenas uma das entidades sociais envolvidas no assunto pretende colher 100.000 assinaturas contra a taxa. As ações serão forma popular de dar boas vindas aos vereadores em mais um ano — de eleição — que se inicia.

3-D — Quem circula pelas ruas do centro do Rio de Janeiro pode encontrar, nas barracas de vendedores ambulantes, DVDs piratas do filme Avatar que acompanham um óculos 3D. A cópia de Avatar custa R$ 10 e acompanha agora um óculos feito de cartolina e filme vermelho e amarelo em cada olho, supostamente para simular os efeitos 3D do filme. E assim a malandragem carioca se equipara à dupla Debi e Loyd (Jim Carrey e Jeff Daniels), que no cinema vendeu um passarinho empalhado para uma criança cega.

Quem tem boca — A produtora de filmes pornô Sexxxy World vai fazer uma proposta à concorrente Tessália, eliminada do Big Brother Brasil essa semana. A notícia escorreu para a imprensa ainda antes da eliminação. O motivo do interesse na moça seria a cena de suposto sexo oral praticado no namorado, o agora desmamado Michel. Fuxiqueiros da imprensa relatam que ao sair da casa, Tessália ficou boquiaberta com a notícia.

O povo sou eu — “O povo precisa votar num candidato que possa representar a continuidade desse projeto. É o povo quem decide”. Era dom Eduardo II, no início dos trabalhos da ALE em 2010, falando algo equivalente outro grande estadista da História, Winston Churchill, que dizia gostar que, nas reuniões, todos se manifestassem e tivessem X minutos para falar, democraticamente. Desde que no final todos concordassem com ele.

Clínicas — Foi lançado o site Bitchmaps.com, que num mapa montado sobre a plataforma do Google, informa a exata localização dos bordéis das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Campinas, Curitiba, Londrina e Porto Alegre. Pelo mapa descobre-se que a última moda nos prostíbulos paulistas, por exemplo, é chamá-los de clínicas. Clínica Pyramide, Clínica Maytreia, Clínica Tokyo, Clínica Kahunas etc. Tudo puteiro. A Clínica Ceci, para os desavisados, traz uma plaquinha: “Ex-Clínica Déborah Sayuri”. Desconfie, moça, se ele precisa ir todo mês a São Paulo para aquele tratamento seríssimo de saúde.

O cara? — Zé Dirceu nunca deixou de dar as cartas dentro do PT, especialmente nos momentos de estratégia eleitoral. Durante essa semana se reuniu com diversos ‘aliados’ da base de Lula, para enquadrá-los, se possível todos, e deixar apenas os casos mais complexos para Lula. Dirceu fez visitas de cortesia a Cid Gomes (Ceará), Eduardo Braga (Amazonas) e Ana Júlia Carepa (Pará). Renata Loprete, na Folha de SP, diz que a nova direção do PT não gosta da desenvoltura com que Dirceu vai atuando nos estados, mas é impossível que ignore que Dirceu, apesar da autonomia, não age à revelia do presidente.

O Grande — O general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho, indicado ao Superior Tribunal Militar disse, no Senado, que soldados não obedecem a comandantes homossexuais. O ex-sargento do Exército Fernando de Alcântara Figueiredo, envolvido no primeiro caso assumido de um casal gay na história das Forças Armadas brasileiras, rebateu: “Isso mostra que ele desconhece a história. Alexandre, o Grande, era homossexual e a tropa obedecia.”

No Noblat:

E-mail que recebi do deputado Juthay Magalhães Jr. (PSDB-BA):

“Na mais recente pesquisa de intenção de votos do Instituto Sensus, Serra tem 33,2%, Dilma 27,8% e Ciro 11,9%.

Quando se tira Ciro, o Serra cresce 7,5% – vai para 40,7%. E Dilma apenas 0,7% – vai para 28,5. Ou seja: Serra cresce 10 vezes mais do que Dilma.

Acontece que isso é virtualmente impossível no histórico das pesquisas eleitorais dos últimos tempos. Nenhuma pesquisa jamais registrou fenômeno igual.

Nas pesquisas divulgadas no início de dezembro, Serra obtém 31.8% na Sensus, 38% no Ibope e, no Datafolha, divulgado quinze dias depois dessas duas, 37%. E neste mesmo Datafolha de dezembro, quando Ciro sai, tanto Serra quanto Dilma crescem 3 pontos percentuais cada um.

Tudo indica que o erro da pesquisa CNT/Sensus divulgada ontem está na primeira simulação, com o objetivo claro de aproximar os dois pré-candidatos. Se não for isso, o erro estará na segunda simulação.

