Conselho Universitário, um conselho aos jornalistas

Não sei bem se as reuniões dos Conselhos Universitários estão na mesma categoria daqueles tipos de ritos secretos pelo qual o jornalista deve passar despercebido a fim de realizar seu “furo”. Explico meu medo. No último Consuni da Ufam, perguntaram-me por que estaria lá a tirar fotos. “É para o site da Adua, onde trabalho”, respondi humildemente. A tréplica foi um olhar de desconfiança.
Logo, os leitores entenderão que talvez não fosse tão difícil saber o porquê do “pé-atrás”. Caso descubra sobre a possibilidade de plateia nas deliberações do Conselho, volto aqui para convidar os leitores a estarem lá presentes. Morrerão todos de rir. Lá é a última instância por qual passam recursos, por exemplo, de jubilamento: o relator do processo lê o recurso do infeliz aluno retardatário e é acompanhado, quase sempre, de gargalhadas da plateia de conselheiros. Já viram aqueles filmes de julgamento, quando os figurantes cumprem tão bem o papel dos cochichos e vaias no momento das interrogações contra o réu?
Algumas vezes, a decisão mais ajuizada, opinião minha, se sobressai – quase sempre por conta de uma voz sábia de um dos conselheiros: “não entendo os motivos das gargalhadas, o aluno está no direito de recorrer”. Outras vezes, os professores, alunos e técnicos são surpreendidos com pautas bombásticas que surgem nas entrelinhas do aviso de convocação. Um milésimo de segundo para pensar o destino da universidade e o rumo de vida que afetará toda a sociedade.

Algumas barbaridades, que por vezes pensamos que é fofoca de mau gosto, são lá reveladas por meios dos processos em pauta. O primeiro daquela reunião me motivou a pensar se escrevia esse post quase duas semanas depois, ainda que algumas informações não estão lá táo apuradas. O tal processo faz parte desse pacote de atrocidades que canalhas da universidade cometem contra os cidadãos que habitam ao redor da instituição.
Pedro Souza, requerente do processo em questão, reclama os erros nas notas de residência médica no Hospital Universitário Getúlio Vargas. O relatório do processo poderia ser tão banal quanto aqueles dos jubilamentos, se não fosse as questões que me fazem espantar os olhos. A alegação de Pedro foi confirmada. As notas do aluno e de mais dois haviam sido alteradas. A servidora encarregada do relatório das notas foi afastada do cargo. Pedro não era amigo do “rei”, nas palavras da relatora do processo, e também não fazia parte do baralho de cartas marcadas do coordenador de curso.
Outra voz me chamava a fim de saber para onde iam minhas fotografias. O dono da voz era Pedro Souza. Me chamou para um canto e contou por que haviam forjado suas notas. “Tire foto minha. Leve pro seu jornal”, disse ele muito timidamente. O processo está no meio de tantos outros lidos durante aquele Conselho. E para azar de Pedro, era reunião sem hábitos de receber jornalistas. Ou porque o Consuni é realmente um daqueles ritos secretos a que me referi, ou porque geralmente algumas decisões que podem influenciar cidadãos e cidadãs de nossa casa não interessam.

Este post se dedica a um caso ocorrido ontem ainda. A Universidade Federal do Amazonas, cheia de acadêmicos que vieram conhecer a instituição por conta da SBPC ou Enapet, é observada pela primeira vez ao vivo por uma série de turistas entusiasmados. A caminho da Ufam, cada grupo de 10 árvores que era visto no ônibus que percorria o Centro, a Cachoeirinha ou o Japiim, era apontado por uma turista “cara de pesquisador”, que indagava: “chegamos à universidade”?
Parece que os colegas jornalistas do Globo e da Folha de S. Paulo ficaram insanos da vida quando viram suas perguntas publicadas, e as respostas reenviadas, para todo mundo ver. É certo que é exagero meu gritar contra a existência de sigilo de órgãos da imprensa. (Muitos aqui deveriam executá-la para preservar o nome de nossos amigos jornalistas ameaçados). Mas, professores de jornalismo, socorro, não me explicaram esse troço de perguntas off.
A tarde mal havia começado ontem, quarta-feira, 6 de maio. Três estudantes secundaristas, identificados facilmente pelo uniforme e materiais escolares, conversavam sob o sol quente habitual da rotatória do Coroado. Perto dali, começavam a estacionar alguns carros da Polícia Militar, preparados mais uma vez para o exercício do poder, com a ajuda certeira de armas, cassetetes, distintivos, sirenes e a poderosa farda cinzenta.
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