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O Calouro Mariposa, e outras mensagens
Graças ao Wordpress, é possível verificar que meu post sobre o salto de qualidade no curso de jornalismo na Ufam está com um acesso bem crescente e súbito nessa semana. Provavelmente, então, há calouros encontrando meu blog. Deixo a eles três mensagens.
Primeiro: sejam todos muito bem vindos. Se leram o post sobre as mudanças no curso de jornalismo da Ufam, já devem estar sabendo que são vocês, alunos do módulo 1, os primeiros a darem um passo muito importante para a qualidade do curso. Mas para isso, não basta esse projeto. É necessária a vigilância cotidiana desse aperfeiçoamento. Cada manhã perdida para uma viagem à universidade deve ser recompensada. Cobrem de si, da instituição e dos docentes essa recompensa. Não percam tempo. Quatro anos passa rápido. Sabemos disso, amigos.
É provável que o sistema modular aproxime o ensino de gradução no jornalismo daquilo que tivemos no Ensino Médio. Esqueçam. É uma vida nova daqui para diante. É o começo de um amadurecimento que não é somente profissional. Não estudem o jornalismo como se estuda a matemática. Fizemos a escolha por uma profissão com o intuito de vivermos prazerosamente e felizes.
Há muito ainda o que dizer. Outros poderão fazê-lo. Por isso, aproximem-se dos colegas veteranos, do Centro Acadêmico (Cucos) e não se inibam com a longa distância entre a sala de aula e o departamento. Termino aqui porque nunca fui de dar conselhos e acho que nunca escrevi um texto tão chato em toda a minha vida.
As outras duas mensagens estão abaixo. Uma dica do Cucos (o cartaz – participem), e um texto que escrevi há um tempo, pouco depois de ingressar na faculdade.
O CALOURO MARIPOSA
Renato estava dormindo antes de cair da árvore e ver-se transformado em uma horrenda mariposa. Seu corpo era tão belo quanto o de uma borboleta, só não havia apreciado suas asas velhas e enrugadas. E por uma lastimosa sorte, eram as asas que auferiam maior visibilidade.
Quando se encontrou com as outras mariposas, sentiu que deveria ter aproveitado mais a vida enquanto imaturo. Engraçado ele ter aquela visão pois, uma vez larva, ele invejava com intemperança o voar das aves e dos insetos. Renato parecia não ter noção de que aquele momento era o mais aguardado em toda a sua vida insignificante. Insignificante porque antes ele não tinha tanto a fazer sem as amplas possibilidades proporcionadas por aquelas asas.
Escolhi relatar a síntese da história de uma mariposa na falta de melhor inventividade para misturar temas como maturidade e ingresso à universidade. Quis fazê-lo em um único texto porque não há feitio que torne longa a distância entre calouro e maturidade. Usar o inseto como ilustração me surgiu por causa da leitura de A Metamorfose. Não sei ao certo qual era a intenção de Kafka ao escrever história tão bizarra, mas me imaginei quando calouro no momento em que Gregor Samsa acordou transformado em um gigantesco inseto.
Os hábitos alimentares mudaram, assim como as amizades, nossas trajetórias, entre outras coisas. Tudo isso após o ato de escolha da profissão, o primeiro da vida adulta. E como seria diferente se a escolha fosse outra – ou se permitisse que outros a fizessem. O vislumbre que ainda está guardado em minha memória emotiva desde o primeiro dia de calouro confunde-se com o medo de começar a tomar decisões. Nossas ações não são mais as mesmas quando compreendemos que, agora, somos os únicos responsáveis pelo nosso bem-estar.
O que nos diferencia de Renato – e nos aproxima de Gregor – é o fato de que muitos demoram a perceber a metamorfose – ou talvez ainda nem a tenham sofrido. Nas salas da universidade, ainda esperam a solução dos problemas acadêmicos surgir como um fruto na árvore.
Graças a essa discussão, entendi porque muitos não conseguem adaptar-se ao meio acadêmico: é imaturidade. Procurem essas pessoas e descubram como levam suas vidas e descobrirão que não estou mentindo. A universidade deve ser vista como exercício. O vislumbre dos calouros logo será aniquilado se a universidade for compreendida de forma inequívoca, em uma unidade academicista.
