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Não sei bem se as reuniões dos Conselhos Universitários estão na mesma categoria daqueles tipos de ritos secretos pelo qual o jornalista deve passar despercebido a fim de realizar seu “furo”. Explico meu medo. No último Consuni da Ufam, perguntaram-me por que estaria lá a tirar fotos. “É para o site da Adua, onde trabalho”, respondi humildemente. A tréplica foi um olhar de desconfiança.
Logo, os leitores entenderão que talvez não fosse tão difícil saber o porquê do “pé-atrás”. Caso descubra sobre a possibilidade de plateia nas deliberações do Conselho, volto aqui para convidar os leitores a estarem lá presentes. Morrerão todos de rir. Lá é a última instância por qual passam recursos, por exemplo, de jubilamento: o relator do processo lê o recurso do infeliz aluno retardatário e é acompanhado, quase sempre, de gargalhadas da plateia de conselheiros. Já viram aqueles filmes de julgamento, quando os figurantes cumprem tão bem o papel dos cochichos e vaias no momento das interrogações contra o réu?
Algumas vezes, a decisão mais ajuizada, opinião minha, se sobressai – quase sempre por conta de uma voz sábia de um dos conselheiros: “não entendo os motivos das gargalhadas, o aluno está no direito de recorrer”. Outras vezes, os professores, alunos e técnicos são surpreendidos com pautas bombásticas que surgem nas entrelinhas do aviso de convocação. Um milésimo de segundo para pensar o destino da universidade e o rumo de vida que afetará toda a sociedade.

Algumas barbaridades, que por vezes pensamos que é fofoca de mau gosto, são lá reveladas por meios dos processos em pauta. O primeiro daquela reunião me motivou a pensar se escrevia esse post quase duas semanas depois, ainda que algumas informações não estão lá táo apuradas. O tal processo faz parte desse pacote de atrocidades que canalhas da universidade cometem contra os cidadãos que habitam ao redor da instituição.
Pedro Souza, requerente do processo em questão, reclama os erros nas notas de residência médica no Hospital Universitário Getúlio Vargas. O relatório do processo poderia ser tão banal quanto aqueles dos jubilamentos, se não fosse as questões que me fazem espantar os olhos. A alegação de Pedro foi confirmada. As notas do aluno e de mais dois haviam sido alteradas. A servidora encarregada do relatório das notas foi afastada do cargo. Pedro não era amigo do “rei”, nas palavras da relatora do processo, e também não fazia parte do baralho de cartas marcadas do coordenador de curso.
Outra voz me chamava a fim de saber para onde iam minhas fotografias. O dono da voz era Pedro Souza. Me chamou para um canto e contou por que haviam forjado suas notas. “Tire foto minha. Leve pro seu jornal”, disse ele muito timidamente. O processo está no meio de tantos outros lidos durante aquele Conselho. E para azar de Pedro, era reunião sem hábitos de receber jornalistas. Ou porque o Consuni é realmente um daqueles ritos secretos a que me referi, ou porque geralmente algumas decisões que podem influenciar cidadãos e cidadãs de nossa casa não interessam.
Leia esse post na página do Bufão na revista O Avesso.

Um dia o amazonense vai ser cobaia de alguma experiência intergaláctica, sendo a única espécie humana da Terra imune aos efeitos do aquecimento global. A tese não é minha. É de Márcio Souza, em Fim do Terceiro Mundo, salve engano. Outro dia escutei teorias conspiratórias não tão esdrúxulas em roda de conversa em meio a três ventiladores – um deles já quebrado: Manaus sofrerá, muito breve, impacto parecido com o boom da Zona Franca. Em vez de imigração, o contrário.
Se no início do verão deste ano, o amazonense já não resiste os cérebros em banho-maria, daqui a um tempo haverá uma fuga em massa. A elite manauara é a primeira a escapar, naturalmente. E se não houvesse as possibilidades de uma fuga em massa, se ficássemos aqui presos e ameaçados pelo ardor do aquecimento, então seria a elite amazonense a primeira a cair morta. Digo o motivo, mas antes alerto para as teorias preconceituosas. E também afirmo que gosto de generalizar e não me refiro, neste post, a família e amigos, de quem nunca deixei falarem mal.
