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Não ser, o conflito da consciência

September 13th, 2008 clayton nobre No comments

Hamlet

Ser ou não ser – eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias –
E combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir –
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Página,

Desde já queria expressar minhas desculpas pelo espaço de tempo que levei para escrever essas frases. Passei por um tempo em um conflito de consciência, dei um salto no vazio, quase optei pela morte tal qual Hamlet e me entreguei ao que sou – tal qual o queria ter feito. Presenteio-a, como um pedido de perdão, essos versos de Shakespeare.

O dramaturgo deixou um desafio para a humanidade quando lançou Hamlet. O homem, quando angustiado, torna a dicotomia ser ou não ser tão banal quanto as frases mais tolas ditas nas telenovelas ou em outros programas de TV. A verdade é que a fronteira entre o ser e o não ser nunca encontrou uma resposta que pudesse instigar reação contrária.

Você sabe, página, sou adepto daqueles que acreditam que a leitura ou apreciação de alguma manifestação artística é um ato mais pessoal que social, ou plural. Sou adepto daqueles que não precisam ler a biografia do autor do livro para conferir sua obra. Acredito na relação que criamos entre nós mesmos, nessa descoberta interior. É isso que permite que não sejamos a mesma pessoa após lermos um livro. Por isso as discussões chatas sobre literatura.

Ainda assim, crio um espaço agora para fazer essa discussão sobre o não-ser de Hamlet. Hoje, quando leio os versos acima, crio uma reflexão diferente daquela que tive quando li Shakespeare pela primeira vez. E certamente o será diferente daqui a um tempo breve. Mas, repito, é uma reflexão pessoal, que não merece servir de argumento para encontrar respostas que não existem.

Todos os homens, se vivem na modernidade, devem passar por uma fase de vida um pouco “Hamlet”. O príncipe passou por essa angústia após ser ordenado pelo fantasma do pai a vingar sua morte, fazendo o que é hábito de qualquer bom cidadão dinamarquês àquela época. O ser ou não ser de Hamlet era a dúvida sobre fazer o que deveria ser feito ou morrer. Esse é o tormento que sentimos hoje. A todo momento somos obrigados a fazer escolhas e muitas delas nos instiga a desvendar nosso “eu” ainda não descoberto, obedecendo a ele ou às mazelas da carne, como diria Shakespeare.

Vivencio a dúvida hoje, por isso a reflexão. Chega um momento, percebemos que nos perdemos de nós mesmos. Chega um momento, esquecemos quem somos e como agiríamos em determinados conflitos. Pior, chega um momento em que agimos sob um poder coercitivo invisível que nos obriga a seguir um caminho que inconscientemente não escolhemos. Apesar de invisível, não é difícil saber de trata esse poder invisível. Essas ações que fazemos é que fazem parte do nosso não-ser. É hora de descobrir o que somos e esquecer o que não somos tarefa difícil para quem vive nas metrópoles.

Por isso, página, repito um recado que já deixei aqui para universidade, para o trabalho, aos afazeres, aos prazos e leituras obrigatórias: deixem-me ser.

Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem agüentaria os fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão, porque o terror de alguma coisa após a morte –
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos?

Emoção. O que é que te provoca?

July 3rd, 2008 clayton nobre 1 comment

sapato

Página, esse texto que escrevo é para falar de emoção. E tão difícil quanto comentar sobre esse sentimento é provocá-lo nas pessoas. Quem tem o hábito da escrita sempre é pressionado, por si mesmo inclusive, a exercer a atividade tendo em vista a percepção do que o outro terá no usufruto de seu trabalho. Fazer isso seria uma tortura se não fosse prazeroso. Lemos livros, assistimos a filmes, a peças de teatro e vemos pinturas e manobras artísticas. Não é difícil perceber as falhas que os humanos têm quando não conseguem fazer seu trabalho, provocar emoção. Talvez você nem saiba o que é isso.

Disciplina de redação para telejornalismo é um bom exemplo – os que transitam pela área sabem disso. Somos instigados a estabelecer uma parceria meio insana com um telespectador que não conhecemos. Mas é imprescindível escrever um texto (bom), casar a imagem oportuna e criar um caminho de comunicação com o seu receptor. Criar um caminho de comunicação. Coisa mais difícil que a metáfora. Criar um elo de ligação, provocar uma sensação. Às vezes a sutileza é fundamental. Uma passagem. Um personagem ideal. Aquela perguntinha. Pronto.