Se voltar a historieta da mariposa para explicar melhor minha tese, diria que Renato logo descobriria que o voar das aves e dos insetos é um trabalho monótono, árduo e enfadonho. Mas é somente por meio dele que Renato descobriria os caminhos adequados para o seu bem-estar. E no final, vai adorar ter a capacidade de voar e ser invejado pelos lagartos.
Visceralidade no Teatro Amazonas
Quem conhece a dramaturgia de Nelson Rodrigues, entende a aplicabilidade da palavra visceral ao título dessa pequena resenha. Quem não conhece, vai ter a oportunidade amanhã, terça-feira, 21. O grupo de teatro Apareceu a Margarida levará ao palco do Teatro Amazonas, às 18h, a montagem da peça A Serpente, que abriu o V Festival de Teatro da Amazônia este ano. A entrada é gratuita e restrita aos adultos.
A trama de A Serpente envolve duas irmãs com um amor tão recíproco que as fez celebrar um pacto de morte e casarem-se no mesmo matrimônio. Na cena de abertura, Lígia, uma das irmãs – interpretada por Vanessa Pimentel, indicada ao prêmio de Melhor Atriz – é abandonada pelo marido sem que o ato sexual fosse consumado. Desesperada, ela incita o suicídio até que a irmã, Guida, lhe oferece o próprio marido durante uma noite. O motivo da oferta é uma interrogação que perpassa todo o espetáculo e instiga respostas que incluem, inclusive, uma provável homossexualidade.
Enganam-se aqueles que dizem que é a primeira montagem de Nelson Rodrigues em Manaus. Lembremo-nos de Os Sete Gatinhos, cuja encenação dividiu opiniões entre os que prestigiaram. Mas a memória falha é perdoável quando tentamos divulgar A Serpente em Manaus. Trata-se – para críticos como Sábato Magaldi – da peça mais audaz de Nelson Rodrigues. O impacto de um espetáculo rodrigueano, com todas as suas visceralidades, nos palcos amazonenses pode ter sido o que mais instigou a ansiedade no grupo Apareceu a Margarida.
Em relação a esse assunto, Chico Cardoso, diretor da peça, disse ter ficado surpreso com a recepção do espetáculo no festival de teatro. O motivo foram as risadas constantes do público. Michel Guerrero, diretor do grupo e um dos atores de A Serpente, acentuou o fato de que a última comédia do Apareceu a Margarida ainda estaria na memória do público. Trata-se de A Herança Maldita de Mercedita de La Cruz, que o grupo apresenta constantemente desde a sua estréia há mais de um ano. Outras falas no debate do festival propuseram que a direção do espetáculo escolhesse uma linha a ser seguida.
Muitas considerações podem ainda ser feitas, mas é bom lembrar que sempre é esperado do público uma apresentação “lugar-comum” de qualquer peça de teatro que seja divulgado em Manaus. Por isso, talvez, o estúpido fato de muitas mães levarem seus filhos pequenos para assistir Nelson Rodrigues. Fatos estranhos já haviam acontecido antes quando o grupo Arte & Fato apresentava As Damas do Apocalypse. As cenas de lesbianismo pareciam show de circo por conta de algumas gargalhadas.
A Serpente não é lugar-comum. É uma peça que tem o sexo como cerne de toda a trama. Sábato Magaldi, em uma de suas críticas costumeiras de Nelson, afirma que “no tratamento do sexo, Nelson nunca se mostrou tão ousado. A peça devassa a intimidade do casal e suas consequências são trazidas ao diálogo”. O grupo topou fazer um desafio bastante oportuno ao trazer a Manaus uma peça com uma trama de Nelson Rodrigues. Merecem palmas as companhias que tencionam trazer aos amazonenses as peças e os autores de quem eles sempre ouviram falar mas nunca tiveram a oportunidade de conhecer.