Vivo atualmente a experiência de quem troca a rotina de um morador do Centro pelo da Cidade Nova. Sim, literalmente. O esforço para correr pelo assento no ônibus foi trocado pela tentativa, na maioria das vezes vã, de empurrar os passageiros da escada a fim de não ter o pé guilhotinado pela porta de saída. E por isso digo que a alta classe não é imune ao sofrimento, porque aquele pessoal da escada, suados e esbaforidos, soltava risadas de alegria.
Enfrentar a viagem que muitos trabalhadores enfrentam no seu cotidiano exige deles uma paz de espírito incalculável, que buscam quando sobem as escadas e quando começam o expediente. Daí percebo que esses probleminhas da vida são tão meus quanto do Amazonino Mendes. Quando se ignoram os infortúnios de uma viagem maldita, começamos a perceber algumas figuras esquisitas que nos circundam, figurinos das Índias superelaborados, velhinhas apressadas, conversas ao vento, gente tão divertida que parece imune a sofrimento.
Os picolezeiros do fim de tarde dão aula de criatividade. Talvez esses sejam os últimos sobreviventes do fim do mundo. Ontem, o da rota do Manoa, confessou sua indolência: “vocês já me conhecem, eu tô cansado, não preciso falar mais nada. Resumindo, esse é o melhor picolé da cidade de Manaus”. Vendeu mais de dez. Outro, da rota pro bairro Amazonino Mendes, para certificar o cliente da qualidade do picolé, avalia o produto apontando-o para a luz, como se fosse nota de 100 reais. “Esse tá bom!”. Vendeu mais que o outro. Me diverte o com sotaque castellano. Ele vende balas e caneta multicolorida: “Usted escribe azul, negro y rojo, pero pagó solamente un real. Relámpago de la promoción”. Nos acentos, maioria dos passageiros concentrada na leitura do jornal, fenômeno que não se vê nos ônibus rumo à universidade.
Apresentar peça de teatro na feira da Eduardo Ribeiro é desafio a qualquer artista que se alimenta da recepção do público. Dondocas que por lá andam não param de reclamar do próprio suor e fingem que não veem os espetáculos de rua, ali na sua frente, a fim de não serem importunadas. Cito de novo Márcio Souza, para quem a elite amazonense está longe de entender Hamlet. Em vez disso, entende a linguagem do Shopping Center, e sua atenção está calibrada pelo tempo de informação que a televisão bombardeia. Esses, digo eu, são os sofredores de nossa cidade, os primeiros a serem derretidos, escorrendo nas lamas de um planeta em pleno apocalipse.
Leia esse post na página do Bufão na revista O Avesso.
Não sou de falar, sou de escrever. Alguns sabem disso. Viveria melhor nos círculos sociais e acadêmicos se tivéssemos a oportunidade de parar um instante nossas conversas para divagar por escrito, e com isso, ler o que já foi refletido. Por isso, não se sintam odiados quando recebem de mim a velha resposta de que sim, estou bem e que sim, está tudo joia.
Andar atualmente com uma cicatriz na testa me incita o preparo de uma resposta já pronta, mas a indolência que tenho a prepará-la e de ter que repeti-la, em todos os encontros, a quem me pergunta com a cara de nojo ou pesar: “o que foi isso, menino?”. Prefiro responder aborrecidamente: “nada”. O certo é que andava distraído, como tenho andado nos últimos dias, e tive a má sorte de me deparar com a quina de uma janela.
Por isso, caros, esse post é elaborado com as segundas intenções de saciar as vontades de quem perquire a internet a fim de saber qual é a desse menino. Digo isso porque deste instante em diante deparo-me com a graciosa oportunidade de que muitos gostam: novas amizades. São esses momentos, podemos perceber, que caracterizam os marcos deixados em nossas vidas. Cada grande amigo que temos representa uma fase de vida, velha ou nova, que fomos inquiridos a enfrentar. E o melhor de todas essas mudanças, quando colam grau, quando mudam de endereço, quando recebem novos projetos a serem desempenhados, bons ou maus caminhos que escolhemos, são essas recompensas que ficam para a gente.
Então, por enfrentar todas essas mudanças em um pacote só, digo aos que aqui fuçam que apesar da chatice, já dizia Mário Quintana que os amigos são nossos chatos prediletos. Também revelo falo com os olhos, alguns já sabem decifrar. Fiquem atentos para a perturbação diária de divulgações e lembretes das peças de teatro que apresentarei. A mais ruim das qualidades é que não tenho a decisão certa a tomar na ponta da língua. Sou indolente, amazonense, portanto, deixem-me pensar.