É virtualmente impossível que ambas as simulações da CNT/Sensus estejam corretas. O mais provavel que que a primeira simulação cumpra o objetivo de “fabricar” um empate técnico!

Mesmo com esses dados, Serra cresce na primeira e na segunda simulação e, sem o Ciro, ganharia a eleição no 1º turno.”

Superior Tribunal de Justiça

INQUÉRITO No 616 – AM (2008/0259455-6)

RELATORA : MINISTRA LAURITA VAZ

REQUERENTE : MPF

REQUERIDO : C E DE S B

ADVOGADO : EDUARDO ANTONIO LUCHO FERRÃO E OUTRO(S)

REQUERIDO : RCB

DECISÃO

Vistos, etc.

Trata-se de Inquérito instaurado a pedido do Ministério Público Federal com vista a apurar os noticiados ilícitos supostamente cometidos pelo Governador do Estado do Amazonas, CARLOS EDUARDO DE SOUZA BRAGA, e por ROSINEI COSTA BARROS.

Procedidas às diligências requeridas pelo Parquet Federal, o Delegado da Polícia Federal encarregado apresentou Relatório Final, tendo o eminente Subprocurador-Geral da República Dr. Francisco Dias Teixeira se manifestado nos seguintes termos, in verbis :

“- I – ORIGEM DO INQUÉRITO

1. O presente inquérito foi instaurado perante este Superior Tribunal de Justiça, a pedido do Ministério Público Federal, em face de representação formulada pela Sra. RENATA MOREIRA BARROS, por meio de advogado, com data de 23/9/08, e dirigida ao Exmo. Sr. Senador da República Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro Neto, que encaminhou a mencionada representação à Procuradoria-Geral da República (fls. 12/17).

A representação foi instruída com alguns documentos e 1 (um) DVD contendo gravação da representante, emitindo declarações sobre supostos fatos criminosos, atribuídos a seu marido, Sr. ROSINEI COSTA BARROS, em coautoria com o Governador do Amazonas, Sr. CARLOS EDUARDO DE SOUZA BRAGA (fl. 465).

A representação foi autuada no Ministério Público Federal-PGR como procedimento administrativo no 1.00.000.010114/2008-78-AM (fl. 11).

Após a instauração do procedimento administrativo, a representante dirigiu-se diretamente a este membro do Ministério Público Federal, em 13/10/08, por meio de petição subscrita por ela e seus advogados (fls. 525/587), na qual, em linhas gerais, reitera a narrativa constante da representação de fls. 12/17 e das declarações gravadas no DVD acima referido.

Leia o documento na íntegra (em PDF, 10 folhas) clicando aqui.

Em matéria na Folha de S. Paulo desta segunda (1), intitulada “Por palanque no AM, PSDB flerta com PTB”, o jornal conta a história que pode estar por trás da insatisfação de Lula com o governador Eduardo Braga. Na última sexta (29jan), a coluna do jornalista Cláudio Humberto, publicada em vários jornais do país, trouxe nota dizendo que Lula teme que Braga seja um dos traidores do PMDB em pleno flerte com José Serra (PSDB).

Então Braga botou seu rolo compressor na mídia amazonense, em especial nas rádios do Eixo e nos programas de tevê de aliados políticos, desmentindo a ‘intriga’ e reafirmando seu compromisso com a candidatura de Dilma Rousseff à presidência.

Na matéria desta segunda, a Folha conta que o presidente estadual do DEM, Pauderney Avelino, reuniu-se com José Serra na noite de sexta, oferecendo ao tucano o apoio local de Omar Aziz (PMN).

Omar é até aqui o candidato de Braga à sua sucessão, e como todos sabem, não toma um copo d’água sem a concordância do governador.

Agora é esperar que Braga ocupe novamente os programas de rádio e tevê de Manaus, insistindo em desmentir toda a história.

Em Manaus, Braga pode ficar tranquilo. Há um cardápio extenso de jornalistas e apresentadores treinados para não lhe fazer perguntas incômodas.

Robert pertenceu à geração de Pierre Bourdieu e Michel Foucault, com quem partilhou intervenções e pesquisas

O Roda Viva recebe o sociólogo francês Robert Castel , nesta segunda-feira (1/02), às 22h, na TV Cultura. Castel nasceu em 27 de março de 1933, em Brest, região da Bretanha, na França. Tem formação em Filosofia e Sociologia. Nos últimos cinquenta anos foi professor nas principais universidades francesas e nas universidades americanas de Berckley, Colúmbia e Harvard.

