“A pesquisa de Osmar é uma das mais fascinantes e curiosas aventuras intelectuais que se possa desejar, qual seja a de apurar se um texto que pretende ser de autoria de um Balzac morto oferece condições mínimas de credibilidade para aceitação como tal.”
Hermínio C. de Miranda
Sobre a Pesquisa
Sem similar na literatura universal, a pesquisa “O AVESSO DE UM BALZAC CONTEMPORÂNEO – ARQUEOLOGIA DE UM PASTICHO” realizada por Osmar Ramos Filho investiga o problema da autoria do romance mediúnico “CRISTO ESPERA POR TI”, psicografado por Waldo Vieira e atribuído ao espírito de Honoré de Balzac. Em sua arqueologia literária, Osmar Ramos Filho procede a um paralelo exaustivo entre o texto psicografado e a obra de Balzac e aprofunda a investigação sobre fatos, nomes e hábitos recriados no romance, com resultados assombrosos. O autor não tira conclusões, mas o leitor deduz que, se o romance não foi escrito por Balzac, só pode ter sido escrito por Balzac.
“O ÚLTIMO ROMANCE DE BALZAC”
A pesquisa de Osmar Ramos Filho inspirou a realização do longa-metragem “O Último Romance de Balzac”, que valeu ao diretor Geraldo Sarno o Prêmio Especial do Júri do 38º Festival de Gramado de 2010.
Sobre o livro
O Avesso de um Balzac Contemporâneo
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Osmar Ramos Filho dedicou sete anos a uma pesquisa aplicada com métodos científicos comparando parágrafo por parágrafo o teor do livro Cristo Espera por Ti, psicografado por Waldo Vieira e atribuído ao espírito de Honoré de Balzac, com a “Comédia Humana”, obra monumental de Balzac que conta com cerca de 88 a 90 livros publicados em vida.
Ele concluiu que o livro mantém o estilo extremamente detalhista, erudito e sofisticado de Balzac, típico do século XIX, incluindo o uso de citações precisas sobre botânica, psiquiatria, música e odores. A complexidade e o nível da escrita foram o que levaram Ramos Filho, inicialmente cético, a admitir que não seria possível para outra pessoa imitar o autor naquele nível.
Waldo Vieira
Málu Balona
Alexandre Rocha
Alexandre Caroli
Osmar Ramos
Geraldo Sarno
Análise Hermenêutica
Estudo de estilística comparada e intertextualidade balzaquiana num romance do século XX
Do ponto de vista documental e erudito, O Avesso de um Balzac Contemporâneo se coloca muito acima da média das obras que tratam de autoria, estilo e crítica comparada, e isto permanece verdadeiro mesmo que o leitor não aceite a hipótese mediúnica. O livro se sustenta, antes de tudo, pela qualidade da pesquisa e pela disciplina do confronto textual, que afastam a obra tanto do amadorismo quanto da apologética. Entre os pontos fortes, há que se destacar um domínio profundo da obra de Balzac, mobilizada em camadas diversas (romanesca, filosófica e estilística) e apoiada não apenas nos títulos maiores da Comédie Humaine, mas também em romances específicos (como Ursule Mirouët, La Peau de Chagrin, Louis Lambert e Séraphîta), além de correspondência e crítica histórica de recepção. Esse domínio aparece com especial nitidez quando o texto “mediúnico” é confrontado com constantes internas da escrita balzaquiana, em capítulos como “Examinando o Prefácio” e “Primeiras Indagações”, nos quais a comparação não se limita a impressões: ela busca regularidades, tensões e recorrências verificáveis.
A pesquisa apresenta no capítulo “A Ignorada Obra-Prima” uma investigação iconográfica rara, rigorosa e de alto nível. O elogio não se dirige ao brilho retórico, mas ao método: identificação da tela La Ferme de Paul Potter no Hermitage, reconstrução de sua história crítica, verificação da possibilidade histórica de acesso por Balzac (com referência à viagem a São Petersburgo em 1843) e correlação minuciosa entre detalhes pictóricos e descrições narrativas. Não se trata de “ensaio impressionista”, mas de pesquisa positiva, ancorada em fontes, catálogos, inventários e verificação cruzada. Um grande eixo de força, ainda no campo das virtudes, é o uso competente da crítica comparada clássica, metodologicamente correta e bem explorada com o emprego de Pierre Abraham (Créatures chez Balzac) como matriz comparativa, especialmente em “Primeiras Indagações”. O mérito está na sobriedade dos procedimentos: as categorias de comparação são respeitadas; os paralelos são numerosos, específicos e textualmente verificáveis; e, sobretudo, não se cai na tentação de analogias vagas, mas se identificam recorrências estruturais.
Quanto à metodologia, ainda há um ponto surpreendente: ainda que o livro tenha sido escrito fora de um ambiente universitário estrito, sua metodologia é sólida, internamente coerente e, em certa medida, moderna. Um aspecto relevante é o critério de não circularidade: o autor evita, na maior parte do tempo, a fórmula fácil “é Balzac porque parece Balzac” e tenta, em seu lugar, rastrear padrões estilísticos raros, recorrências simbólicas e decisões estruturais, como cronologia, espacialização e o uso de mito e teatro/ópera. Essa exigência comparativa, pensada como libreto, música e cenografia, e não como um ornamento interpretativo, mas uma resposta à presença sistemática de música, um modo de explicar a economia dramática e de justificar escolhas narrativas pouco usuais no romance realista.
Um gesto raro se destaca em “Um Contrabando Literário” pela capacidade de inverter o vetor da prova. O texto deixa de ser apenas objeto de exame e passa a funcionar como instrumento hermenêutico para reler La Peau de Chagrin, procedimento ousado, porém intelectualmente legítimo, quando bem executado, o que é o caso.
Há aspectos a serem postos em perspectiva. A robustez argumentativa é alta, mas não absoluta. Há regiões em que a força da demonstração se torna particularmente convincente: a análise iconográfica ligada a Potter, a cronologia comparada, os paralelos estilísticos sistemáticos e a coerência simbólica (androginia, duplo, unidade perdida). Contudo, percebe-se vulnerabilidades que não decorrem exatamente de falhas técnicas, mas do horizonte interpretativo adotado. Uma delas é a dependência do paradigma espírita: em capítulos como “Na Espiritualidade”, certos elementos só ganhariam plena inteligibilidade se o leitor aceitasse pressupostos como reencarnação, continuidade da identidade espiritual e a psicografia como canal legítimo. Do ponto de vista acadêmico estrito, isso não anula a pesquisa, mas restringe sua universalidade. A outra vulnerabilidade é o estatuto probatório da autoria. A pesquisa demonstra com muita força que o texto não é um pastiche vulgar, que exige uma competência balzaquiana profunda e que dialoga com zonas obscuras da obra original; mas observa que ele não prova, em sentido positivista, que Balzac seja o autor, limite que, em sua leitura, é estrutural ao próprio problema, mais do que uma deficiência do pesquisador.
Como estudo crítico-literário comparado, a obra é notável; como investigação de autoria, figura entre as mais sérias já realizadas neste campo; e, como objeto histórico-cultural, talvez seja hoje ainda mais relevante do que no momento em que foi escrita. Se o trabalho fosse apresentado sem o enquadramento mediúnico explícito, como um estudo de estilística comparada e intertextualidade balzaquiana aplicado a um romance apócrifo do século XX, ele poderia circular, sem constrangimento, por muitos comitês acadêmicos.