Um presente aos leitores: poema sobre os bons amigos que encontrei de Machado de Assis. A quem tiver tempo, é só clicar no link de baixo.
Leia esse post na página do Bufão na revista O Avesso.
Já passa um mês o Bufão vem se entristecendo com a desatualização. A responsabilidade pela retomada ainda é maior tendo em vista o leque de pautas que foram deixadas para trás. Mil perguntas surgiam, por exemplo, acerca da posição deste blog em relação à decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a proibição da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo.
Não é que tenho opinião incômoda para a mobilização anti ou pro-diploma. O certo é que, levando-se em conta o embaraço dos parafusos que se formam em minha cabeça e a possibilidade de uma discussão que já está na geladeira, prefiro discorrer sobre este entre outros assuntos a partir de algumas digressões que faço no dia-a-dia. Digressão, digo eu, é aquele momento em que, sem muito a fazer, faz-se uma pausa no pensamento para dedicar a atenção a algo que lhe surge momentaneamente.
Este post se dedica a um caso ocorrido ontem ainda. A Universidade Federal do Amazonas, cheia de acadêmicos que vieram conhecer a instituição por conta da SBPC ou Enapet, é observada pela primeira vez ao vivo por uma série de turistas entusiasmados. A caminho da Ufam, cada grupo de 10 árvores que era visto no ônibus que percorria o Centro, a Cachoeirinha ou o Japiim, era apontado por uma turista “cara de pesquisador”, que indagava: “chegamos à universidade”?
O fato que trago à discussão (desculpem a digressão da digressão) ocorreu quando uma dessas meninas branquinhas entrou na linha 616, às 21h, e, com o ônibus já em percurso, pediu com o ar gentil de solicitude ao motorista: “quando esse ônibus passar próximo da Vila Olímpica, o senhor me avisa?”
Daí uma conversa desesperada entre cobradora, passageiros e motorista foi lançada para que a moça pudesse chegar ao alojamento na Vila Olímpica com as melhores vantagens para ela própria tendo em vista o desafio que será feito, uma vez que a linha seguia em rumo completamente inverso.
- Você vai descer na avenida Getúlio Vargas, e de lá pega, anote aí, o 223 ou o 207. E o 214 também.
- Não, fulano, assim ela vai pagar dois ônibus. Ela não tem a carteirinha.
- Mas se ela não pagar dois ônibus, não chega à Vila Olímpica.
- Mas é claro que chega. Moça, chama esse rapaz. (Ao rapaz) Você sabe que ônibus do T2 passa na Vila Olímpica?
- Oi? Pelo que saiba, nenhum.
- Ih, então o jeito é pagar dois ônibus mesmo.
- Não tô dizendo… Você desce na Glacial, e espera o 223, 207 ou o 214.
Outro passageiro: – Mas ela vai pegar dois ônibus.
- Fazer o quê?
- Deixa eu dizer. Ela pode descer no T2, pegar o integração pra ir ao T1. De lá, tem um monte de ônibus que vai pra Vila Olímpica.
- Então é isso. Vem cá, você vai descer no primeiro terminal. Lá você pega o integração e no outro terminal você espera os ônibus pra Vila Olímpica?
- Quais ônibus?
- Espera aí, chama esse moço de novo. (Ao rapaz novamente) Quais ônibus da Vila Olímpica passam no T1?
- Se não me engano, 201 passa.
- Você falou que passa um monte…
- É, mas não sei quais passam, nem moro lá perto.
- Eu acho melhor ela descer na Getúlio Vargas, pagando dois ônibus e pronto.
- Mas eu vou pagar dois ônibus todo dia?
- Não, filha. Você nunca mais suba nesse 616 pra ir para a Vila Olímpica. Pegue o 125 e desça no Terminal da Constantino Nery.
Daí a moça desceu no terminal da Cachoeirinha, meio grata, meio receosa. O motorista, que parecia já ter se distanciado da conversa, acende atrasado uma lâmpada:
- Olha a leseira. Era só ela ter pegado o 215. Ia direto.
Termino o post dizendo que compreendo o direito de liberdade de se expressão das pessoas. Assevero a fala de que a opinião é diversa e a manifestação plural desta é um dever da mídia, dos cidadãos, das organizações, dos bares e academias de educação física. Agora fato é fato. Contextualizar informações, mediar opiniões, apurar e difundir da maneira mais clara possível é tarefa dura, exige inteligência e, sim, caros, aprendizagem.