Nesse período, o sociólogo produziu a maior parte de seus estudos e pesquisas e tem publicado uma dezena de livros, alguns deles editados no Brasil, como A ordem psiquiátrica, A gestão dos riscos, A insegurança social, A metamorfose das questões socias.

Seus textos, hoje, compõem uma ampla análise sobre as mudanças que ocorreram principalmente nas relações trabalhistas e nos efeitos que a nova realidade do mercado de trabalho provocou nas relações sociais.

Robert pertenceu à mesma geração de Pierre Bourdieu e Michel Foucault, com quem partilhou intervenções e pesquisas.

Com apresentação de Paulo Markun, a bancada de entrevistadores será formada por Gilson Schwartz, professor da Escola de Comunicação e A,rtes da USP; Norma Couri, correspondente da revista portuguesa Visão; Ricardo Antunes, professor da Sociologia do Trabalho da Unicamp; e Ivan Marsiglia, editor do caderno Aliás do jornal O Estado de S.Paulo.

Pode parecer que há muito a ser falado sobre a inauguração do viaduto da Bola do Coroado, ontem, pelo prefeito Amazonino Mendes. Não é verdade. Alfredo, Omar e Braga, além de todos os satélites humanos girando em suas órbitas, novamente fizeram côro. E como pode um côro de 20 anos ainda ser notícia?

Mas há o que ser comentado. Quem inaugura as obras é o dono delas. Pode ser injusto, mas é fato. Para os motoristas, a verdade é que pouco importa quem começou ou quem terminou a obra. O que importa é que ela esteja entregue. Construir discursos em torno do fato depende somente da capacidade dos envolvidos de fazer política.

Amazonino, nesse ponto, fez sua parte. Encontrou na mesa de seu gabinete um pires com um pedaço de queijo e uma faca ao lado. Pegou a faca e cortou o queijo. Quis a cidade que fosse ele o cortador do queijo, e não quem botou a faca e o queijo ali.

O que chamou atenção, a mim que não acompanhei o foguetório da inauguração, foi a descortezia do prefeito com seu antecessor, o responsável pela maior parte da obra. Saltava aos olhos de todos, durante a administração passada, a dificuldade para tocar a obra do Coroado, que vinha embargada pela Justiça. Foram também vários meses até que fosse levantado o dinheiro para a construção da obra, junto à Corporação Andina de Fomento — CAF.

Mas é de extremo mau gosto, especialmente a um político que repete já estar fora da política, não reconhecer o esforço do outro, mesmo que adversário. Amazonino podia, em homenagem a Serafim, falar ao menos a verdade, já que elogiar o antecessor e lhe dar os devidos méritos é impossível. Mas o comportamento do prefeito depõe diretamente contra a ladainha que ele próprio repete há meses, de que não vai mais disputar cargos eletivos.

Amazonino mente, e muito. Em política, é proibido elogiar adversários, é mais sábio apelar para o argumento de que o outro não fez mais do que sua obrigação. Tudo bem. Mas daí a mentir, é outra história.

Mas não poderia ser diferente. Falamos de Amazonino. A inauguração da obra do Coroado era um dos seus poucos dias de glória em mais de um ano de mandato. A Amazonino o que é de Amazonino. Se pela vontade do povo Serafim não pôde inaugurar a obra que projetou e encaminhou, paciência. Talvez deva ter faltado investimento do ex-prefeito nos esforços de sua equipe, a famosa “faca entre os dentes”, a atitude, mais política do que técnica, de perseguir uma meta.

Não deixa de ser sintomático, também, que Amazonino tenha exibido, num telão durante a festa, um vídeo de sua campanha fracassada de 2004, quando perdeu para o próprio Serafim. Aqui sejamos justos: se Serafim não pode reclamar de não ser o prefeito no dia da inauguração, Amazonino também não pode dizer que a obra é sua porque propôs coisa parecida 6 anos atrás. Até porque isso dá margem para que, daqui a seis anos, quando alguém voltar a contruir creches em Manaus ou levar internet à periferia, Amazonino diga que prometeu isso em 2008.

O dado irônico dos dois únicos dias, em mais de um ano, em que Amazonino pôde sair de sua casa no Tarumã para enfrentar o povo sem medo de ser feliz foram fruto de obras e/ou projetos de Serafim: a passagem de nível da Paraíba e o viaduto do Coroado. Unidos ao viaduto Miguel Arraes, as três obras formam o que Serafim idealizou como o Complexo Efigênio Sales.