Coquetel Molière estréia com surpresa no V FTA
Uma surpresa está reservada pelo grupo de teatro Baião de Dois para quem conferir a peça de sábado à noite do V Festival de Teatro da Amazônia, às 20h, no Teatro Amazonas. Será a estréia oficial do espetáculo Coquetel Molière. Após as experiências que o grupo obteve com ensaio aberto no Colégio Brasileiro Pedro Silvestre e pré-estréia no teatro Luiz Cabral, no Shopping Grande Circular, na Zona Leste, o grupo estréia oficialmente o espetáculo. O preço da entrada é R$10 e meia R$5. Apesar de fazer parte da categoria adulta da mostra competitiva, o espetáculo é aberto para todos os públicos.
A peça é uma adaptação que o grupo fez do texto “O Improviso de Versalhes”, do dramaturgo francês Molière (1622-1673). Na trama, Molière se insere como personagem principal. Ele e sua trupe de teatro, após um ensaio de apenas oito dias, precisam encenar um espetáculo encomendado pelo Rei. Esse espetáculo é um “coquetel” de alguns trechos de peças famosas do dramaturgo, como Don Juan, O Doente Imaginário, O Avarento e Tartufo. O grupo Baião de Dois já tem preparados seis trechos de peças, mas somente alguns serão apresentados ao público em cada apresentação. O público terá papel fundamental no enredo que o grupo se arriscou a elaborar e a apresentação de sábado terá um toque especial de estréia.
O grupo Baião de Dois iniciou o processo de leitura das obras de Molière em novembro do ano passado. Foi nesse laboratório que surgiram as discussões sobre as peças que deveriam entrar no espetáculo. Em janeiro, o grupo teve contato com a teatróloga francesa Brigitte Bentolila. A atriz, que tem um vasto estudo sobre Molière, ajudou o grupo a entender o autor francês, sua trupe e o teor cômico de suas peças. Em fevereiro, houve seleção de atrizes para fechar o elenco da peça e desde lá os ensaios começaram. A idéia para adaptação partiu da necessidade de aplicar o espetáculo ao público amazonense, que não teve muitas oportunidades de conferir obras de Molière em nossos palcos. Um toque brasileiro pode ser observado na trilha sonora de Edgard Lippo e em propostas de encenação dadas pela diretora Selma Bustamante.
Coquetel Molière recebeu patrocínio do Governo Federal, por meio do Prêmio Myriam Muniz da Fundação Nacional das Artes (Funarte) e Petrobrás. Teve também o apoio cultural de Thèrése Aubreton, da Aliança Francesa no Amazonas. Abaixo, a ficha técnica da peça:
ELENCO: Clayton Nobre, Cristina Venâncio, Hely Pinto, Ive Rylo, Leana Rodrigues, Nei Szafir, Wallace Abreu, Tiago Adler e Branco.
DIREÇÃO: Selma Bustamante
TRILHA SONORA: Edgard Lippo
DRAMATURGIA: Clayton Nobre e Selma Bustamante
TEXTO: Moliére
ILUMINAÇÃO: Cleinaldo Marinho
APOIO TÉCNICO: Marília, Diego Monzaho
Conspirações do Festival de Teatro
Os artistas amazonenses vão ter que tomar banho de sal grosso para participar do V Festival de Teatro da Amazônia, que começa amanhã. A prevenção deve ser feita por conta de algumas notícias tristes que circulam essa edição do festival, a começar pelo trabalho da curadoria.
Foram mais de quarenta inscrições de peças teatrais para as mostras competitivas infantil e adulta de diversas companhias e grupos da região Norte. Destas, somente as inscrições dos grupos locais, de Manaus, foram selecionadas. Não perdem somente nossos teatreiros vizinhos, mas perde a categoria local. O grupo Baião de Dois tirou ótimos proveitos, esse ano, dos festivais no Acre e em Rondônia por conta da integração e bate-papo sobre nossas diversas linguagens, suas similaridades e diferenças, independente da excelência artística ou não dos espetáculos. Tudo era ponto de discussão em nossos debates.