Leia esse post na página do Bufão na revista O Avesso.

Devo ter faltado algumas aulas importantes no curso de jornalismo, porque o ponto do meu cérebro onde são formadas minhas opiniões está em clima de samba do crioulo doido, de modo que peço socorro. Estão comentando aí que a Petrobras está violando o “sigilo dos órgãos de imprensa”, e digo isso com uma pitada de sorriso mordaz na ponta da boca, pois sempre achei que sigilo e imprensa fossem palavras completamente antagônicas.
O fato que cito tem relação com a criação do blog Fatos e Dados, da Petrobras. Pela primeira vez algo aconteceu nessa Comissão Parlamentar de Inquérito que nos fizesse lembrar quem era o alvo dos investigadores, se não o PT, o Governo e os oposicionistas. A assessoria da Petrobras decidiu criar um blog para publicar as perguntas off que os jornalistas enviam para a empresa, assim como o posicionamento “politicamente correto” da Petrobras ante as reportagens que veem na mídia, com direito a divulgação via twitter.
Parece que os colegas jornalistas do Globo e da Folha de S. Paulo ficaram insanos da vida quando viram suas perguntas publicadas, e as respostas reenviadas, para todo mundo ver. É certo que é exagero meu gritar contra a existência de sigilo de órgãos da imprensa. (Muitos aqui deveriam executá-la para preservar o nome de nossos amigos jornalistas ameaçados). Mas, professores de jornalismo, socorro, não me explicaram esse troço de perguntas off.
Na prática do jornalismo, quando a fonte menciona o nome “off”, meus ouvidos acendem aceleradamente e ganho interesse pela reportagem. A vontade é de publicar, e, sendo informação, gravo e publico. É engraçado perceber como as funções agora se invertem e não há mesmo mocinho e vilão nessas contendas corriqueiras entre assessor de comunicação e jornalista. Vi nas salas de aula uma briguinha tola que acusavam RP’s de “omissores” dos fatos, e também os jornalistas pela agonia de publicá-las a todo custo. Essa discussão continua. Dia desses presenciei uma parecida.
Os blogs, já diziam nessa época de sua disseminação, eram ótimas ferramentas para que jornalistas publicassem seus textos off, suas matérias censuradas, etc. Arrisco-me a dizer que parece que a Petrobras (me perdoem se outra empresa já fez isso antes) quer virar uma página da teoria do jornalismo, e ser alvo de discussões nas aulas de ética. Preciso participar desses debates pois meu cérebro necessita de opiniões alheias.
Desculpem minha ignorância, nem conheço muito a linha editorial desses jornais, e pouco sei sobre as discussões que envolvem a cobertura da tal CPI. Mas me parece que a Petrobras, que não é burra, quis experimentar uma carapuça nos jornalistas paulistas, frustrados da vida. E parece que a roupa serviu.
Sete dias depois e nada de profecia concretizada. Nenhum telefonema com chamados estranhos, água transbordando em televisão, escada, árvore, nada. Desculpem o post repetitivo, mas trabalhando na Associação dos Docentes da Ufam (Adua), e ainda que monografia, Baião de Dois e maratona Lost tenham preenchido o meu final de semana, é impossível me distanciar dos fatos relacionados à agressão em sala de aula – cometida já faz uma semana, tema do último post.
A alguns curiosos que me perguntam notícias que a Adua tem em relação ao caso, basta acessar a página da entidade na internet (merchan básico). Para resumir, vou relatar brevemente, com o tempo que as atribulações me permitem, um pouco dos desdobramentos e repercussões que todos estão aflitos para saber.
Verifiquei hoje cedo que o ator que interpretou a Samara Aziz (versão Amy Winehouse, conforme apontou meu amigo Fábio no Twitter), durante ato público de sexta-feira, passa bem e não sofreu atentados surpreendentes em suas caminhadas rotineiras nas noites do Centro de Manaus, e sim, está com os dentes mantidos no lugar.
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Os diretores da Adua, mais o estudante que vos fala, também gozam de perfeita saúde e o dia na universidade parece ter sido tão corriqueiro quanto sempre o foi, sem água, sem telefone. Mas não dá pra criar teorias conspiratórias relacionando isso ao caso Aziz. Só não posso passar notícias do anônimo internauta V de Vendeta por segurança e ignorância. Só sei que a comunidade no Orkut “Porrada na Samara“, criada pelo sujeito, não parece ter mobilizado rapidamemte a comunidade universitária, em suas manifestações politicamente corretas de paz e amor ao próximo.