Daqui, posso apenas dizer que ontem o dia era de deixar Amazonino falar. Em política não se elogia adversário, mas se dá a devida folga para que ele comemore sua segunda vitória em um ano. Amazonino não é meu adversário, é apenas parte de um grupo político mais famoso — inclusive nacionalmente — pelas suspeitas de corrupção do que pelas realizações. E olhe que são quase 30 anos de história. Ir contra o grupo de Amazonino na política não é fazer política, é querer gente mais bem afamada no comando das coisas.

Uma das críticas mais recorrentes do prefeito é chamar Serafim de mentiroso. Esqueça que você não gosta do Serafim ou não gostou de sua administração, se for o caso. Mas falemos a verdade, você precisaria reler jornais ou pesquisar no Google pra chegar à conclusão sobre qual dos dois é famoso por ser mentiroso?

Ontem era o dia de Amazonino fazer jus à sua própria história e brindar, junto ao seu criador e suas criaturas, uma vitória. Para a população, repito, saber quem é mais responsável pelas obras do que o outro faz pouca diferença. Deveria fazer, principalmente num ano eleitoral, mas não faz.

Há mais de um ano Amazonino comete um dos piores mandatos de que se tem notícia da cidade. Pouco se importando com isso, passou exatamente o mesmo tanto de tempo falando mal de seu antecessor, no mais das vezes com mentiras dignas de um aprendiz de malandro, daqueles que são desmentidos no dia seguinte.

Mas ontem Amazonino tinha um salvo-conduto para repetir suas mentiras. A vitória era indiscutivelmente sua, e convenhamos, Amazonino não tem tido muitas.

Então, apenas pra dar uma folga ao homem, deixa o homem mentir.

serafimacriticaAndré Alves - da equipe de A CRÍTICA

O ex-prefeito de Manaus Serafim Corrêa (PSB), pré-candidato ao Governo do Estado, disse, ontem, que o interior do Amazonas “está abandonado” e que as propagandas do governo Eduardo Braga (PMDB) na TV “não condizem com a realidade”. Serafim também afirmou que ainda não encontrou, no interior do Estado, os tão propalados portos que estariam sendo construídos pelo Ministério dos Transportes, pasta dirigida pelo ministro Alfredo Nascimento (PR), pré-candidato ao governo do Amazonas.

Ontem, Serafim Corrêa esteve no 16º município do Amazonas, de um total de 24 que visitará até sábado. O ex-prefeito está acompanhado do filho e deputado federal, Marcelo Serafim, e dos vereadores Marcelo Ramos e Elias Emanuel, todos do PSB. A viagem do grupo iniciou no sábado (23) e está sendo registrada por um cinegrafista. Serafim Corrêa disse que fará um documentário da realidade do interior do Estado para mostrar à imprensa. De acordo com ele, as imagens também serão veiculadas no horário eleitoral gratuito.

As críticas frontais de Serafim Corrêa ao trabalho comandado por Eduardo Braga e Alfredo Nascimento é a mais dura ofensiva do ex-prefeito de Manaus aos dois políticos. A fala, que se dá a nove meses da eleição, denota que Serafim não poupará a ambos durante a campanha eleitoral. Braga deve ser candidato ao Senado, mas pode lançar ao governo o vice, Omar Aziz (PMN). Alfredo Nascimento já disse que é candidato ao governo do Estado.

“Nesses municípios todos que nós fomos, não encontramos nenhum dos portos, embora em Manaus se faça propaganda de que eles estão sendo construídos. Cadê os portos? Uns tem estaca cravada, mas a maioria não tem nada”, disse Serafim Corrêa, que falou à reportagem por telefone, do município de Benjamin Constant.

Segundo Serafim, o Estado não se faz presente no interior do Amazonas. “A realidade no interior é muito diferente dessa realidade bonita pintada na televisão. Trouxemos um câmera que filmou tudo isso”, afirmou o ex-prefeito. “Aqui há ausência do Estado. Na maior parte desses municípios que visitamos você não tira Carteira de Identidade. Por isso, os mototaxistas não podem tirar Carteira de Habilitação e permanecem sem regularização”, sustentou ele.

O ex-prefeito de Manaus descartou a possibilidade de ser candidato a vice-governador na chapa da Alfredo Nascimento ou em qualquer outra chapa. “Não existe essa hipótese. Sou candidato a governador”, garantiu. “Está claro que nós vamos ter quatro candidaturas nessa eleição: o Amazonino (Mendes, prefeito de Manaus), que diz que não é candidato, mas é; o Omar (Aziz, vice-governador); o Alfredo e eu. Cada um corre prum lado e vamos ver de quem o povo se engraça”.