Para muitos artistas – que ficaram de fora da seleção e para outros que nem mesmo se inscreveram – o resultado não surpreende. As discussões pela internet, por meio do grupo de discussão on-line Fórum Permanente de Teatro da Região Norte, estão acaloradas e muitos acreditam num complô organizado pela Federação de Teatro do Amazonas (Fetam) e Secretaria de Estado da Cultura (SEC). Como membro da Fetam – afastado da organização deste festival – e amante de estudos sobre comunicação, posso indagar que muitas teorias conspiratórias são criadas a partir dessas discussões pela internet. Essa rede começa a ficar especialista no assunto.
blog do artista Marcelo Perez, de Roraima. O diretor diz que de Amazônia, o festival não tem nada.
Artistas da região expressam suas opiniões pela Internet
Entretanto, não podemos negar que alguma coisa muito estranha ocorre nos bastidores da SEC e de outras secretarias do órgão público do Estado. Começo a imaginar uma teoria conspiratória que envolve Omar Aziz e campanha eleitoral – não posso passar disso, porque internet é fogo! A verdade é que o investimento para teatro esse ano foi pouco, sobretudo neste festival. A agenda cultural da cidade começou tardia, a mostra paralela do festival foi cancelada e o dinheiro para produção dos espetáculos concorrentes ainda não chegou aos bolsos dos grupos. O festival começa amanhã.
Mas, para quem não se interessa nas picuinhas, juntem-se aos bons e prestigiem o que só pode ser mesmo uma festa. A abertura do festival será amanhã, às 17h, no Teatro da Instalação, com a apresentação da peça vencedora da edição passada: O Que Era e o Que Não Deveria Ser, da Cia Vitória Régia. A mostra competitiva começa às 20h, no Teatro Amazonas. E segue todos os dias nesse horário com peças adultas, e às 10h da manhã com peças infantis. Tudo no Teatro Amazonas ao preço de R$10 e meia R$5.
Abaixo, a programação:
06.10 (Segunda)
20h – A SERPENTE, Cia de Teatro Apareceu a Margarida
07.10 (Terça)
10h – ANGATU – A ARVORÉ MILENAR, Grupo de Teatro e Dança Origem
20h – CARMEM DE LA ZONE – A LENDA URBANA, Grupo de Teatro Azuarte
08.10 (Quarta)
10h – AS DESVENTURAS DE DONA FURUSTRECA, Cia de Teatro ArtBrasil
20h – YEBÁ BURÔH – A INDIA VELHA DO UNIVERSO, Grupo de Repertório Arte & Fato
09.10 (Quinta)
10h – A HISTÓRIA DE TONY E CLÓVIS, Grupo de Teatro Gato Carcará
20h – AS MIL E UMA NOITES, Teatro Experimental do SESC
10.10 (Sexta)
10h – LE VAM VUM, Fundação Leon Dennis
20h – NÓS ATADOS – A Rã Qi Ri
11.10 (Sábado)
10h – O REIZINHO MANDÃO, Cia de Teatro Língua de Trapo
20h – COQUETEL MOLIERE, Grupo Baião de Dois
12.10 (Domingo)
10h – O PIERRÔ APAIXONADO, Cia de Teatro Metamorfose
20h – O AUTO DO REI LEAL, Cia das Idéias
13.10 (Segunda)
10h – O MENINO SONHADOR, Fabiane Moraes Araújo
20h – ANTÍGONA, Associação Amazônia Arte Mythos
14.10 (Terça)
10h – O LEITEIRO E A MENINA NOITE, Grupo de Repertório Art & Fato
20h – CERIMÔNIA DE PREMIAÇÃO
Beckett Sem Palavras em Temporada
O Marinheiro no Teatro Amazonas
Outro dia dissertei aqui sobre emoção. Esse é o desafio do novo grupo de teatro amazonense que estará estreando o espetáculo “O Marinheiro”, amanhã, 12, às 18h, na abertura do projeto Terças No Palco do Teatro Amazonas. O grupo é o Cacos de Teatro, criado com o intuito de pesquisar novas propostas para o fazer teatral.
“O Marinheiro” é a única peça de teatro escrita pelo poeta Fernando Pessoa. A proposta do autor é fazer um drama estático, que o grupo inverteu para um linguagem oposta e que merece ser apreciada amanhã. No drama, três mulheres (duas, na peça amazonense), acompanhadas de um cadáver, falam sobre sonhos e morte sob a iminência desesperadora do nascer do sol. Fernando Pessoa aproveita a poesia dramatúrgica para referir-se a seu processo de criação literária, como a criação dos heterônimos e aquela angústia um pouco aristotélica de querer desvendar as questões do mundo.