O reitor da Ufam continua em Brasília e participou de uma grande condecoração, no Senado Federal, que homenageou a universidade pelo seu centenário entre outras flores. Qualquer encaminhamento em relação aos problemas e mazelas da instituição, ele manda dizer que passou o bastão para um de seus pró-reitores. Aqui na Ufam, o reitor em exercício Edmilson Bruno promete ligar para o reitor amigo a fim de saber se ele vai fazer, uma semana depois, uma bendita notinha pública contra o atentado na universidade.
Sobre a repentinamente mal-amada Samara, parece que esta se esvaneceu. Em reunião da reitoria com professores, foi acertado que uma Comissão de Inquérito da Ufam será convocada hoje, por meio de portaria prometida pelo reitor em exercício, para resolver o futuro da garota na instituição. Os alunos, entretanto, querem tomar para si essa decisão. Há quem diga que ela passou para a faculdade Martha Falcão (para graça do jornalismo local, ela vai pra outro curso: Direito). A próxima manifestação, se ainda sobrar o calor pela expressividade anti-Aziz, será nos corredores da faculdade particular.
E na imprensa local, destaco dois artigos. Um, de autoria do professor Aldisio Filgueiras, conseguiu de alguma forma passar pelo crivo dos olhos do Amazonas Em Tempo e será fixado nas paredes da universidade. A outra é do colega do primeiro, o escritor Márcio Souza. Ele compara Samara Aziz a qualquer outro deliquente, por compartilhar o mesmo cinismo, truculência e impunidade de um menino que brinca com metralhadoras. Ele pede para fechar as portas da Ufam caso o fato da agressão fique impune, uma vez que estará comprovada a ausência de liberdade de cátedra da instituição. Alguns alunos já pensaram em preparar, para qualquer dia desses, uma cruz enterrada em frente à Ufam, com o epitáfio: “Aqui jaz uma universidade”.
P.S.: De presente os cartazes que tanto pediram…
Começo a sentir uma ligeira vantagem na arte de comandar um blog. Como se não bastasse a visibilidade que ele vem me oferecendo como um finalista de jornalismo, me ligam com a oferta de uma “pauta de blog”:
- Já está sabendo?
- Oi. Alô, sabendo o quê?
- Tô ligando pra saber se tu já tá sabendo.
Me explicou rapidamente algo em relação à Ufam, estudantes, e já me veio uma resposta pronta sobre a manifestação. Respondi que não estive na última reunião, não estava sabendo.
- Mas põe no teu blog!
E então me explicou direito uma informação que, realmente, não poderia se adequar no molde de uma pauta comum em relação a alguns jornais que lemos. Não é à toa que o fato, ocorrido há pouco, já está em diversos blogs de jornalistas locais. Em época ainda de redemocratização, em que a censura toma formas diferenciadas, invisíveis a olhos ingênuos, crua e maldosa, a “pauta de blog” é um conceito que já deveria estar nos mais modernos livros de comunicação. E os alunos do primeiro período do referido curso, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), já estão cientes da demanda, e conferiram com os próprios olhos.
Em uma das primeiras aulas da disciplina Tópicos Especiais de Jornalismo, um dos assuntos do professor Gilson Monteiro era a censura, os desmandes dos coronéis ante aos meios de comunicação de nossa provinciana cidadezinha baré. Logo depois veio a abordagem prática, com direito a uma visita acadêmica à delegacia de polícia lá perto. Resumindo: o que me contaram as testemunhas do fato – fiz o exercício da apuração – a sobrinha do vice-governador Omar Aziz assim que escutou a crítica feita pelo professor ao tio durante a aula, demonstrou a quem quisesse conferir a sua insatisfação. Seja pelo sentimento de desrespeito, seja pelo faro jornalístico de foquinha recém-nascida, ou por orientações, ou pela vontade do desabafo, a aluna não receou sua futura imagem em sala de aula, nem o recado no Orkut: “o respeito põe os dentes no lugar”, e ligou para o pai, reclamando.