Os telejornalistas deveriam exercitar a dramaturgia de vez em quando. Daí descobririam outros obstáculos, maiores, para o exercício dessa maluquice. Provocar aquela emoção é mais complicado que fazer o lero-lero com a mãe, a fim de manipular suas opiniões – alguns conseguem. Na dramaturgia, um feeling muito aguçado é necessário. É preciso preparar o público para o momento em que se necessita provocar qualquer sentimento. Criar uma linha dramatúrgica com bastante cautela. E nunca esquecer que o seu receptor vai apreciar o seu trabalho convicto de que não passa de um mentira. Ilo Krugli, dramaturgo conceituado, diretor do grupo de teatro Vontoforte, de São Paulo, na ocasião em que esteve em Manaus, pediu para os alunos de uma oficina relatarem obras de arte que lhes tivessem provocado emoção. A arte que tivesse uma verdade suficiente para a pessoa acreditar na mentira e se emocionar com aquilo. Pergunta difícil. Eu não tinha resposta.

Escrevo tudo tudo isso sobre emoção, página, porque hoje já tenho a resposta a Ilo Kruli. Esperava há tempos assistir a alguma peça de teatro que pudesse acrescentar ao meu cabidal de referências, uma peça que me provocasse aquele momento de amnésia, de esquecimento, de verdade, de emoção. Algo que me provocasse emoção. Quem teve a proeza foi o pessoal da Bahia, a Cia. do meu Tio, que trouxe a Manaus, anteontem, um belíssimo espetáculo de clowns. Houve a tal linha dramatúrgica, houve preparo dos atores, houve boas produção e direção. Mas algo a mais talvez tenha instigado esse sentimento. Ficou agora um gostinho de querer ver mais teatro. Essas pessoas que por mim circulam, deveriam todas ser provocadas. Essas com problema na memória. Essas deveriam ir mais ao teatro.

PS.: o grupo de teatro tem um blog e uma comunidade no orkut.

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Querida página

June 3rd, 2008 clayton nobre 1 comment

Minha querida página,

 

Sei que te devo um milhão de desculpas e nenhuma justificativa será suficiente para eu ter seu perdão. Ainda assim, eu arrisco uma tentativa. Uma tentativa muito rápida, pois estou no horário de trabalho, que é sagrado e me garante uma bolsa de R$400,00.

 

Existe um poder coercitivo sobre esse glóbulo do qual fazemos parte que me obriga a abrir mão desse tempinho que dedico a você. Era esse o poder de coerção de que pretendia me livrar ao praticar o jornalismo. Se fosse de minha vontade, escrevia o que bem vinha em minha cabeça no tempo necessário que a inspiração pede, mas receio que já não seja possível.

 

Já há tempos penso em meu romance e nas linhas invisíveis da minha dramaturgia e lamento o peso na consciência por deixá-la assim, vazia, esburacada, sozinha e angustiada. Mas prometo, assim que possível, elaborarei um conto sobre uma mulher que atravessa uma rua. Já está tudo na cabeça. Tudinho. Surgiu logo agora, quando atravessei a Boulevard para ir ao banco depositar um cheque.

 

Por enquanto tenho essas matérias, esses serviços, alguns telefonemas, umas colagens aqui de jornal – que ainda não terminei, mas falta pouco –, e a leitura de um livro acadêmico (Kafka quer me matar, uma vez que havia reservado o mês de maio para releitura do Processo).

 

Assim como Kafka, sinto que a cada dia vou morrendo, e começo a me preocupar pois sou uma pessoa ainda muito jovem. Mas, retomando, assim como Kafka, já tenho pesadelos com um facão que arranca um pedaço de mim a cada dia da minha vida. Se quer um consolo, página, é você meu ócio – e o teatro enquanto for gostoso.

 

Mas necessito despedir-me apesar do serviço terminado, pois ainda faltam 5 minutos para as 18h. E preciso pensar nos exercícios da faculdade e nas tarefas do estágio a fim de aguçar minha inteligência, aumentar meu coeficiente e me preparar para o mercado de trabalho. Dizer que estou morrendo é um exagero, mas sinto que, a cada dia, estou ficando um pouco mais burro. Socorro, página!

 

Até mais ver,

 

Fui.

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