O primeiro debate entre os candidatos à Presidência seguiu a temperatura da campanha até aqui. A despeito da guerra virtual entre os militantes dos dois principais candidatos, que já domina os espaços de discussão na internet há alguns meses, o clima foi de estudo do adversário. Nesse aspecto, o formato dos debates eleitorais acaba quase sempre engessando a discussão, que frequentemente é interrompida justamente quando engrena. O debate da Band, comparado ao aparato global, costuma ser mais solto, o que favorece o telespectador.
No fator “espetáculo” dificilmente seria diferente. Querer com Serra, Dilma e Marina as mesmas emoções que com Lula, Brizola ou Collor é o mesmo que procurar na Formula 1 de Button, Weber ou Massa o mesmo fascínio dos tempos de Senna, Prost, Mansell ou Piquet.
Plínio de Arruda Sampaio
Mas mesmo nas corridas de carro alguém precisa vencer. E nesse instantâneo fotográfico da corrida, Plínio de Arruda Sampaio, o melhor e mais envolvente dos radicais do PSOL, venceu. É claro, até o fim do campeonato ficará relegado à insignificância de sua sigla (ou equipe, no paralelo automobilístico que faço). Plínio, um dos intelectuais que fundaram o PT, encarna o personagem do franco-atirador que não pode faltar aos debates, mas tem o estofo humanista e a eloquência mais apurados do que a maioria dos chamados ‘nanicos’ de sempre. Não e político, e como tal, ficou à vontade para desmontar o discurso de todos os adversarios, sem medo de perder nada. Radical desiludido com o partido que fundou, mirou mais nos antigos companheiros do que no inimigo tradicional, o tucano Serra.
Marina Silva
Marina Silva (PV) é inatacável pela paixão com que defende suas causas, como o senador Cristóvam Buarque (PDT) quanto à Educação. Marina eleva o nível do debate. Uma pena que debate bom — porque o Brasil ainda precisa que seja assim — é exatamente o debate ruim. Há ainda muitas feridas brasileiras a serem expostas, e infelizmente debate de alto nível é algo que ainda não nos pertence. Foi exatamente nessa pretensão artificial de fazer um debate nobre que Arruda Sampaio saiu-se melhor, condenando o “bom mocismo” dos adversários. Marina foi o alvo do mais ferino ataque de Plínio, que a acusou de não saber pedir demissão — em alusão à saída da senadora do Ministério do Meio Ambiente.
É no lirismo e na paixão de Marina que moram suas maiores qualidades. Aqui retorno à comparação com Cristóvam, figura pública de quem é impossível falar mal. O problema, de um e de outro, é a dúvida sobre as qualidades administrativas — inclusive de conflitos entre tantas prioridades nacionais que não só as suas — de cada um. Nesse quesito, Marina e Buarque são indispensáveis por balancear o cenário, que ficaria ainda mais empobrecido apenas com Serra e Dilma, as equipes favoritas da temporada.
Dilma Rousseff
Dilma era o fenômeno a ser desmascarado. Na ótica tucana, foi. Visivelmente nervosa, ficou latente que, dos quatro presentes, era exatamente Dilma, a líder nas pesquisas e a candidata de um dos presidentes mais populares do mundo, a mais nervosa. A impressão que ficou foi a de uma aluna aplicada, mas que pecou pelo excesso de estudo. Dilma parece ter estudado demais para o vestibular da discussão ao vivo — tomou aulas particulares de vários ministros governistas sobre suas respectivas pastas –, e em vários momentos pareceu sofrer do ‘branco’ que acomete tantos estudiosos.
A esta altura, petistas podem sacar do bolso como desculpa exatamente o argumento que costumam usar para louvá-la: o ineditismo de ser uma mulher à frente das pesquisas, mesmo sem qualquer experiência em mandatos politicos, costuma ser discurso fácil da militância vermelha. O momento parece ser apropriado, talvez, para dizer que, nessa condição de caloura, Dilma até que foi muito bem.
Seu pecado, o mesmo de Serra, foi a dependência dos números. Pressionada por Serra e Arruda, a petista deu respostas evasivas a questões simples como sua posição sobre a propriedade rural (feita por Arruda), como quem dissesse “Professor, eu não sei essa resposta, mas me pergunte sobre empregos e programas sociais, foi pra isso que eu estudei!”. Somados os pontos positivos e negativos de sua apresentação, Dilma mostrou estar mais próxima do estereótipo cunhado pela oposição (de ser inanimado criado artificialmente por Lula, um genial Dr. Frankenstein político) do que da imagem de candidata de carne e osso.
José Serra
A incompetência de Dilma para se provar preparada só foi menor do que a incompetência de Serra para nocauteá-la. Aqui não avalio o que é realmente importante, como os dados e os prós e contras das eras Tucana e Lulista, mas essencialmente o debate, a fotografia da noite. Serra, como Dilma, é um piloto refém do excesso de informações da telemetria de seu carro. ‘Ajudado’ pelos dados das sondagens internas, ficou indeciso entre derrubar de vez a petista ou assoprar-lhe as feridas, e limitou-se a atacar cirúrgica e timidamente as fraquezas do discurso da petista.
Seguindo o franco-atirador Arruda, Serra mostrou-se o mais desenvolto. Mesmo pecando na decisão de atacar Dilma mais ou menos ferozmente, mostrou-se seguro. O problema de Serra, como com Alckmin, e genético. O paulistismo dos dois parece ser feito para lhes arrancar qualquer traço de carisma pessoal. Uma disputa presidencial é — feliz ou infelizmente — o balanceamento de muito mais fatores do que o preparo técnico e administrativo.
Serra, como Alckmin, soa falso ao ser sentimental, mesmo que não seja falso. Domina números, escolhe temas e aprendeu, com a experiência, a trabalhar com a dinâmica dos debates, aproveitando as sequências de respostas, réplicas e tréplicas a seu favor.
O debate da Band, como a maioria dos debates, decide pouca coisa. Nessa lógica, pode ter servido para que o PSOL de Arruda ganhasse mais simpatizantes entre a enorme parcela da população que detesta política e quer apenas bons ‘candidatos de protesto’. Dilma prova que não é Lula, Serra prova que não é bobo e Marina prova que segue seus princípios até o fim.
Não é a temporada mais emocionante da historia, e por vezes dá pra confundir petismo com tucanato na origem. O debate, mais do que outra coisa, mostra as semelhanças entre o candidato tucano e a candidata petista. Trazido para este patamar de comparação, Lula, um verdadeiro mago político moderno, saiu perdendo.
É talvez um Senna, tentando empurrar um Barrichello goela abaixo do Brasil.
Lula pode estar certo. Carisma por carisma, já que ele próprio não pode entrar na pista, melhor fabricar alguém do zero.
A disputa não é entre Serra e Dilma. É entre o carisma de um Senna aposentado e um séquito de pilotos medíocres.
- No UOL, a análise de Fernando Rodrigues.
- “Plinio faturou”, um comentario de Ricardo Noblat.
- No G1, o retrato bloco a bloco do programa.





A informação é do superintendente da Polícia Federal no Estado, delegado Sérgio Fontes, e o objetivo é coibir a compra de votos com dinheiro nas eleições deste ano.