Um tempo depois estavam o pai e o tio Amin Aziz com o segurança, no auditório, para demonstrar a diferença do domínio entre professor e político na base da pancada. Socou o professor Gilson, sem poupar os alunos que estavam presentes, ou o ambiente universitário ou uma pequena leva de jornalistas com poderosos contatos. Inconformado com a notícia, me subiu aquele tino blogueiro, a mesma vontade que tiveram nossos colegas universitários da Uninorte, quando presenciaram fato similar com seus amigos em época de campanha eleitoral.
O tino já havia me contagiado quando perturbada, uma amiga veio me confidenciar dia desses a intimidação que recebeu do vereador Fausto Souza, por telefone, após ter publicado em jornal alguns fatos sobre o homem, colega dos oprimidos. Também há de se comentar aqui a possível intimidação feita a outro jornalista, Cristóvão Nonato, demitido da TV Cultura após denunciar as condições em que trabalhava para a empresa. Sim, amigos, em tempos de manifestações nas ruas, a impressão é que outra geração nos emprestou o prazer de viver a década de 1960.
- Tu vai publicar no teu blog?, me perguntaram ao telefone.
- Mas isso não é pauta pra blog… Manda isso já pra imprensa!
- Clayton, sabe como é a imprensa! Isso é pauta pra blog.
Sim, mas se não fosse a enxurrada de informações sobre o caso circulando via rede social nesta noite, a imprensa acabaria por se autoflagelar caso deixasse se furar pelo fato. Ainda bem.
A tarde mal havia começado ontem, quarta-feira, 6 de maio. Três estudantes secundaristas, identificados facilmente pelo uniforme e materiais escolares, conversavam sob o sol quente habitual da rotatória do Coroado. Perto dali, começavam a estacionar alguns carros da Polícia Militar, preparados mais uma vez para o exercício do poder, com a ajuda certeira de armas, cassetetes, distintivos, sirenes e a poderosa farda cinzenta.
A caminho sabe-se lá de onde, os três estudantes tiveram os passos interrompidos. Um carro da polícia estaciona diante dos secundaristas e começa um diálogo e cavaqueira que já não foi possível escutar. Só era possível observar três pares de olhos assustados, palavras que pareciam descompassadas e nervosas e uma luz vermelha que piscava e piscava. Imagine você, parado em uma calçada de trânsito, fazendo sabe-se lá o quê, e começa a ser abordado por três policiais militares. O assunto pode ser a informação de algum itinerário, ou a gripe suína ou o vídeo da Susan Boyle, mas não neguemos que é fácil nos sentir em posição de um Raphael Souza diante da imprensa amazonense.
No dia anterior, o abuso de poder havia sido pior. O major PM Walter Cruz, conforme Jornal A Crítica, não abriu mão de sua força e domínio para agredir os estudantes em seu direito de expressão na frente da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Em Porto Velho (RO), nossos colegas estudantes contam fatos ainda mais risíveis se não dramáticos. Além dos pontapés usados aqui, lá houve também spray de pimenta e bala de borracha. O motivo era a baderna que o coletivo estudantil fazia em prol da redução da tarifa e melhoria da oferta e qualidade do transporte coletivo rondoniense.
No final das contas, amigos, seja você contra ou a favor da redução do uso da meia-passagem, os protestos que fazem os alunos no meio das ruas de Manaus são uma manifestação contra o abuso de poder, no caso dos proprietários do sistema de transporte coletivo da cidade. É uma luta que não se começou a enfrentar no feriado de 1º de maio, mas todos os dias. Em sala de aula, a batalha contra o abuso de poder é constante e diário. Em todos os instantes temos a necessidade de colocar uma posição que não pode ser passiva diante de todos as ações que são voltadas contra nós, nossos direitos e nossa liberdade de pensamento.
Já são dez mil estudantes aderindo a manifestação e sentindo nas mãos o poder de provocar opinião, caos na cidade e manchete nos jornais. Isso é bom. Mas desculpem-me o pessimismo, a lógica neoliberal que nos circunda tem o poder que é maior e inimaginável. De alguma forma ou de outra, pagaremos o que queremos abrir mão, da forma totalitária e invisível com a qual os poderosos sempre agiram. E, concordo com Andrés, alguns desses poderosos estão por aí, parando o trânsito, camuflados como cobras e lagartas nos campus da Ufam, aqui ou em Brasília, levantando cartazes e batendo em nossos ombros.
ASSUNTOS PARA LEMBRAR
Na falta de tempo e disponibilidade para dissertar sobre outros assuntos, aqui vai um espaço bem pequeno para fazer algumas lembranças antes que elas caem no esquecimento.
