Querida página
Minha querida página,
Sei que te devo um milhão de desculpas e nenhuma justificativa será suficiente para eu ter seu perdão. Ainda assim, eu arrisco uma tentativa. Uma tentativa muito rápida, pois estou no horário de trabalho, que é sagrado e me garante uma bolsa de R$400,00.
Existe um poder coercitivo sobre esse glóbulo do qual fazemos parte que me obriga a abrir mão desse tempinho que dedico a você. Era esse o poder de coerção de que pretendia me livrar ao praticar o jornalismo. Se fosse de minha vontade, escrevia o que bem vinha em minha cabeça no tempo necessário que a inspiração pede, mas receio que já não seja possível.
Já há tempos penso em meu romance e nas linhas invisíveis da minha dramaturgia e lamento o peso na consciência por deixá-la assim, vazia, esburacada, sozinha e angustiada. Mas prometo, assim que possível, elaborarei um conto sobre uma mulher que atravessa uma rua. Já está tudo na cabeça. Tudinho. Surgiu logo agora, quando atravessei a Boulevard para ir ao banco depositar um cheque.
Por enquanto tenho essas matérias, esses serviços, alguns telefonemas, umas colagens aqui de jornal – que ainda não terminei, mas falta pouco –, e a leitura de um livro acadêmico (Kafka quer me matar, uma vez que havia reservado o mês de maio para releitura do Processo).
Assim como Kafka, sinto que a cada dia vou morrendo, e começo a me preocupar pois sou uma pessoa ainda muito jovem. Mas, retomando, assim como Kafka, já tenho pesadelos com um facão que arranca um pedaço de mim a cada dia da minha vida. Se quer um consolo, página, é você meu ócio – e o teatro enquanto for gostoso.
Mas necessito despedir-me apesar do serviço terminado, pois ainda faltam 5 minutos para as 18h. E preciso pensar nos exercícios da faculdade e nas tarefas do estágio a fim de aguçar minha inteligência, aumentar meu coeficiente e me preparar para o mercado de trabalho. Dizer que estou morrendo é um exagero, mas sinto que, a cada dia, estou ficando um pouco mais burro. Socorro, página!
Até mais ver,
Fui.
Lindo!!! Disse tudo e um pouco mais!!! Morremos a cada dia um pouco mais e tentamos fazer tudo o que nos faz ser o que somos, apesar dessas forças maiores que teimam a se contrapor a nossa perseverança!
Queira o divino que eu consiga continuar sendo eu mesmo…