Fazia parte do processo de montagem do espetáculo a apresentação de ensaios abertos, que podiam ser conferidos na Universidade Federal do Amazonas e no Sesc. A idéia já está se tornando hábito entre os grupos, por mais que parte do público não saiba definir um ensaio aberto de uma apresentação normal, uma vez que nenhum espetáculo está pronto. Mas as sugestões, críticas, elogios, questões sobre voz, iluminação e trilha sonora – bastante discutidas – ficaram para a reflexão do grupo.
O resultado estará em cena na terça-feira. Quem assina a encenação de “O Marinheiro” é Dyego Monnzaho e Taciano Soares, que também interpretam as mulheres da peça. O espetáculo foi contemplado com o edital Proarte 2007, da Secretaria Estadual de Cultura, de incentivo. Vale a pena conferir.
Meninos, merda pra vocês!
Ah,
Peguei a foto do blog do grupo. Me informem os créditos!!
Eu quero é botar o meu bloco na rua
Quem precisou passar na Praça das Três Caixas D’Água, em Porto Velho, na semana passada, encontrou um furdunço. Era esse um dos objetivos do festival de teatro que acontecia lá: fazer um furdunço na capital rondoniense, divertindo as pessoas e propiciando momentos oportunos de fuga de rotina. A notar pela receptividade do público, o carinho, as risadas e o dinheiro depositado no chapéu no final dos espetáculos, é possível afirmar que os nortistas precisavam desse espaço dentro de seus afazeres.
A festividade fazia parte da programação do “Amazônia Encena na Rua”, a primeira edição do festival de teatro de rua organizado pelo grupo teatral O Imaginário, de Porto Velho, realizado entre os dias 23 e 27 de julho. Participaram cinco grupos de teatro, vindos do Amazonas, Roraima, Rondônia, Acre e Rio de Janeiro.
Havia um tempo, Manaus não precisava desse tipo de festividade para fazer teatro na rua. A necessidade de comunicar, desabafar, falar, essa angústia que todos temos para fazer alguma coisa, de difundir um pensamento, de mobilizar as pessoas, de conscientizar, essa necessidade o teatro cumpria aqui nas ruas de Manaus. Alguns fazem ainda, muito embora não chamemos de teatro. Mas é arte. A arte de reunir carteiros e fazer panelaço no meio da rua, de parar nos sinais de trânsito e chamar para o combate à violência, apitar os carros, lavar entrada de assembléia.
No encerramento do Amazônia Encena na Rua, a idéia era fazer uma invasão nas praças. Todos com roupas caracterizadas, gritando, apitando, incomodando de verdade, chamando atenção para algo que acontecia, para algo que acontece aí, na sua frente e você não vê. O teatro de rua é transgressor, não conhece as regras se não forem de pura cidadania. O teatro incomoda, cutuca. Assim era para ser em Porto Velho, e as pessoas sorriam e demonstravam que precisavam mesmo da gritaria.
A invasão precisava ser feita em outra praça, que esconde no meio do barro a trilha da Madeira Mamoré, entregue aos cachorros, coberta de lama e poeira. A ferrugem do trem tinha o mesmo aspecto da merdeira que cobria o chão de todo o local, caracterizando bem o modo de vida dos trabalhadores que morriam para que aquilo estivesse, hoje, funcionando. O mínimo de manifestação que havia sido feito pelos rondonienses foi
calado, me falaram, por uma tropa militar armada na praça comandada pelos detentores do poder público de Porto Velho. Em regime autoritário, o teatro de rua resistia. É tempo de redemocratização e algo cala a boca dos artistas.
Agora, um parágrafo final dedicado à bailarina das praças de Rondônia, que só tem a boca calada pelos olhares ignorantes que passam pelas ruas de Porto Velho. Queiramos todos nós ter um pouquinho dessa loucura.
PS1.: Bethânia, valeu pela foto da peça…
PS2.: Sêo Eduardo, vai comer sabão!

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