Somos todos atores
O diretor brasileiro Augusto Boal tem mais para falar aos cidadãos que aos artistas das artes cênicas. Responsável pela “deselitização” do teatro, seria primoroso se alguns de nossos teatreiros se identificassem com um pontinho sequer do Teatro do Oprimido. Por enquanto, pensam já na próxima edição da nossa festividade anual, que premia os espetáculos mais apreciados entre os críticos e academicistas de arte. E o público que tínhamos aqui, digo sempre, se esvanece ante o poderio televisivo.
O Avesso
Já faz um tempinho, o Bufão está com outro endereço. Agora, ele também faz parte de O Avesso, uma revista eletrônica que merece ser apreciada pelos internautas amazonenses. A ideia e o convite foi de Ismael Benigno, que escreve para o blog O Malfazejo. Como já me habituei ao novo endereço, já começo a difundir: www.oavesso.com.br/obufao. Estou indeciso, confesso, se abro mão deste endereço. Por enquanto valem os dois.

Padeci em uma tarde desta semana de uma de minhas últimas participações em reunião de departamento de curso como representante discente. Devo dizer que é uma excepcional experiência, daquelas que nos fazem ganhar o dia. Professores são testados no âmago de seu humor e vemos aflorar sentimentos ao extremo, seja de gargalhadas ou queixas, denúncias, gritarias, piadas divertidas ou inoportunas, sofrimentos, tormentos e uma procura incessante dos docentes, em seus largos bolsos, por uma incomensurável pílula de paciência.
Um parêntese para a falta de tempo para o blog. Abri esta página na intenção de prestar um depoimento acerca de algumas eventualidades pelas quais passei durante a última semana, incluindo a mostra e o festival de videodança. Mas por um pedido de uma docente com o comportamento meio esquizofrênico e por conta de algumas imagens que se firmam agora em minha cabeça, é impossível pensar em outro assunto se não este do qual trato agora. Fico devendo outros textos.
Por intermédio deste blog e com a segurança de que muitos docentes desconhecem tal ferramenta, faço um conclamação a todos os estudantes que estiverem encostados ao léu nas pilastras da academia, macambúzios pelo cancelamento da aula por conta da extraordinária reunião de departamento. Procurem vocês o local de tal reunião, chamem de lado os representante discentes, e entrem na sala, participem. A reunião é gratuita e aberta a qualquer viva alma. A única restrição é fingir ausência quando o chefe pedir a contagem de votos.
A convocação é a todos os estudantes universitários com a disposição de tempo e paciência, independente do curso, pois o modelo de reunião que explicitarei aqui foi atestado por professores de outros departamentos. A prova é que docente e discente são os mesmos em qualquer lugar sob quaisquer circunstâncias. Desconfiem da boa vontade. Alguns realmente o têm, os outros a usam como subterfúgios. Pontuações e grana estão a todo instante no subtexto das falas expressas nessas reuniões. Sim, lucro, colegas. Já me disseram que é impossível lutar contra a privatização da universidade, uma vez que os professores já a fizeram.
Cuidado, muito cuidado com as gargalhadas inoportunas, aquelas que surgem em nossas bocas de maneira espontânea e involuntária. Alguns professores não conseguem evitar, sequer alunos. A alternativa que uns amigos usam é desviar a atenção por uns instantes com palavras cruzadas, rabiscos na agenda, mensagem no celular para o colega a três carteiras de distância, bilhetinhos e conversa paralela. E como há conversa paralela! Você se sente emocionado e aliviado quando, numa aula comum, um professor desses lhe pede para fazer silêncio.
Vão me perguntar, provavelmente, o motivo pelo qual poderiam surgir essas gargalhadas debochadas e involuntárias durante uma reunião de departamento. Prefiro que vocês próprios se certifiquem na garantia que meu conclame não seja em vão. Uma dica: prepare os papeizinhos ou o Coquetel no momento da leitura dos planos de aula. Ou melhor, muito melhor, prepare sua voz, expresse, denuncie, reclame. Essa será a sua única oportunidade, colega, de fazer frente ao proveito de poder que muitos usam no atual modelo de ensino no país. Dessa vez o professor não estará em posição de comandante, assistindo à sua ineficaz vontade de se expressar. Lá estará em seu círculo, e será um reles como todos somos, e terá comportamento às vezes um tanto perturbante quanto o nosso quando em aula.
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