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Archive for October 28th, 2008

Não perca: barbárie e espetáculos do mundo moderno!!!

October 28th, 2008 clayton nobre 3 comments

Certo dia, os transeuntes do Centro da cidade de Manaus depararam-se com uma obra de arte que circulou a Epaminondas até a Eduardo Ribeiro, já próximo da Sete de Setembro. A notícia saiu no jornal e foi lida – pude perceber – com muito entusiasmo e alegria pelas donas de casa e vizinhanças.

Não se trata de passeata, comício, cortejo teatral ou coisa parecida. Uma senhora levava em uma das mãos uma sacola com as compras do dia. Desculpe o leitor por caracterizar o fato como obra de arte. Não é ironia ou deboche. Mas parecia cena de cinema ou de um livro de Saramago quando um rapaz passou correndo, furtou a sacola da mulher e foi perseguido por dezenas de homens pelas ruas do Centro. O propósito parecia muito simples. A indignação é clara quando se trata de um assalto em lugar onde se paga para caminhar com segurança. Parecia por isso que todos se sentiam como uma multidão diante de uma pênalti. Todos com a mesma esperança e o mesmo objetivo, fossem os homens que corriam atrás do assaltante, fossem as senhoras que protegiam seus filhos e sacolas e gritavam “Ladrão, ladrão!”

Para outra pessoa, parecia ter bastado recuperar o objeto roubado, devolvê-lo à mulher e chamar uma viatura da polícia. Mas isso não era suficiente para a multidão de torcedores amazonenses que estavam lá apreciando a obra de arte, reunidos, furiosos, tencionados a fazer justiça com as próprias mãos. Chutes, pontapés, sangue, sangue, sangue… A platéia vibrava.

O mesmo destino os outros, em frente às seus aparelhos de tevê, queriam que tivesse Lindemberg após sua confusão amorosa, antes de balear duas meninas inocentes após um seqüestro de mais de cem horas. O mundo hoje, que perde a confiança nos detentores do poder e na Justiça, sente-se desabrigada. José Saramago já afirmou ter medo do dia em que o mundo se revelasse como ele realmente é, se todos descobríssemos o que somos verdadeiramente. A verdade, leitor, é que você faz parte da mesma barbárie de um mundo moderno contaminado. Ainda bem que não estamos cegos.

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