Os picolezeiros e outros possíveis sobreviventes do apocalipse
Leia esse post na página do Bufão na revista O Avesso.

Um dia o amazonense vai ser cobaia de alguma experiência intergaláctica, sendo a única espécie humana da Terra imune aos efeitos do aquecimento global. A tese não é minha. É de Márcio Souza, em Fim do Terceiro Mundo, salve engano. Outro dia escutei teorias conspiratórias não tão esdrúxulas em roda de conversa em meio a três ventiladores – um deles já quebrado: Manaus sofrerá, muito breve, impacto parecido com o boom da Zona Franca. Em vez de imigração, o contrário.
Se no início do verão deste ano, o amazonense já não resiste os cérebros em banho-maria, daqui a um tempo haverá uma fuga em massa. A elite manauara é a primeira a escapar, naturalmente. E se não houvesse as possibilidades de uma fuga em massa, se ficássemos aqui presos e ameaçados pelo ardor do aquecimento, então seria a elite amazonense a primeira a cair morta. Digo o motivo, mas antes alerto para as teorias preconceituosas. E também afirmo que gosto de generalizar e não me refiro, neste post, a família e amigos, de quem nunca deixei falarem mal.
Vivo atualmente a experiência de quem troca a rotina de um morador do Centro pelo da Cidade Nova. Sim, literalmente. O esforço para correr pelo assento no ônibus foi trocado pela tentativa, na maioria das vezes vã, de empurrar os passageiros da escada a fim de não ter o pé guilhotinado pela porta de saída. E por isso digo que a alta classe não é imune ao sofrimento, porque aquele pessoal da escada, suados e esbaforidos, soltava risadas de alegria.
Enfrentar a viagem que muitos trabalhadores enfrentam no seu cotidiano exige deles uma paz de espírito incalculável, que buscam quando sobem as escadas e quando começam o expediente. Daí percebo que esses probleminhas da vida são tão meus quanto do Amazonino Mendes. Quando se ignoram os infortúnios de uma viagem maldita, começamos a perceber algumas figuras esquisitas que nos circundam, figurinos das Índias superelaborados, velhinhas apressadas, conversas ao vento, gente tão divertida que parece imune a sofrimento.
Os picolezeiros do fim de tarde dão aula de criatividade. Talvez esses sejam os últimos sobreviventes do fim do mundo. Ontem, o da rota do Manoa, confessou sua indolência: “vocês já me conhecem, eu tô cansado, não preciso falar mais nada. Resumindo, esse é o melhor picolé da cidade de Manaus”. Vendeu mais de dez. Outro, da rota pro bairro Amazonino Mendes, para certificar o cliente da qualidade do picolé, avalia o produto apontando-o para a luz, como se fosse nota de 100 reais. “Esse tá bom!”. Vendeu mais que o outro. Me diverte o com sotaque castellano. Ele vende balas e caneta multicolorida: “Usted escribe azul, negro y rojo, pero pagó solamente un real. Relámpago de la promoción”. Nos acentos, maioria dos passageiros concentrada na leitura do jornal, fenômeno que não se vê nos ônibus rumo à universidade.
Apresentar peça de teatro na feira da Eduardo Ribeiro é desafio a qualquer artista que se alimenta da recepção do público. Dondocas que por lá andam não param de reclamar do próprio suor e fingem que não veem os espetáculos de rua, ali na sua frente, a fim de não serem importunadas. Cito de novo Márcio Souza, para quem a elite amazonense está longe de entender Hamlet. Em vez disso, entende a linguagem do Shopping Center, e sua atenção está calibrada pelo tempo de informação que a televisão bombardeia. Esses, digo eu, são os sofredores de nossa cidade, os primeiros a serem derretidos, escorrendo nas lamas de um planeta em pleno apocalipse.
E os hermanos que tocam bolero no ônibus, por alguns trocados? Tomara que eles sobrevivam tbm…
A teoria da sobrevivência do amazonense ao aquecimento global é primorosa.
Aliás, Bufão, que excelente texto. Eu quero beber essa água que você toma.
Oi, Clayton!
Como tem passado? Só para dizer que adorei seu texto e em alguns aspectos Manaus não é muito diferente de Boa Vista.
Aliás, quando você virá aqui com uma peça?
Grande abraço, da sua leitora e fã, Cora
esse texto me lembrou a alta rotatividade de ventiladores aqui no meu quarto…